Dave Kelly, chef, ativista e ex-sem teto: ‘Convidamos empresários para dormir na rua’

Inglês que perdeu emprego e dormiu ao relento 7 meses hoje vive de ajudar pessoas na mesma situação. Ele veio ao Rio de Janeiro para intercâmbio com instituições locais

O projeto 'With One Voice' transforma a vida de moradores de rua atraves da arte (foto: Leo Martins / Agência O Globo)

O projeto ‘With One Voice’ transforma a vida de moradores de rua atraves da arte (foto: Leo Martins / Agência O Globo)

Adalberto Neto, em O Globo

“Nasci em Manchester. Eu era um chef bem sucedido até perder meu emprego e não conseguir um novo. Vivi nas ruas por sete meses. Hoje sou cozinheiro voluntário no Booth Centre, que ajuda pessoas sem-teto. Também toco violão para desassistidos. Voltei a morar num flat, com a ajuda que a instituição me dá em troca”

Conte algo que não sei

Em Manchester, como o governo não desenvolve programas de ajuda a sem-teto, costumamos convidar empresários para dormir na rua e sentir na pele o que vive diariamente a pessoa que não tem casa. Isso é bastante eficiente. Depois da experiência, muitos passam a abraçar a causa.

Você estava solteiro quando morava na rua?

Não, eu tinha uma namorada. A gente morava num flat. A falta de dinheiro acabou com o relacionamento. Ela foi morar com a mãe. Cheguei a ficar um tempo na casa de amigos, mas chegou uma hora em que achei que estava sobrando, e parti.

Como é morar na rua?

É assustador, desconfortável e perigoso. É muito ruim depender de banheiro público. Quando chegou o frio, piorou, claro. Vivia gripado. Costumava dormir num parque local e, numa manhã, quando acordei coberto de neve, vi que, realmente, precisava de ajuda.

Qual foi a saída?

Entrei numa instituição chamada Booth Centre, que dá suporte a moradores de rua. No começo, eles me ajudaram com café da manhã e almoço. Depois, me colocaram num hostel, onde fiquei por sete meses. Há quatro anos, voltei a morar num flat, que mantenho com a ajuda financeira que recebo do governo e o com o auxílio da Booth Centre.

O que é o With One Voice?

É um projeto que transforma a vida de moradores de rua, por meio da arte. Conheci quando uma delegação brasileira veio visitar Londres e Manchester. Relatei minha experiência e mostrei como vivem os sem teto e como era nosso trabalho com eles. Duas semanas depois, embarquei para o Brasil, onde fizeram o mesmo tour comigo.

Como foi?

Conheci um total de onze projetos, no Rio e em São Paulo e, participei de seminários nas duas cidades. Aqui você encontra um monte de serviços numa só instituição: assistência médica, odontológica, psicológica, ajuda com alimentação. No Reino Unido, nós também temos isso tudo, mas cada coisa num lugar diferente.

Como é esse trabalho com arte que vocês desenvolvem?

Aulas de artes em geral. Música, teatro… Ensinamos sobre ópera, drama. Costumo tocar violão para distrair as pessoas que atendemos. Eles gostam.

Como os sem teto escolhem o seu local de moradia?

Optam por dormir em lugares no centro da cidade, onde se sentem mais seguros por serem lugares mais movimentados. Mas isso virou ilegal e, agora, uma pessoa pode ser presa por dois anos por dormir no centro de Manchester. Isso é chocante. Eles gastam milhões para levar essas pessoas para a corte, onde respondem como criminosas.

De que adianta isso?

Em vez de investir em acomodação ou em algo construtivo, o poder público deixa as pessoas morrerem de pneumonia ou as prende. É triste. Já perdi grandes amigos. A gente expõe fotos de dezenas de pessoas mortas assim para sensibilizar o cidadão.

Você já deu dinheiro a uma morador de rua?

Não, pois eles podem usar o auxílio com drogas. Mas antes de me tornar um deles, já paguei refeições para muita gente que estava com fome.

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