O poder que as bobagens sem sentido exercem sobre nossa mente

publicado na Galileu

Nós falamos e ouvimos bobagens o tempo todo. Em algumas situações, até sabemos que estamos diante da fabricação de uma lorota genuína – na tentativa de ganhar uma discussão de boteco, por exemplo. Mas, na maioria dos casos, a bobagem vem travestida de verdade ou até mesmo de afirmação profunda e reveladora. Por que somos tão suscetíveis a isso? Pela primeira vez, cientistas abordaram o tema empiricamente.

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Em um estudo chamado On the reception and detection of pseudo-profound bullshit (Sobre a recepção e a detecção de bobagens pseudoprofundas, em tradução livre) cinco pesquisadores da Universidade de Waterloo, no Canadá, investigaram o fenômeno. A ideia era entender como “frases aparentemente impressionantes, apresentadas como verdadeiras e significativas, mas que na verdade são irrelevantes e vazias” são recebidas pelas pessoas. No caso, as pessoas eram centenas de estudantes de várias áreas e trabalhadores da Amazon Mechanical Turk (site americano que promove o contato entre empresas e pessoas físicas dispostas a exercer trabalhos pontuais que ainda não podem ser exercidos por máquinas, como escrever a descrição de um produto ou selecionar fotos para um catálogo).

A pesquisa seguia o seguinte método: as pessoas eram convidadas a dar uma nota de profundidade de 1 (zero profundo) a 5 (muito profundo) para as frases apresentadas a elas. Essas sentenças vinham de vários lugares: desde o wisdomofchopra.com (site que gera frases aleatórias como se tivessem sido ditas pelo médico e guia espiritual indiano Deepak Chopra), passando por tweets do próprio Chopra, até chegar em frases julgadas pelos pesquisadores como minimamente relevantes.

Os achados do estudo deram origem ao Bullshit Receptivity Scale, ou Escala de Receptividade de Bobagens, uma forma de quantificar o nível de abertura de cada um para esse tipo de bobagem. Sobre a escala, vale pontuar duas observações: primeiro, é preciso encará-la com certo ceticismo, já que o grau de profundidade de cada frase era atribuído pelos próprios pesquisadores – e há poucas coisas mais subjetivas que a relevância de uma sentença (frases não são poços cuja profundidade pode ser medida em metros). Segundo, a conclusão do estudo é, no mínimo, intuitiva: quanto mais vulnerável à “falsa profundidade” você for, mais propenso estará à teorias conspiratórias e crenças paranormais. Também é provável que você seja pouco reflexivo e não tenha uma habilidade cognitiva lá muito alta.

Em 2005, foi lançado no Brasil um livro que trata sobre o tema. Em “Sobre Falar Merda”, o filósofo americano Harry G. Frankfurt diferencia a bobagem da mentira, do blefe e da dissimulação, colocando a primeira como o tipo mais nocivo de falácia, já que quem fala uma bobagem não tem a menor preocupação com a verdade ou com a mentira. A sua única preocupação é consigo mesmo e como sua imagem será recebida pelos outros. Em uma das passagens mais célebres da obra, Frankfurt diz que “é impossível que alguém minta sem achar que sabe a verdade. Produzir bobagens não requer tal convicção”.

De acordo com Gordon Pennycook, o coordenador da pesquisa, o problema de possuir uma alta pontuação na Escala de Receptividade de Bobagens não é ficar compartilhando frases clichês com imagens de pôr-do-sol na praia. Essa é uma prática inofensiva. O problema é quando esse grau de receptividade é pensado no contexto atual de propagação infinita de notícias e fatos em incontáveis mídias. A falta de pensamento crítico pode nos tornar presas fáceis para notícias falsas e, muito tranquilamente, podemos nos tornar cúmplices ao compartilhar coisas que não batem com a realidade. A era do conhecimento é também a era da bobagem.

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