Eles ficam, mas no quartinho dos fundos

A elite política brasileira vê os refugiados da mesma maneira como vê os mais pobres, como segunda classe de seres humanos

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Carlos Bezerra Jr., na Folha de S.Paulo

Somos um país de braços abertos aos refugiados sírios, mas da boca para fora. Entre receber na plenitude, como se imagina num país feito de imigrantes, e investir no improviso de olho no marketing, infelizmente ficamos com a segunda alternativa.

Diversas autoridades políticas anunciaram recentemente, como se fosse ato heroico, a inclusão de estrangeiros no Bolsa Família. Além de não ser novidade, trata-se da única política que se efetivou para o acolhimento de refugiados sírios no Brasil.

Segundo o Ministério da Justiça, 2097 cidadãos sírios vivem no Brasil como refugiados. Recebem o benefício 163 famílias e eram 23 em dezembro do ano passado, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social. Estrangeiros regularizados sempre puderam participar do programa, obedecendo as mesmas regras dos brasileiros.

Política semelhante, foi tentada pelo vizinho Uruguai que criou um programa específico de acolhimento de refugiados. Eram oferecidos cerca de US$ 900 mensais – a média do Bolsa Família é de R$ 173 – por um período. A boa intenção não foi suficiente para integrar os refugiados

Alegando falta de perspectiva de futuro, famílias acamparam em frente à sede do governo uruguaio pedindo para ser mandadas ao Líbano. Uma reunião no mês passado em Juan Lacaze, província de Colônia, acabou com um pai de família, refugiado, agredindo fisicamente um funcionário do governo.

Dois anos depois da chegada dos primeiros refugiados sírios, o governo brasileiro ainda nem fez um programa de acolhimento. A elite política brasileira olha para os refugiados da mesma maneira como vê a camada mais pobre da nossa sociedade, como uma segunda classe de seres humanos, sem o direito de reivindicar qualquer espécie de dignidade que precise viver fora do quarto dos fundos.

Há articulações aqui e acolá do Conare, Comitê Nacional para Refugiados do Ministério da Justiça com Estados, Municípios e instituições que fornecem ajuda. Os que chegaram ganham um cartão do SUS, as crianças podem frequentar escola e há permissão de trabalho.

Mas pouco ou nada foi feito para que os mais velhos continuem a faculdade, que os adultos regularizem seus diplomas ou que tenham suporte para estabelecer negócios. O estardalhaço das declarações de que o Brasil está aberto aos refugiados parece piada diante do mar de burocracia ao qual eles são atirados sem apoio.

Nos debates acalorados das redes sociais, fala-se muito no “nós x eles”, a divisão apaixonada entre governo e oposição. Mas o “nós x eles” mais arraigado é outro, o que reserva espaços exclusivos de existência para quem já está nos círculos mais beneficiados por dinheiro, prestígio e poder.

Raciocinamos na lógica do camarote. Aqueles que a ele chegam, alçados pela hereditariedade, vínculos sociais ou lampejos da sorte, teriam direito a tudo. Os que estão de fora precisam se contentar com as migalhas que os ocupantes do camarote jogam. O raciocínio é feito na lógica perversa de casa grande e senzala, que temos o dever histórico de combater.

Os braços abertos se cruzam para os refugiados que almejam o que nós desejamos para as nossas famílias. Eles podem ser “os refugiados”, gente que nosso governo ajuda principalmente quando isso rende flashes. Não podem ser cidadãos ativos, que contribuem com a nossa sociedade, que constroem o futuro conosco, lado a lado. Eles não podem ser nós.

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