Guia para cumprir as metas de 2016 antes que seja tarde demais

publicado no El País

Das duas uma: ou você é uma pessoa sensata preocupada em levar um estilo de vida regrado e saudável ou é uma pessoa feliz. Ainda recordo com nostalgia quando eu engrossava as ociosas e caóticas fileiras do segundo grupo e não era capaz de conceber o conceito de “metas de ano novo”. Me parecia masoquista acalentar esperanças irreais sobre a própria capacidade de trabalho e a força de vontade.

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Não dava a mínima para tendências de lifestyle e me sentia logicamente superior por isso. Abraçava o caos e a improvisação a cada segundo e ia contornando os obstáculos do caminho. Tinha um cérebro napoleônico preso no corpo de uma jovenzinha provinciana.

Bons tempos, tão distantes. Caminhar pelo lado selvagem da vida é muito bom, mas manter esse comportamento requer enormes doses de atitude e a atitude se desgasta com a idade. Em algum momento de minha vida senti, como Tamara Falcó, o chamado da luz, a ordem e a beleza dos ângulos retos. Descobri a paz de espírito que proporciona um banho regrado, um arquivo de faturas e um porta-temperos arrumado em ordem alfabética.

Eu estava disposta a perder e era feliz, porque perder é algo facílimo, que se consegue de primeira. Mas me dispus a ganhar e então me tornei uma autêntica perdedora.

Felizmente aprendi que se lamentar não serve de nada. Ou você está de um lado ou de outro. Ou vive no lado escuro e aproveita ao máximo ou combate com honra na vanguarda do correto. O que é realmente improdutivo e absurdo é perdermos tempo sentindo-nos culpados por não fazer o que acreditamos que deveríamos. Esse constante mimimi interior não é comparável a uma grande tragédia ou aos graves problemas que cada um tem em sua vida, mas é o combustível da infelicidade crônica. Assim, se somos pessoas que tomam decisões de ano novo, ESSAS DECISÕES DEVEM SER CUMPRIDAS.

As metas intermináveis

Há gente para quem basta uma agenda, uma caneta e sua força de vontade. Não é o meu caso, claro. Muito menos quando se trata de coisas que não são para realizar uma única vez, mas metas que consistem em fazer algo todos os dias até o fim dos tempos.

Lembram-se da época em que os intrépidos caçadores viajavam às terras exóticas da África para caçar “os cinco grandes”? É óbvio que não, nem eu, porque não tínhamos nascido. O rinoceronte negro não existe mais e levamos uma vida de miseráveis urbanoides. Para nós, “os cinco grandes” são os seguintes:

– Fazer exercícios
– Alimentar-se de maneira saudável
– Aprender idiomas
– Economizar
– Para os que são pais: simplesmente ter tempo livre

Essas são as cinco bestas de hoje e cada uma delas é a razão de ser de enormes indústrias que lucram com nosso fracasso constante.

1. Analise por que você está falhando

Quando nos dispomos a incorporar uma rotina em nossas vidas, é a novidade que assume o protagonismo. Compramos os materiais e o equipamento que o hábito exige: a roupa esportiva tão cara que fica no armário ou o caderno tão bonito com uma única folha escrita. Toda essa ilusão serve para nos colocar em movimento, mas não para nos manter em ação. O caminho está cheio de obstáculos e não vamos conseguir nos esquivar se não os virmos chegando. Para isso é muito útil, antes de se emocionar, analisar o que nos fez falhar outras vezes. Com frequência não é fácil identificar, pois em vez de um problema que salta aos olhos, trata-se de uma série de pequenos inconvenientes: o frio que faz quando saímos da cama ou a preguiça que dá tirar e guardar o material que vamos usar. Em seu livro The happiness advantage, Shawn Anchor, outro conhecido coach especialista em produtividade, conta como conseguiu incorporar a rotina de fazer esporte diariamente indo para a cama com a roupa de treino ou como colocar um violão no meio do quarto o ajudou a praticar o instrumento todos os dias. Trata-se de eliminar, na medida do possível, o atrito prévio à realização da atividade.

2. Não, você não merece um descanso

O pior hábito que existe, o hábito destruidor de hábitos, é aplicar a improdutividade como recompensa para a produtividade e chamá-la eufemisticamente de “descanso”. Minha filósofa favorita, Allie Brosh, explicou muito bem em seu artigo This is Why I’ll Never be an Adult. Quanto mais você faz, mais sente que merece sentar e procrastinar como se não houvesse amanhã.

Em seu curso, Tiago Forte reúne a reflexão de Gretchen Rubin (outra velha conhecida minha): quando criamos um hábito estamos tentando condicionar o cérebro para que automaticamente, todos os dias, nos oriente para a atividade que escolhemos. Então não podemos educar nosso cérebro na crença de que a recompensa por realizar esta atividade é não fazê-la. Isso seria exatamente o contrário do que nos propomos.

3. Tire o pó de seus valores

Estamos acostumados a justificar todos os nossos propósitos com razões. Por exemplo:

— “Quero fazer exercício todos os dias para ficar saudável e não ter dor nas costas.”

Parece razoável, é uma verdade. Mas o problema é que até que eu não esteja doente ou com dores nas costas não terei uma razão poderosa que me leve a praticar esporte. O mesmo acontece com a preocupação de comer comida saudável quando estamos com sobrepeso. Quando o problema desaparece, a razão perde a força.

A melhor forma de reforçar o hábito não é a argumentação, mas nossos próprios valores. Não se fala deles com muita frequência, exceto para dizer que estamos vivendo uma crise em relação a eles, e talvez por isso não costumemos levá-los em conta. Cada pessoa tem valores completamente diferentes, e talvez os que lemos em manuais e artigos soem bem mas não funcionem conosco. Dou meu próprio exemplo:

— “Vou fazer exercício todos os dias porque acredito que se todos levássemos um estilo de vida saudável seríamos mais felizes.”

Er… não. Para mim a ideia de felicidade é um bolinho da Pantera Cor-de-Rosa. Próximo.

— “Vou fazer exercício todos os dias porque considero a atividade física fundamental para o desenvolvimento de uma pessoa.”

Hahahahaha, não.

— “Vou fazer exercício todos os dias porque acredito que cada pessoa é responsável para que seu nível de estresse não afete os que estão à sua volta, e a atividade física é a melhor maneira de manter o meu no lugar.”

Bingo.

4. Faça o que for, mas não quebre a corrente!

Sempre me surpreendo de como os estímulos visuais são poderosos. Conhecia o método Don’t break the chain (Não quebre a corrente), popularizado pelo comediante Jerry Seinfeld, e até já tinha experimentado a ferramenta online, mas até que meu hábito não chegou a um número significativo de dias visualmente marcados não tive consciência de quão insuportável me parece a ideia de deixar um buraco no meio. Um calendário e um pincel atômico vermelho são suficientes, mas o app que uso para ter o gostinho de anotar tudo é o Lift, no qual, além disso, é possível compartilhar os avanços com outros usuários e verificar que há muitos primeiro-mundistas por aí compartilhando suas mazelas.

5. Para chegar à meta é preciso se esquecer da meta

Esta é uma reflexão a que cheguei por minha própria experiência. Os mecanismos cerebrais da aprendizagem têm coisas em comum com a criação de hábitos, mas formam um campo da psicologia totalmente distinto. No entanto, na prática, com frequência tomamos um pelo outro quando nos propomos a praticar alguma coisa todos os dias e ao mesmo tempo aprender. Pode ser tocar um instrumento, dominar um idioma ou ser bons em determinado esporte. É verdade que se fazemos algo todos os dias melhoraremos nisso – essa é uma das bases do aprendizado. Às vezes, quando preciso de uma dose de motivação visito o Give It 100, uma plataforma fundada por Karen X. Cheng (a protagonista deste vídeo viral), na qual os usuários compartilham a evolução de seus progressos durante 100 dias de prática de qualquer atividade.

No entanto, se transformamos a meta de nossa aprendizagem no objetivo principal, corremos o risco de que nossa frustração ao não obter os resultados esperados acabe com o hábito. Se, ao contrário, nos propomos como objetivo manter o hábito, será mais fácil superar as dificuldades da aprendizagem. Nos sentiremos satisfeitos, dia após dia, por termos dedicado o tempo planejado à atividade e não ficaremos tão obcecados em medir nossos avanços. O importante não é a felicidade que acreditamos estar à nossa espera ao chegar à meta, mas ser feliz aproveitando o caminho.

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