Todos acharam um absurdo: “Sou uma ex-freira e me casei com um ex-padre”

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Publicado no UOL

É isso que Deus deseja para mim!” Eu tinha 21 anos quando entrei para o convento. Até então, levava uma vida absolutamente normal. Gostava de dançar, fazer teatro, andar de bicicleta, nadar, ir ao cinema e até de namorar. Mas desde os 18 já avaliava a possibilidade de seguir a vida religiosa, pois a vontade de ajudar os outros sempre falou alto em mim. Sonhava em ser enfermeira e ir para a África cuidar de leprosos. Movida por essa vocação, fui freira durante 13 anos e meio. Um dia, porém, comecei a questionar a vida religiosa. Para completar, conheci o Luís – que era padre! Rompemos os votos, casamos e há 36 anos vivemos uma linda história de amor.

Meus amigos acharam um absurdo

Sou de uma família humilde do interior da Alemanha. Papai era operário de fábrica, mamãe cuidava da casa e das três filhas. Aos 18 anos, fui trabalhar na área comercial de um escritório. Aproveitava a vida como qualquer jovem. Tinha meus namoradinhos, mas nos moldes daquele tempo: passeava de mãos dadas no domingo à tarde, sem maiores intimidades.

Porém, minha vocação era auxiliar as pessoas. Tanto que procurei um padre amigo – era católica praticante – e comentei meus planos de ir à África. Ele me desaconselhou a fazer isso sozinha e me sugeriu entrar para o convento. Assim, cursaria enfermagem e ainda teria o apoio de uma comunidade. Depois de pensar nisso por três anos, entrei para as Beneditinas Missionárias de Tutzing.

Meus amigos acharam um absurdo uma menina alegre como eu entrar para o convento. Mamãe aceitou bem. Papai, não. Por eu não levar um “dote” para a igreja, ele pensou que eu seria maltratada. O que não aconteceu, claro!

Nunca trabalhei tanto e tão duramente como no convento. Levantávamos às 4h20 e só deitávamos às 21h30. Primeiro, trabalhei na lavanderia, cuidando de toda a roupa do hospital do convento. Também atuei na cozinha, preparando refeições para 450 pessoas, e na horta. Só parávamos de trabalhar para comer, orar e fazer um curto recreio, à tarde. Descanso? No domingo à tarde… por duas horas! Era puxado, mas eu estava feliz, aprendendo. Nem me sentia enclausurada!

Dois anos após entrar no convento, fiz meus primeiros votos. Logo em seguida, me mandaram fazer um curso para obter o 2º grau e a licença para entrar na universidade. Estava ansiosa por enfermagem, mas decidiram que eu deveria cursar teologia, em Roma. Eu não podia contestar: tudo que as superioras decidiam era “a vontade de Deus”. Comecei a ter dúvidas…

Passei a questionar minha escolha

Começaram as incertezas. Aos 27 anos, eu já tinha feito os votos perpétuos. Não podia simplesmente sair do convento. Na verdade, esperava que a incerteza passasse, pois me preparava para trabalhar numa missão em Angola, na África. Mal sabia que lá minha história se cruzaria com a do Luís.

Me apaixonei pelo padre Luís

Fiquei em Angola por um ano e meio, ensinando catequese e cuidando de doentes – mesmo sem ser enfermeira! Na época, padre Luís era o diretor da escola. Tinha 42 anos e seguia a vida religiosa havia 18. Quando o conheci, sabia que estava apaixonada. Mas lutei contra isso! E ele também, pois levávamos a sério os nossos votos. Apesar de nos gostarmos muito, não havia namoro. Apenas conversávamos sobre nossos questionamentos, sobre a vida religiosa fazer ou não sentido.

Após uma intensa luta interior, percebi que aquele não era o meu caminho. Sofri demais! É muito mais fácil entrar num convento com o entusiasmo dos 21 anos do que deixá-lo aos 34. Ainda assim, voltei para a Alemanha, onde morei com minha irmã e trabalhei por um ano como professora de religião. Luís, então com 46, também desistiu da batina, virou gerente de construções e foi viver em Brasília com um irmão.

Durante o ano em que ficamos separados, combinamos que cada um seria livre para voltar para o convento, achar outro parceiro ou ficar solteiro. Preferimos decidir nosso caminho individualmente. Mas trocávamos cartas toda semana. Até que decidimos tentar a vida juntos. Nossa licença de Roma já tinha nos liberado do celibato.

Vim para Brasília rever meu amor

Veio, então, a não aceitação dos familiares e amigos. Eles achavam loucura eu sair do convento e ainda ir para o Brasil, para casar com um ex-padre português com quem nunca tinha namorado. Mamãe fez drama. Uma tia disse que preferia ir ao meu enterro do que ouvir aquela notícia. Já papai e minhas irmãs me apoiaram. Mais tarde, o Luís virou o genro preferido, até para mamãe!

Cheguei em Brasília em julho de 1975. Fui para a casa da família do irmão do Luís. Por segurança, havia comprado bilhete de volta. Bobagem: em outubro do mesmo ano, nos casamos na igreja. Usamos o dinheiro da passagem de volta para comprar nossa primeira geladeira.

Foram tempos bem difíceis. Nos primeiros nove meses, fiquei desempregada. Ao saberem que era ex-freira, as pessoas me recusavam, pois achavam que eu não iria transmitir a fé verdadeira nas aulas de religião. Após uma fase financeiramente dura, virei secretária na Embaixada da Alemanha, em Brasília. Trabalhei lá durante 29 anos. Agora estou aposentada. Sou dona de casa e faço trabalhos voluntários no hospital, na paróquia e numa instituição infantil.Hoje já estou mais da metade da minha vida casada com o Luís. Não consigo me imaginar sem ele. Em 1978, nasceu nosso filho, o André. Batizado e frequentador da igreja, ele sempre soube que seu pai foi padre e sua mãe, freira. Ele lida bem com isso, na verdade, acha o máximo!

Não me arrependo de modo algum de ter passado 13 anos e meio no convento. Foi um tempo em que amadureci e aprendi muito. Esse período faz parte da minha vida e não o negarei nunca. Além disso, nossa decisão de abandonar o hábito e a batina não significa que abandonamos nossa fé ou a igreja. – IRENE MARIA ORTLIEB GUERREIRO CACAIS, 72 anos, aposentada, Brasília, DF

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