Só no Brasil

O início do ano é um bom momento para refletir sobre nossos males, sem complacência com os culpados

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Ruth de Aquino, na Época

Esta lista é aberta e uma página de revista não basta para relacionar tudo o que nos choca a cada dia no Brasil. Existe corrupção no mundo inteiro. Desvios, crises, irresponsabilidade e pouca vergonha de políticos não são prerrogativas brasileiras. Mas há coisas que só acontecem aqui – ou em países muito subdesenvolvidos. O início de um ano é um bom momento para refletir sobre os males tupiniquins. E não ser complacente com os culpados.

• Só no Brasil uma quadrilha tira proveito de uma tragédia, como o crime ambiental de Mariana, em Minas Gerais, para furtar uma retroescavadeira e três escavadeiras hidráulicas no valor de R$ 2 milhões. Só no Brasil máquinas imensas como essas somem no ar. Só no Brasil “voluntários” tentam sacar com cheques falsos, da conta da prefeitura, doações às vítimas da calamidade.

• Só no Brasil se demora tanto tempo (mais de dois meses) para indiciar as empresas Samarco e Vale pelo rompimento da barragem em Mariana, o maior da História em volume de rejeitos de mineração despejados num rio. Só no Brasil a investigação se embola entre várias polícias. Até agora, os laudos ainda são verificados para investigar as mortes. Só no Brasil os moradores desabrigados desde 5 de novembro continuam sem receber as doações de R$ 1 milhão arrecadadas pela prefeitura de Mariana. Só no Brasil é preciso quebrar o sigilo da conta bancária da prefeitura para saber para onde foi esse dinheiro. Só no Brasil as vítimas continuam ao deus-dará.

• Só no Brasil, cinco anos após a tragédia da enxurrada que deixou 918 mortos e 215 desaparecidos na região serrana do Rio de Janeiro (Petrópolis, Teresópolis e Friburgo), 91 mil pessoas continuam a morar em área de risco – 20 mil delas em áreas de altíssimo risco de deslizamento –, como revelou o jornal O Globo em reportagem de Carina Bacelar. Só no Brasil a presidente Dilma Rousseff anuncia 6 mil moradias para as vítimas, mas depois “atualiza” os números. Só no Brasil a região serrana do Rio – tão sensível a desastres naturais – continua a reintegrar prefeitos acusados de corrupção, malfeitos e desvios de verba pública.

• Só no Brasil o saneamento básico é tão relegado a último plano que a previsão agora, com base em dados oficiais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), é que a rede nacional só esteja concluída em 2053. Um atraso de 20 anos em relação ao plano de Lula e Dilma. A promessa era de universalizar até 2023 a rede de água e até 2033 a coleta de esgoto. Só no Brasil a gente sabe que nem em 2053 teremos saneamento básico para todos. O que significa que, em vez de gastar com prevenção de doenças e epidemias, vamos continuar convivendo (ou morrendo) com índices altos de dengue, zika, febre amarela, malária, tuberculose, inadmissíveis no século XXI.

• Só no Brasil uma operação da PM encontra num conjunto de favelas, o Complexo do Chapadão, no Rio de Janeiro, 71 veículos roubados, entre eles um caminhão da Cedae e duas retroescavadeiras usadas em assaltos a caixas eletrônicos! Nem a polícia acreditou. Só no Brasil o poder público fecha os olhos e até encoraja a proliferação de favelas que se tornam fortalezas de bandidos. Imensas áreas esquecidas pelos governos, escolas do crime para crianças que, só com muita luta materna e paterna, conseguem ser matriculadas em redes públicas e escapar de um destino sombrio.

• Só no Brasil, com a crise instalada na casa de cada família e também no Planalto, a presidente cede à choradeira de partidos políticos e garante para o Fundo Partidário a verba de R$ 819,1 milhões para não deixar os pobrezinhos com pouca grana para as eleições municipais deste ano. O governo federal queria dar só R$ 311 milhões, mas abriu o cofrinho e antecipou o toma lá dá cá. Só no Brasil os 594 parlamentares (para que tanta gente???) não sofrem cortes em suas mordomias e terão direito em 2016 a R$ 9,09 bilhões em emendas individuais. Enquanto isso, a Saúde mata brasileiros que esperam mais de um ano para um simples exame de imagem, ou que só conseguem se internar em hospitais com ordem judicial, às vezes tarde demais. Só no Brasil o ano dos parlamentares começa depois do Carnaval. Só no Brasil quem paga a conta da incompetência são sempre os contribuintes.

• Só no Brasil a presidente anuncia oficialmente um Orçamento anual de R$ 3 trilhões que prevê uma receita ainda inexistente: os R$ 10,5 bilhões da defunta CPMF. Só no Brasil querem que a gente ainda acredite no “contingenciamento” de recursos para a Saúde e Educação. Palavra horrível e mentirosa.

• Diante dessa realidade, os protestos mais inflamados no país se referem apenas ao preço das passagens em São Paulo. Só no Brasil.

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