Indústria de smartphones se alimenta do trabalho infantil, diz Anistia

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Nas vitrines de lojas, smartphones de última geração são objeto de desejo de milhões de consumidores ávidos por tecnologia, mas, na outra ponta deste mercado bilionário, crianças de até 7 anos de idade são exploradas em minas de cobalto na República Democrática do Congo. O alerta foi dado pela Anistia Internacional, em relatório divulgado esta semana. O metal é elemento chave para a fabricação de baterias recarregáveis de íon-lítio, que alimentam eletrônicos, carros e outros produtos.

De acordo com a organização, a República Democrática do Congo é responsável por mais da metade do fornecimento global de cobalto e, segundo estimativas do próprio governo, 20% da produção exportada é oriunda de minas artesanais localizadas na região de Katanga, ao Sul do país. Lá, existem entre 110 mil e 150 mil pessoas, incluindo crianças, que, com ferramentas básicas, escavam túneis improvisados e extraem o metal de rochas descartadas por mineradoras industriais.

A Anistia Internacional afirma ter traçado a cadeia produtiva das baterias fabricadas com o cobalto explorado por mineiros artesanais. No fim, estão gigantes multinacionais. Uma das maiores empresas no centro desta cadeia é a Congo Dongfang Mining International (CDM), subsidiária da chinesa Huayou Cobalt, fornecedora de 16 companhias que estão entre as maiores do mundo, como Apple, Dell, Lenovo, LG, Microsoft, Samsung, Sony e Vodafone, assim como as montadoras Daimler AG, Volskwagen e BYD.

— Os perigos à saúde e à segurança fazem da mineração uma das piores formas de trabalho infantil — disse Mark Dummett, pesquisador da Anistia Internacional. — Companhias que geram lucros globais de US$ 125 bilhões não podem afirmar de forma crível não serem capazes de checar onde minerais fundamentais nos seus produtos são extraídos.

US$ 1 POR JORNADA DE 12 HORAS

Em 2014, estimativas da Unicef apontaram que aproximadamente 40 mil meninos e meninas trabalhavam nas minas ao Sul do país. O relatório da Anistia Internacional foi elaborado com base em 90 entrevistas com pessoas que trabalhavam nas minas, incluindo 17 crianças. A exposição à poeira resultante da exploração do cobalto está ligada a diversos problemas respiratórios, e o metal também causa doenças de pele. Nas conversas, crianças relataram que são submetidas a jornadas de trabalho de até 12 horas por dia, e recebem salários diários que variam entre 1.000 e 2.000 francos congoleses, o equivalente a US$ 1 ou US$ 2.

“Existe muita poeira, é muito fácil pegar resfriados, e nos machucamos sempre”, contou Dany, um garoto de 15 anos, aos pesquisadores da Anistia Internacional. Paul, de 14 anos, trabalhando em túneis subterrâneos desde os 12, contou que “passa 24 horas dentro dos túneis. Eu chego pela manhã e saio só na manhã seguinte”.

Os pesquisadores seguiram veículos de mineradores e comerciantes que saíam com o cobalto extraído das minas artesanais até um mercado em Musompo. Lá, mercadores independentes compram a produção sem preocupação da origem, e revendem para grandes companhias, como a CDM. As Nações Unidas responsabilizam as companhias pelo respeito aos direitos humanos em suas operações internacionais, incluindo as cadeias de fornecedores. Elas devem realizar diligências para “identificar, prevenir, mitigar e mensurar como elas lidam com seus impactos nos direitos humanos”.

“Companhias que compram cobalto, ou componentes que contém o metal, não têm desculpas para não conduzirem essas diligências”, diz o relatório. “Pesquisas para este documento demonstraram que companhias ao longo da cadeia de fornecimento do cobalto estão falhando em conduzir diligências adequadas ligadas aos direitos humanos”.

REPOSTAS DAS EMPRESAS

Em resposta à Anistia Internacional, a Samsung negou relações comerciais com a CDM, mas confirmou negócios com outra fornecedora citada no relatório. A companhia afirmou que está realizando diligências ao longo de sua cadeia de fornecedores de minerais explorados em regiões de conflito, mas não do cobalto. Por fim, ela conclui ser “muito difícil traçar a fonte de minerais por causa de informações não divulgadas e complexidade das cadeias de fornecedores. Dessa forma, é impossível determinar se o cobalto fornecido para a Samsung SDI vêm das minhas de Katanga”.

A LG Chem confirmou que a Huayou Cobalt está em sua cadeia de fornecedores e pediu confirmação dos resultados do relatório antes de tomar medidas.

“Nós estamos discutindo se existe a necessidade de nós conduzirmos nossa própria inspeção nas áreas de mineração de cobalto em Katanga”, disse a companhia.

A Sony informou que leva a “questão seriamente e conduz processos de checagem. Até agora, nós não encontramos resultados óbvios que nossos produtos contêm cobalto originado das minas de Katanga na República Democrática do Congo”. A Daimler afirma que “no caso particular, nós podemos confirmar que não temos fontes da República Democrática do Congo ou as companhias mencionadas. Entretanto, ressalta que “dada a alta complexidade das cadeias de fornecedores, não podemos confirmar definitivamente se existe ou não cobalto em nosso produtos originados desta região ou das companhias mencionadas em qualquer estágio dentro da cadeia de fornecedores”.

A Huawey afirmou que o material usado pela empresa é fornecido pela Toda Hunan Shanshan New Material, que não usa matéria-prima oriunda da Huayou Cobalt. A Apple afirmou que está “avaliando dezenas de diferentes materiais, incluindo o cobalto, para identificar os riscos laborais e ambientais assim como oportunidades para a Apple trazer mudanças efetivas, escaláveis e sustentáveis”.

A HP informou que está conduzindo investigação com os fornecedores de cobalto e que “até o momento não encontramos qualquer conexão entre nossos produtos e as minas da República Democrática do Congo. Se um link for encontrado, nós tomaremos medidas para resolver os riscos levantados”.

A Microsoft confirmou que a Tianjin Lishen, uma das empresas citadas no relatório, era uma fornecedora, mas em pequena escala. No comunicado, a companhia informou que o fornecimento era apenas para projetos de desenvolvimentos de produtos e nenhuma bateria da fornecedora era utilizada em produtos atualmente vendidos pela Microsoft.

“Dado o pequeno volume usado, a Tianjin Lishen não está listada entre as cem maiores fornecedoras de hardware para a Microsoft”, afirmou a companhia.

A Lenovo, dona da Motorola, afirma que não é compradora direta das empresas citadas no relatório, mas confirma que a Tianjin Lishen é fornecedora para marcas licenciadas pela companhia. A empresa afirma que irá investigar o caso e, caso as informações sejam confirmadas, as compras da Tianjin Lishen serão descontinuadas. A Vodafone também negou que a Tianjin Lishen seja uma fornecedora direta.

A Volkswagen confirmou relações com uma das fornecedoras, mas, segundo a montadora, ela negou que o cobalto usado nas baterias seja originário da República Democrática do Congo. As outras empresas citadas no relatório não respondem à Anistia Internacional.

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