Como saber se as roupas que você compra provêm de trabalho escravo?

Rodrigo Cavassoni, no Papo de Homem

Na semana passada foi a vez de mais uma gigante da indústria têxtil parar nas páginas dos jornais por exigências trabalhistas abusivas. Dessa vez o Grupo Riachuelo foi condenado ao pagamento de R$10 mil mais pensão mensal à uma costureira da Guararapes Confecções S.A. que era pressionada colocar elásticos em 500 calças por hora, além de produzir mil peças de bainha por jornada de trabalho.

A atividade lhe rendia por mês R$550 e pioras no seu quadro adquirido de Síndrome do Túnel do Carpo, caracterizado por dores e inchaços nos braços em razão dos movimentos repetitivos e em demasia. A costureira declarou que evitava até beber água para que não precisasse ir ao banheiro, já que essas saídas eram controladas em sistemas de ficha pela supervisora do setor.

Já há um tempo reportagens e documentários como The True Cost vêm nos alertando do desrespeito aos direitos humanos e trabalhistas por parte de diversas marcas de roupas, principalmente nas redes de fast fashion.

No Brasil, infelizmente, temos notícia de grandes empresas que exploram o trabalho humano, como a Zara, que recentemente foi autuada pela prática de mão de obra escrava, e a Le Lis Blanc, que passou pelo mesmo papelão por não oferecer condições dignas de trabalho a seus funcionários.

Como consumidores, cabe a nós a escolha: vamos consumir diretamente de marcas que ignoram os direitos humanos? Vale o questionamento antes de comprar aquela roupa bacana nas grandes cadeias.

Mas como saber quem é vilão na indústria da moda?

Já falamos por aqui sobre o trabalho escravo e apresentando o coletivo Repórter Brasil. Eles realizam um trabalho fantástico de denúncia de trabalho escravo no país e recentemente lançaram o aplicativo Moda Livre, que vale a pena ser divulgado.

Ser um consumidor consciente dá trabalho. Não é fácil avaliar toda a cadeia de suprimentos de cada loja compramos. Mas se isso podia ser usado como desculpa para negligenciar práticas antiéticas praticadas por terceiros, agora vai começar a pegar mal: o aplicativo faz todo trabalho pra gente e aponta quem são os mocinhos e os vilões da indústria da moda. A ferramenta está disponível para Android e IOS. Baixada, usada e aprovada.


A proposta é trazer ao público, de forma fácil e rápida, as medidas que as principais marcas vêm tomando para evitar que as roupas vendidas em suas lojas sejam produzidas por mão de obra escrava. Para isso, o app avalia as principais varejistas de roupas do país, além de empresas que foram flagradas pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em situações de trabalho escravo.

As companhias listadas na plataforma foram convidadas a responder um questionário que se baseia em quatro indicadores: políticas, monitoramento, transparência e histórico. Com base nas respostas as empresas receberam uma pontuação que as classifica em três categorias: verde, amarelo e vermelho.


A ferramenta está no ar desde 2013 e hoje conta com 47 marcas, dentre as quais somente 5 receberam sinal verde (Scene, Malwee Brasileirinhos, Malwee, C&A e Carinhoso).

Entre as empresas que não demostram ter mecanismos de acompanhamento de seus produtos, têm histórico desfavorável em relação ao trabalho escravo ou não responderam o questionário estão a 775, Bo.Bô, Centauro, Colcci, Collins, Forum, Gangster, Gregory, Havan, John John, Leader, Le Lis Blanc, Lilica & Tigor, Marisol, M. Officer, Talita Kume, Triton, Tufi Duek e Unique Chic.

Além da classificação das marcas, o app oferece um panorama de cada empresa avaliada. Em relação à marca de roupas femininas Bo.Bô, por exemplo, o Moda Livre alerta: “em junho de 2013, fiscais do governo encontraram bolivianos em condições de escravidão costurando roupas para a Bo.Bô e para a Le Lis Blanc, outra marca do grupo Restoque. Nas lojas, elas valiam até 150 vezes mais do que o valor pago por peça para cada trabalhador”.

Com essas informações valiosas na palma da mão fica muito mais fácil escolher de quem vamos comprar. Então, antes de entrar numa loja, que tal pensar no tipo de empresa que queremos apoiar?

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