Eu não creio no amor

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Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo

Calma! Eu sei que essa afirmação é um horror. Ainda mais no começo de um ano em que buscamos pensar (com razão) coisas boas e construtivas. Vou dar o contexto em que esta afirmação (“eu não creio no amor”) se insere, ok? E ai você pode tocar sua semana mais ou menos em paz.

Mas, antes, um reparo. Alguém poderia indagar, e com razão, afinal de contas qual o motivo de eu achar que uma simples afirmação como esta (“eu não creio no amor”) num jornal, poderia causar mal-estar num leitor. Fácil responder: porque hoje, miseráveis do afeto como somos, fingidos e corretos como somos, qualquer frase um pouco mais forte pode causar “indignação”.

Ai vai o contexto prometido: é comum se afirmar, na esteira de John Lennon (e sua música “Imagine”) e de um Jesus “baratinho” que, se crermos no amor, tudo dará certo. No campo do diálogo entre as religiões, principalmente em época de Natal, afirmar que “todas as religiões creem no amor” é um excelente marketing. Mas, infelizmente, não é verdade. Nenhuma religião “crê” no amor, se essa “crença” significar o motor do seu comportamento histórico, social e político.

Mesmo a tal “economia solidária” funciona até a página três ou apenas quando está em jogo troca de apartamentos e de bikes nas férias.

Costumo dizer que basta um inventário de um apartamento na Praia Grande pra acabar com ideias como essa. O amor familiar, normalmente, não resiste a um inventário com sangue nos olhos.

Pois bem. Imagine se uma dessas grandes religiões traria “o amor” para negociação de alguma de suas propriedades. Se tiver tempo, se informe sobre os “acordos” entre as diferentes denominações cristãs ao redor dos lugares sagrados mais importantes da terra de Israel. Você duvidaria rapidamente de mensagens sobre “crer no amor”. Ou experimente entrar numa disputa com alguma instituição religiosa ao redor de algum terreno ou similar. A última coisa que você verá é o tal do “cremos no amor” na mesa de negociações. E o que achar de “judeus e árabes têm o mesmo Deus”?

Mas, todavia, vale dizer que “crer no amor” tem sim algum valor. Sapiens são animais que sim precisam “crer no amor” em algum nível, assim como precisam respirar. O trágico é, justamente, que nossa necessidade de “crer no amor” é verdadeira. Agora, que essa necessidade tenha validade de fato na vida real permeada por carne e sangue, é outra coisa.

O pensamento sim pode ser uma atividade triste muitas vezes.

Mas, isso não sou eu só que penso. Vejamos.

Estava eu vagando pela rua Garrett em Lisboa quando topei na livraria Bertrand com um pequeno livro excepcional do crítico literário George Steiner (um daqueles críticos que enfrentavam os autores sem a parafernália cretina de teorias literárias contemporâneas que nada significam de fato). O livro se chama “Dez Razões (Possíveis) para a Tristeza do Pensamento”, editora
Relógio D’ Água, Lisboa.

Devorei o livro num café, tomando Porto e fumando cubanos. Sim, em Lisboa ainda existem lugares civilizados em que você pode ler e fumar em paz sem que um fascista da saúde corte sua cabeça como se você fosse um herege contra o Estado Islâmico.

Steiner discute no livro a afirmação do filósofo alemão F.W.J. Schelling (1775-1854) segundo a qual, toda personalidade, todo pensamento humano, se ergue a partir de um fundamento sombrio, uma melancolia profunda que deve ser enfrentada a cada dia (palavras de Schelling em sua obra “Da Essência da Liberdade Humana” de 1809).

Qualquer alegria verdadeira, qualquer personalidade de fato, só se sustenta a partir dessa consciência sombria das incertezas, das contingências e das contradições que o pensamento maduro exige de qualquer um de nós. Viver é enfrentar isso. É assim que Steiner interpreta a “raiz sombria da personalidade” da qual fala o romântico Schelling. Nada mais distante da “crença no amor” que sustenta a miséria do afeto barato de nossos dias.

Como dizia o Conde De La Rochefoucauld no século 17, amor verdadeiro é como espírito, todo mundo diz que existe, ninguém nunca viu.

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