Potenciais assassinos

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Gregorio Duvivier, na Folha de S.Paulo

Tenho um pesadelo recorrente em que sou levado a matar alguém. Às vezes, estou assaltando um banco; o segurança espirra, tomo um susto e dou um tiro nele. Outras vezes, o revólver cai misteriosamente sobre a minha mão e tropeço, apertando o gatilho. (Vocês já devem ter percebido que o meu inconsciente é péssimo roteirista.)

Esse é só o começo do sonho. A partir daí, a noite se arrasta por muitas horas de julgamento (acho que assisti a episódios demais de “Boston Legal”) até que acordo culpadíssimo. “Coitado daquele segurança! Será que ele tinha filhos? Esposa? Como eles vão se sustentar?” Aos poucos, vou percebendo que nunca assaltei um banco, nunca tropeçaria apertando um gatilho. Ufa. Não matei ninguém. Que alívio, meu deus. Por isso penso que vale mais ter um pesadelo do que um sonho: acordar de um pesadelo faz perceber que a vida não é tão ruim, e acordar de um sonho faz perceber que a vida poderia ser bem melhor.

Em palestra, Freixo lembra o caso do adolescente que matou um ciclista no Rio de Janeiro. “Lembram do nome dele?”, Freixo pergunta. Ninguém se lembra, acreditando se tratar do menor de idade que esfaqueou o ciclista na lagoa. Freixo lembra: Thor Batista. Calcula-se que o primogênito do Eike, que já acumulava multas por excesso de velocidade, estava dirigindo seu Mercedes McLaren a 135 km por hora pelo acostamento quando colidiu com o ciclista que estava indo comprar um pudim para a esposa, que fazia aniversário. Thor foi absolvido. Às vezes penso que posso dormir tranquilo. Afinal, não uso armas. Não tenho o costume de assaltar bancos. Não sei lutar krav magá nem essas lutas em que seu corpo vira uma arma branca. Ou seja: nem que eu quisesse muito eu conseguiria matar alguém. A não ser, é claro, que eu dirigisse carros. Daí eu lembro: merda. Eu dirijo um carro.

Blindado no carro, mato quem quiser e saio ileso -inclusive da Justiça. O atropelamento é a forma mais aceita de assassinato. Você não se transportaria numa metralhadora com rodas, mas você dirige um carro. Passei a sonhar com atropelamentos. Acordava sem saber se era sonho ou realidade. Poderia ser realidade. Não foi -ainda- por sorte. Parei de dirigir. Tenho tentado, ao máximo, andar a pé ou de bicicleta. Num acidente, prefiro ser a vítima do que o algoz. Não é uma questão de generosidade. É uma questão egoísta: não conseguiria carregar essa culpa. Parabéns, Thor.

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