Pequeno guia negro e feminista para não fazer feio nas fantasias de carnaval

blackface

Por Gabriela Monteiro

Folia de momo chegando e todo mundo no maior alvoroço pra ser quem quiser (pelo menos por alguns dias). Pernambucana que sou, entendo e partilho da ofegante epidemia. E esse ano uma coisa interessante aconteceu: algumas pessoas vieram me escrever perguntando sobre quais fantasias seriam éticas ou não. Elas estavam realmente em dúvida sobre o que era possível usarsem ofender a nenhum grupo. Bem, longe de mim ser a consultora política da folia, menos ainda de ter conclusões sobre a maior parte das perguntas, mas achei que levantaria uma reflexão bastante válida. A discussão sobre representações culturais é complexa e envolve conceitos sobre os quais ainda estamos nos apropriando (e nos familiarizando, confesso). Ao mesmo tempo nos remete a situações cotidianas tão naturalizadas que fica o desafio de lançar uma reflexão crítica sobre o que precisa ser desconstruído, mesmo – e talvez especialmente – nas nossas expressões coletivas de maior alegria. Porque o riso, como sabemos, também é político. Assim como a nossa escolha de sobre quem vamos rir.

Sobre o humor como ferramenta (seja de alienação ou contestação), vale a pena ver o documentário O riso dos outros. Mas voltando à festa da carne, chega fevereiro e a gente quer mais é aproveitar as máscaras pra liberar tudo, transgredir regras e se jogar nos excessos. Até aí tudo bem. Só que nas escolhas das fantasias, quais opressões serão “disfarçadas” de brincadeiras, quais excessos são na verdade violências cometidas contra grupos historicamente explorados? Alguns pontos podem nos ajudar a caminhar nessa reflexão:

A fantasia só existe dentro um contexto. Ou seja, nenhuma imagem existe apenas como tal, isolada de uma construção histórica de significados. Se você vê uma fantasia e entende a que ela se refere, é porque existe um enredo atrás dela. E compreender as implicações de cada fantasia é fundamental para saber se ela está sendo usada para sustentar estereótipos e padrões de opressão e violência. A Stephanie Ribeiro, maravilhosa, detona o racismo e o machismo da “nega maluca” nesse texto emocionante.

As denúncias do movimento negro ao black face ganharam força, principalmente nos últimos anos, fortalecendo uma tomada de consciência negra e criticando duramente a naturalização da risada racista. No entanto, alguns casos podem não ser tão explícitos ou fáceis de identificar, por serem discussões que ainda não tem tanta visibilidade. Vou citar um exemplo prático pra ajudar: No ano passado, me deparei nas ladeiras de Olinda com um Bob Esponja bebendo com uma “empregada doméstica”. Ou seja, num primeiro olhar, dá para reconhecer imediatamente as referências de cada fantasia. Mas vamos colocá-las num contexto: O Brasil é o país com maior número de Bob Esponjas do mundo? O Bob Esponja está sendo explorado por uma sociedade de herança escravocrata? Ele luta para ter seus direitos trabalhistas minimamente garantidos? Ele vive muitas vezes situações de humilhações e abusos, inclusive sexuais? Ele é por vezes obrigado a trabalhar em condições análogas ao trabalho escravo? Eu na verdade não o conheço bem, mas tenho pra mim que o Bob Esponja está de boas no fundo do mar com os amigos enquanto as trabalhadoras domésticas brasileiras travam uma luta imensa para viver com dignidade e são ridicularizadas no carnaval.

O que nos leva a uma pergunta chave: essa fantasia de alguma forma reforça esterótipos de grupos oprimidos pelo patriarcado-racismo-capitalismo? No exemplo das empregadas domésticas, elas são diretamente atingidas por essa tríade perversa. Se a resposta for sim para algum desses eixos, é melhor pensar em outro look para lacrar nas festas. Outro exemplo comum no meu estado é ver as pessoas (geralmente brancas) de classe média gastando horrores em ingressos para uma festa em que vão fantasiadas de “pobres”: entregadores de gás, porteiros, diaristas, frentistas. Por que é tão engraçado se vestir da classe trabalhadora explorada? Por que é tão engraçado se vestir de outras raças? Um amigo querido me indicou esse vídeo sobre o tema, que infelizmente está em inglês (alguma alma caridosa que quiser traduzir pra deixar mais acessível, por favor!)

Vai outra dica valiosa: converse e faça perguntas. Mas não vá dizer que perguntou a sua empregada – que está numa posição bem delicada nas relações de poder e depende financeiramente do que recebe na sua casa para viver – e ela disse que estava tudo bem com sua fantasia. Lógico que ela vai falar isso se ela não puder falar outra coisa. Talvez ela vá até passar o carnaval trabalhando e deixando a comida pronta para quando você chegar exaust@ e de ressaca. Isso não quer dizer que está tudo bem com sua fantasia, sinto dizer. Não que a opinião dela não seja importante, mas seu grau de liberdade na fala pode ter sido comprometido pelo contexto. Pois é, novamente, ele: o contexto. Pergunte a pessoas de situações e formações diversas, leia, dialogue. O incômodo é inevitável e bem-vindo, é o dedo na ferida de uma sociedade acostumada a naturalizar opressões. Nós vamos ter que falar sobre isso.

Não tente minimizar a importância do debate apenas para poder se sentir bem e isent@ de responsabilidades. Um outro sinal de que você não conseguiu escolher bem os trajes é se – ao mínimo sinal de questionamentos – você precisa se explicar por isso. Ou seja, se sua fantasia precisa de justificativas, provavelmente ela tem problemas. Mais interessante que tentar se justificar é se jogar na autocrítica, gente. Uma prática saudável, sem contraindicações e altamente recomendada para redução de danos. Do mesmo jeito que fez perguntas, escute as respostas e faça um esforço para perceber em quais momentos você (e eu e quase todo mundo também estamos nessa) está reproduzindo práticas de opressão sem sequer notar.

E ainda trabalhando no mesmo exemplo, a “empregada doméstica” citada era um homem cis branco. Daí lembrei que dentre as perguntas que recebi lá no começo dessa conversa, uma se repetiu: “tudo bem pra mim que sou um homem cis me vestir de mulher”? E eu tive que responder na maior sinceridade: não sei. Não sei porque na minha limitada e privilegiada experiência de ser cis numa sociedade cisnormativa, não amadureci essa reflexão. Então fui atrás de ouvir as pessoas trans, e elas me disseram muitas coisas – desde que isso reforça um fetiche transfóbico até um depoimento emocionado que ouvi de uma menina de que foi no carnaval que pela primeira vez ela pode ter uma desculpa para se vestir como queria. O fato de que existem opiniões diversas não enfraquece a necessidade da discussão, pelo contrário. Eu fiquei bem quietinha, na humildade, ouvindo o que as mulheres e homens trans tem a dizer pra ver se aprendo alguma coisa. Mesmo em situações em que não haja consenso, respeite quem vivencia uma realidade que não é a sua. Não seja por um dia aquilo que outras pessoas precisam ser todos dias, muitas vezes oprimidas por possuírem essas identidades. E como geralmente onde há fumaça, há fogo, por que não evitar repetir o senso comum? Dá sim para construir novos padrões de risada, fantasias que iremos usar para gargalhar de quem nos oprime e celebrar nossa resistência. Bota a criatividade para funcionar, gente. Afinal de contas, é carnaval.

Meu otimismo incurável me diz que a popularização dessa reflexão, seja na internet ou nas mesas de bares, é um ótimo sinal. Avançamos no debate, na problematização das violências nas expressões culturais e na desnaturalização do machismo, do racismo, da LGBTfobia, da gordofobia, do capacitismo… Sabemos que muitas são as mudanças necessárias – além de estruturais, pois não vai ser só pela mudança de comportamento individual que vamos garantir a democracia, mas nos apropriarmos do humor como ferramenta de luta é valioso. Podemos pautar o riso com nossa política, com o mundo que desejamos. Podemos até fazer escolhas subversivas de fantasias – é a festa da irreverência! Só não vale a caretice de reproduzir padrões de dominação e exploração, hein?

Evoé!

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