Tiago Leifert, BBB e a cultura do estupro

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Por Nádia Lapa

“Ela pediu”, “ela procurou”, “ela devia ter tomado mais cuidado”.

Ela. É nos ombros dela que recai toda a obrigação de se manter “segura”. Puro mito: não há nada que uma mulher possa fazer para se livrar de violências sexuais, pois vivemos numa cultura do estupro. Muitos acham o termo absurdo. Afinal, se abominamos tanto tal crime, como poderíamos alimentar uma cultura que o normalize? Pois o fazemos.

Cultura do estupro é “um complexo de crenças que encoraja a agressão sexual masculina e apóia a violência contra as mulheres. Na cultura do estupro, as mulheres sentem constante terror da violência que vai desde comentários sexuais, ao toque indesejado, culminando com o estupro em si. A cultura do estupro reitera o terrorismo físico e emocional contra as mulheres e apresenta isso como norma“.

“Exagero de novo”, diriam mais muitos. Foi o que se viu ontem à noite em lamentáveis comentários de Tiago Leifert no Twitter sobre o BBB. Não pretendo aqui esmiuçar os detalhes do que acontece no programa. Meu ponto é sobre o papel desempenhado por todas e todos nós na manutenção da cultura que torna a vida das mulheres um inferno.

Segundo Leifert, com cinco milhões de seguidores e, pasmem, apresentador de programa infantil, a participante Ana Paula não poderia reclamar do assédio do outro participante Laercio pois, afinal, ela está no Big Brother. Voltem para a primeira frase desse post: “ela pediu, ela procurou”. Se ela tivesse ficado em casa cuidando das plantas nada disso teria acontecido. Leifert agiu como se Ana Paula houvesse perdido qualquer resquício de autonomia ao se candidatar ao programa.

Tristemente, Ana Paula (e Marias e Andressas e Vivianes) na verdade não tem autonomia nenhuma, pois se ela reconheceu ali uma situação de assédio, é porque nada daquilo é novidade. Desde crianças, antes ainda da primeira menstruação, as mulheres sofrem violências cotidianas de estranhos e conhecidos, “aprendendo” a ocupar menos espaço e a “se comportar bem”.

Começamos a ter de colocar roupas enquanto nossos irmãos continuam andando pela casa de cueca. Mandam a gente fechar as pernas, “porque esse não é o jeito de menina sentar”. Vamos somando todos esses “conselhos” e passamos a checar o tamanho da saia, a ter vergonha do crescimento dos nossos seios, a parar de tomar sorvete de casquinha em público.

Os homens não conseguem entender nada disso porque, bem, eles continuam usando dos próprios corpos com toda a autonomia que nos é roubada diuturnamente. Mas hoje, dizem, o feminismo está em pauta, as pessoas estão ficando mais conscientes, os homens estão “se desconstruindo” (sic). Nem tanto, como disparou Leifert noite passada.

Neste momento escrevo um livro sobre consentimento e cultura do estupro. Os tuítes do apresentador da Globo condensam uma série de mitos acerca do tema. Foi impressionte ler tudo aquilo (tristemente impressionante). Um dos pontos de Leifert, ao ser questionado “e se fosse sua mulher?” foi dizer que ela não passaria por isso, pois não se inscreveria no BBB.

É a famosa indignação seletiva: algumas mulheres merecem menos empatia do que outras. Pior ainda – algumas mulheres merecem ser violentadas. Para quem ainda insiste em dizer que “nada aconteceu”, “ele só olhou”, pense em quantas vezes um “só olhar” fez você querer sair correndo para casa e tomar banho com desinfetante. Leifert, branco e filho de executivo da rede Globo, possivelmente nunca sentiu tal asco de si mesmo. Faz parte da cultura do estupro se entranhar tão fortemente nas normas, instituições e mídia a ponto de nós termos a absoluta certeza de que as culpadas somos nós, que deixamos de lado algum ritual de segurança que nos criaria a ilusão de segurança enquanto destruiria nossa liberdade.

O apresentador, como muitos homens igualmente brancos, hétero e ricos, poderiam trabalhar do outro lado, apoiando quem de fato precisa de apoio. Por isso tantas de nós ficamos em cima do muro sobre as reais intenções de um cara ao se engajar na militância. O padrão é o discurso do Leifert, e não culpo quem desconfia daqueles que se dizem aliados feministas. Antes de irem chorar na cama, como Tiago aconselhou uma das pessoas com quem interagiu ontem, os homens têm de entender que os maiores beneficiários da cultura que aterroriza mulheres são eles mesmos – e eles se posicionarem a favor da eliminação desta cultura não é nenhum favor, é questão de humanidade.

Ana Paula, segundo Leifert, deveria estar preparada para o que ora lhe acontece. “Imagina o tanto de tarados no pay per view”, disse ele, tirando o foco do taradoe colocando na vítima.  O assédio perpetrado por Laercio, chegando ao ponto absolutamente nojento de fazer gestos que remetem a sexo oral, é uma clara violação à autonomia de Ana Paula, que já se posicionou de forma veemente contra as atitudes do assediador. Ele não se importa. Ele deliberadamente ignorou o direito humano básico de Ana Paula de fazer o que quiser com o próprio corpo, inclusive existir.

Leifert, ao despejar tanto discurso misógino nas redes sociais, fez o mesmo.

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