“Quando eu fui uma história, então, nasci”

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Maria da Paz Trefaut, no Valor Econômico

Entre as mulheres, sua beleza costuma ser tão comentada quanto a vasta obra literária. Ao vivo, Mia Couto está longe de fazer o tipo do conquistador. Chega a se declarar desajeitado e confessa que não gosta de dar flores. A fala baixa, vagarosa e permeada de frases poéticas dá a impressão de uma pessoa quase frágil e desenha um homem sensível, capaz de transformar em charme a falta de jeito.

Ele desce do táxi no restaurante Brasil a Gosto, nos Jardins, em São Paulo, arrastando uma mala de rodinhas. O voo do Rio atrasou e o escritor começa por dizer que demora muitos dias para se acostumar com o fuso horário sempre que vem ao Brasil. Aqui são quatro horas a menos do que em Maputo, a capital de Moçambique, onde vive. Daí a dificuldade em dar conta de tantas palestras e noites de autógrafos, como a que enfrentou no Rio, onde assinou 300 exemplares do seu livro mais recentemente editado aqui: “Mulheres de Cinzas” – o primeiro da trilogia “As Areias do Imperador”, publicado pela Companhia das Letras.

“Tenho um sentimento misturado com relação a esses eventos. Às vezes são penosos, mas há momentos em que acontecem coisas bonitas, que permitem encontros. Quando há muita gente, ninguém é ninguém. Mas, de repente, alguém diz uma coisa que toca e comove, mesmo naquele pequenino intervalo. No futuro, pretendo não fazer mais eventos grandes. A ideia é fazer coisas pequenas, mais íntimas, de família, em que se pode conversar. Esse é o espaço do escritor. Não me importo de ir a três ou quatro encontros.”

Apesar de tímido, Mia Couto diz que hoje é quase um “palestreiro”. Quando fala é tomado por um espírito qualquer, que não sabe qual é e não é o mesmo todas as vezes. “Tenho prazer em dizer alguma coisa que é preciso ser dita. Há coisas que só podem ser ditas nos livros de uma maneira tão metafórica… E outras, no patamar da discussão das ideias, que precisam ser colocadas de outra maneira.”

Aos 60 anos, ele tem os cabelos grisalhos divididos ao meio, levemente despenteados, e traz a barba por fazer de poucos dias. Os olhos azuis se escondem atrás de óculos sem aro, de hastes prateadas. Ele veste jeans, sapatos marrons e uma camiseta na qual se lê: “Respect the locals”. Além de escritor é biólogo e sócio de uma pequena empresa, a Impacto, que faz planos de gestão de reservas e parques e estudos de impacto ambiental em Moçambique.

Sua face de empresário é discreta, admite. “Digo isso baixinho. Minha empresa é um milagre. Eu sou um desastre em termos de administração, meus colegas [os outros três sócios] também são. Pensávamos que iríamos à falência em meses, mas, ao contrário, a empresa cresceu.”

Na Impacto, ele trabalha todos os dias em período integral e percorre o país de Norte a Sul, muitas vezes acampando. À noite, escreve. É difícil conciliar as duas atividades. Parte de seu lazer desfruta em um sítio, a 30 quilômetros de Maputo, onde há um lago cheio de tilápias e algumas árvores que plantou. É casado há 30 anos com Patrícia, com quem tem uma filha, Rita, de 24 anos. É pai também de Madyo, de 33, de uma união anterior, e de Luciana, de 30 (nascida de outro casamento de Patrícia) – “Minha enteada, para mim, também é minha filha”.

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Já passa das 14 horas quando começamos a olhar o cardápio. Ele nunca esteve no restaurante e pede sugestões. Escolhe um camarão crocante com creme de bobó e arroz de coco. Julia Bussius, a assessora da Companhia das Letras que o acompanha, diz que ele gostaria dos sucos de frutas e sugere o de tangerina. Como o Brasil a Gosto é dedicada à culinária brasileira, cabe uma explicação do garçom a respeito dos pratos. O palmito pupunha desfiado com manga e queijo coalho é escolhido para ser compartilhado como entrada.

Quando chega, surge uma dúvida em Couto sobre a melhor forma para comê-lo. “Façam lá para eu ver. Coloque muito pouco no meu prato. Não sei se gosto.” Depois, diante do prato principal, volta a perguntar como é melhor comer os camarões. Silvia Costanti, a fotógrafa, sugere comer com as mãos. “Moçambique tem uns camarões maravilhosos, são os…” – interrompe a frase e silencia. “Ia dizer que são os melhores do mundo”, reconhece, sem graça. “Achei melhor não dizer.”

Mia Couto come muito pouco. Comia sem grande prazer, só por necessidade. Se a proposta for um daqueles lugares muito barulhentos, tipo cervejaria, acha melhor pular a refeição. Se estiver sozinho em casa, pega um livro enquanto come. Nas viagens, não gosta de entrar num restaurante sozinho para jantar. “É um desamparo.” Prefere ficar no quarto do hotel e pedir uma sopa.

No período da guerra civil moçambicana (1977-1992), conviveu com a angústia da fome, apesar de nunca lhe ter faltado comida. “Não tínhamos o que comer, saíamos à rua para ver o que íamos encontrar para trazer aos nossos filhos. Aí entram coisas interessantes, como as vizinhanças que funcionavam como apoio. A gente saía de manhã e quando via uma fila perguntava: ‘Estão a distribuir o quê?’ Então, eu colocava uma cesta de palha com uma pedra em cima para não voar, ia trabalhar e, quando voltava, via o que estava lá. Havia um respeito incrível, ninguém furava fila. Hoje há comida, mas as pessoas passam à frente, roubam a cesta.”

Uma das sensações que carrega é a de que nunca mais se regressa de uma guerra. É uma ferida sem cicatriz possível. Ela cria um sentimento de sufocamento e uma violência que não é só física. “A gente vê pessoas morrendo, mas sobretudo não consegue respirar. O que vem junto com a guerra é o estado de carência de crença no futuro.”

Couto já havia publicado os primeiros versos, aos 17 anos, quando entrou para a Frelimo – Frente de Libertação de Moçambique -, organização que lutava contra o domínio colonial português. Passou um período na clandestinidade e visitou as extintas União Soviética e Alemanha Oriental. “Fui para lá como jornalista”, diz, com uma risada. “Eram os piores lugares para isso. A melhor maneira de ficar anticomunista era ser mandado para um país comunista.”

Após a independência, em 1975, aos poucos se distanciou da Frelimo, assim como ela se distanciou de seus ideais originais. “A Frelimo morreu. Depois, percebi que essas grandes vanguardas morreram no mundo todo. Para mim, foi um aprendizado. Acho que não entendíamos o que era o mundo. Apesar das boas intenções do nosso lado, havia uma grande simplificação do que era o mundo, o proletariado, a luta de classes e, de repente, o homem novo. Era uma fórmula: a gente mudava a economia, tomava posse dos meios de produção. Felizmente tudo é mais complicado.”

Em Moçambique, quando foram criadas as lojas especiais para a elite política, ele recusou seu cartão. “Cheio de dignidade”, conta, rindo. “Quando cheguei a casa e contei para minha mulher, argumentando que não foi para isso que lutei, ela disse: ‘És louco, nós temos filhos’. Por sorte, no dia seguinte, ela ganhou um cartão no hospital onde trabalhava.”

Filho de portugueses, Couto nasceu e cresceu na Beira, cidade litorânea que é a segunda maior do país. “Era uma cidade muito caótica, que nunca foi totalmente colonizada. Aprendi a falar uma das línguas que se fala lá e reparti-me entre dois mundos”. Eram três irmãos e, para ele, o pai e a mãe eram “Adão e Eva”: o mundo começava ali, para trás não havia nada. Nunca conheceu os avós.

“Minha mãe era filha de pai incógnito, como se dizia na altura. A mãe dela morreu no parto e ela foi deixada na roda de pedra da igreja junto com a irmã gêmea. Como minha avó era tida como uma mulher maléfica, que tinha tido filhos de vários homens e vivia à margem daquela pequena aldeia, no norte de Portugal, ninguém ficou com as meninas. Até que um padre – que ela chamava de tio – a adotou. E esse padre foi capelão militar em Moçambique.

O pai do escritor era de uma família de classe média do Porto, em Portugal, e foi exilado para Moçambique, em consequência de atividades políticas. Ao contrário dos pais, Mia Couto jamais carregou a angústia do exílio ou da pátria que ficou para trás. Nasceu e sempre viveu em Moçambique.

Quem teve uma infância muito feliz fica viciado. Eu tive, minha infância foi meu reino. Havia um sentimento de ausência de medo, de infinito

“Quem teve uma infância muito feliz fica viciado. Eu tive. Minha infância foi meu reino. Havia um sentimento de ausência de medo, de infinito. Não me lembro de meus pais preocupados com o fato de eu chegar tarde. Havia um sentimento de segurança, se dormia com a porta aberta, existia uma grande confiança de que o mundo era feito só de gente boa. Até hoje tenho saudades do alpendre, que contornava nossa casa de estilo colonial”, relata.

Escrever poemas era um mal familiar. A mãe rezava para que nenhum filho ficasse com aquela doença. O pai trabalhava no sistema ferroviário, era jornalista e poeta e foi quem roubou os primeiros poemas de Mia Couto e os levou para ser publicados no jornal local, o “Notícias da Beira”. “Fiquei furioso, mas se não fosse isso talvez eu não estivesse aqui agora. Eu era muito tímido. Sonhava viver mais do que vivia. Em casa, era aquele que não servia, que não sabia. A partir daquele dia, encontrei um espaço meu. Acho que poeta é o que sou. Mesmo quando escrevo prosa sou um poeta disfarçado.”

António Emílio Leite Couto, que se batizou Mia desde pequeno, tem mais de 30 livros publicados. Dezoito foram editados no Brasil pela Companhia das Letras, que prepara para julho “Poemas Escolhidos” – seleção feita pelo autor de cinco volumes editados no exterior. Há muito que sua obra, que soma contos, romances e crônicas, transpôs as fronteiras da língua portuguesa. Alguns livros foram adaptados para o cinema e ele é o escritor moçambicano mais traduzido.

Couto gosta de criar palavras. E fala de um processo que começou em Moçambique, Angola e Cabo Verde, de criar um português com raízes mais autóctones, coisa que o Brasil já tem há dois séculos. “Conosco é um processo mais recente. Em 1975, época da independência, 90% dos moçambicanos não sabiam ler nem escrever. Uma grande parte deles nem sabia português. Então, esse processo começou agora.”

Ele conta que um dia, no aeroporto de Maputo, um rapaz disse que queria lhe dar uma palavra (no sentido literal): “improvisório”. “Ele me explicou que a palavra falava da maneira que somos e misturava improviso com provisório. Não é uma palavra bonita?”

Cita outros exemplos, como “arrumário”, que é usado em Moçambique com o significado de armário. “Se você olhar para a língua, faz sentido. É o lugar onde se arrumam as coisas. Armário é onde se guardavam as armas, daí a origem da palavra. Para quem está visitando o português pela primeira vez faz muito mais sentido dizer “arrumário”.

Assim ele explica que as palavras novas que estão em seus livros fazem parte de um processo não apenas literário, mas social. “As pessoas estão a namorar as palavras sem muita preocupação com o que é o português convencional. Hoje há um português mais moçambicano do que nunca. Acho que vamos ficar com este sotaque mais próximo de Portugal do que o Brasil, até pelo que é ensinado nas escolas como padrão.”

Em Moçambique, ele foi desbravador de um novo estilo. Antigamente, havia uma atitude meio colonizada entre os escritores, que achavam importante mostrar que também sabiam falar (e escrever) o bom português. “Eu estava meio manchando isso, como se estivesse escrevendo um português menor. Mas isso, rapidamente, passou.”

Couto diz que o universo fantástico que evoca em suas histórias, em Moçambique, é pura realidade. “Lá é difícil não ser escritor, porque a vida está tão cheia de histórias… Se eu disser que você, Maria da Paz, na noite passada foi uma árvore, isso não tem nada de extraordinário. Um livro meu em Moçambique é lido como se eu estivesse falando da realidade e não da magia. Essa fronteira lá é muito tênue, entende? Mesmo colegas meus que são cientistas não acham nada de estranho se eu disser que um tio meu foi leão.”

Na fronteira entre escrever e fantasiar, uma das coisas que adora é ficar sentado na rua, observar as pessoas que passam e inventar uma história para elas. Fez isso uma vez com Rubem Fonseca, durante um congresso na Alemanha. Fugiram do congresso, sentaram-se num parque e passaram uma hora se divertindo assim.

É hora de escolher a sobremesa e, antes de olhar o cardápio, ele declara que “é de doce”. Decide-se pelo pudim de tapioca com açaí. Alguém fala da música do Chico, “Com Açúcar com Afeto”, e ele continua: “fiz seu doce predileto”. Recorda-se, então, da vez em que ele e Chico Buarque participaram de uma homenagem a Jorge Amado. “Eu queria dizer para o Chico tudo aquilo que todo mundo quer dizer para ele. Mas nos colocaram lado a lado numa van e não conversamos. Dissemos uma coisa de circunstância e ficamos olhando um para outro.”

Couto acha que nós, no Brasil, não temos dimensão do quanto Jorge Amado marcou profundamente todo o espaço de língua portuguesa, onde começou a penetrar nos anos 50/60, especialmente em Angola e Moçambique. “Quer se goste dele ou não, a África se redescobriu em sua escrita. Nunca tínhamos pensado que era possível fazer aquilo com a língua portuguesa, falando de personagens que eram nossos. Falando coisas que não se deveria falar, como a espiritualidade africana, por exemplo.”

Preocupado em evitar os estereótipos, defende a tese de que não é a raça que cria o racismo, mas o inverso. “Quando estou em Moçambique e vou para um lugar com meus colegas que são negros, quando nos recebem, dizem: ‘Chegaram os brancos’. A definição do branco passa pelo estranho, pelo que não é do lugar. Brancos são os que não falam a língua local. Em Moçambique, a luta contra a discriminação racial foi feita com base no princípio de que não há a raça. É uma maneira radical de tentar resolver o que, provavelmente, tem que ser resolvido de outra forma. No início, a ideia de que somos moçambicanos, não importa a cor da pele, funcionou. Mas, depois, não. Por muito que os cientistas digam que não existe raça, o que é verdade, do ponto de vista social existem percepções, e na cabeça das pessoas, também.”

Questionado sobre o que resta da África romântica, das grandes paisagens e dos grandes animais, do filme “Out of Africa”, ele responde que aquela é uma África nostálgica, descrita nos livros de Karen Blixen (escritora dinamarquesa, 1885-1962). “Quem conhece logo percebe que é um lugar normal, como os outros. Aquela luz não pertence ao lugar, pertence ao momento. Não há grandes paisagens no Brasil ou nos Estados Unidos? Não há uma luz incrível no sul da Europa?”

Em seguida, abre o computador e começa a mostrar fotos. Da Beira, sua cidade natal, do Oceano Índico, do Vale do Rift, onde nasceu a humanidade. Passa por imagens de florestas, falésias, pelo rio Púnguè. Ali está a África grandiosa e ainda por desbravar. Surgem sacerdotes, cerimônias, danças com tambores, babuínos.

Ele mostra a foto do leão que o inspirou a escrever “Confissões da Leoa”. E outra, dele, aos 10 anos, brincando com um filhote de leopardo. “Essa era a foto que eu queria mostrar. Olhei-a tantas vezes e só há pouco percebi que aqui, ao fundo, está uma pessoa: um negro com um avental, o Joãoquinho, que era meu mestre e trabalhava em casa. É uma imagem quase simbólica de como essa gente estava no lado invisível da sociedade.”

Apesar de não tomar café, olha intrigado para o que vem à mesa, servido num minicoador. “Entro nas lojas da Nespresso, na Europa, e fico impressionado. Aquilo podia ser um banco ou qualquer outra coisa. Falta o cheiro do café, aquela coisa inebriante. É tão triste…”

Por onde anda, Couto leva sempre um caderno, no qual vai anotando frases e ideias. Não é um moleskine, mas um caderninho comum. “Se eu perder esse caderno, nunca mais vou me lembrar de nada do que está aqui”, diz, segurando-o. Lembra-se da vez em que esqueceu um desses caderninhos na bolsa do banco de um avião da Iberia, com muitas anotações para um romance. “Tentei ligar, mas ninguém mais atende telefone. É assim: se quiser falar inglês, aperte 1. Reclamações, número 5.” Saramago estava por perto e tentou ajudá-lo. “Foi inútil.”

O medo de voar o leva a escrever sempre nos aviões. A situação é tão intolerável para ele que tem de partir para a fantasia. A natureza do medo é difusa, não sabe explicar direito. Sente medo de um possível desastre e de morrer também. “Se morrer fosse uma coisa pequenina…”

Horas atrás, no curto trajeto da ponte aérea Rio-São Paulo, escreveu um poema. “Quando é poesia, quase logo fica feita”, diz. “Posso ler?”, pergunta. E vai em frente: “Antes de nascer/ eu já era órfão/ depois, contaram-me histórias/ quando eu fui uma história/ então, nasci”.

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