Advogado tenta processar deus hindu por ‘desrespeitar mulher’ na Índia

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Publicado na Folha de S. Paulo

O advogado Chandan Kumar Singh se tornou o centro de uma polêmica na Índia ao tentar processar Rama, popular deus hindu.

Singh afirmou à BBC ter sido motivado pelo que considera uma injustiça “do deus Rama com sua mulher, Sita”. Segundo ele, o objetivo era que um tribunal do Estado indiano de Bihar “reconhecesse o fato”.

A Justiça, no entanto, não se convenceu da tese e rejeitou o pleito neste mês, argumentando que não se tratava de um “caso prático”. Além disso, um grupo de colegas do advogado o acusou de “buscar publicidade” —um deles o processa por difamação.

Rama é o herói da Ramayana, o épico sânscrito de 24 mil versos. Ele é reverenciado por milhões de seguidores do hinduísmo na Índia e em todo o mundo.

O advogado Chandan Kumar Singh foi acusado por colegas de "buscar publicidade"

O advogado Chandan Kumar Singh foi acusado por colegas de “buscar publicidade”

A despeito das críticas, Singh diz acreditar fortemente que tem um caso jurídico válido nas mãos. Ele cita escrituras religiosas para sustentar sua tese: “É sabido que Rama perguntou a Sita se ela era pura depois de resgatá-la das garras do rei dos demônios Ravana. Ele não confiava em Sita”, afirmou à BBC.

“O tratamento que Rama confere a Sita mostra que as mulheres não são respeitadas desde a Antiguidade. Entendo que este caso possa soar ridículo para muitos, mas nós temos de discutir essa parte da história religiosa antiga. Entrarei com um processo de novo porque realmente acredito que é preciso reconhecer que Rama maltratou Sita.”

Singh rejeitou acusações de que está buscando apenas publicidade: “Entrei com a ação porque não podemos falar sobre respeito às mulheres nos dias atuais quando um dos deuses mais reverenciados não tratava sua mulher com respeito”

O advogado disse ainda ter se surpreendido com as reações. “Esperava algum tipo de objeção, mas não previa que meus colegas se colocariam contra mim. Estava apenas falando sobre igualdade de gênero e não tinha a intenção de ferir a fé de ninguém”, afirmou.

“É errado buscar justiça para as mulheres? A aceitação do meu pleito pelo tribunal enviaria uma mensagem de que o respeito às mulheres é importante para os indianos.”

CRÍTICAS

Mas seus colegas discordam.

O advogado Ranjan Kumar Singh (que, apesar do sobrenome, não tem relação de parentesco com ele) afirmou que o pleito “insulta os seguidores do hinduísmo”.

“Singh tem um histórico de dar entrada em processos buscando autopromoção. Mas desta vez ele foi muito longe. Ele feriu nossos sentimentos”, disse.

Ranjan Kumar Singh também deu entrada em uma ação judicial por difamação contra o colega.

“Pedimos à Ordem dos Advogados da Índia que cancele a licença de Singh para exercer a advocacia. Todos os advogados estão unidos contra ele. Ele precisa aprender uma lição”, afirmou Kumar Singh à BBC.

“Vemos Rama e Sita como um só e os adoramos como um casal, não há por que acreditar que Rama maltratou Sita”, acrescentou Ranjan Kumar Singh.

Chandan Kumar Singh, por sua vez, insiste que “sua luta não é contra Rama”.

“Eu também cultuo Rama. Sou um hinduísta praticante. Quero me desculpar com quem se sentiu ferido, mas não posso ignorar o fato de Sita ter sido desrespeitada”, concluiu.

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