‘Céticos da zika’ cobram provas de que vírus é culpado por microcefalia

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Publicado na Folha de S. Paulo

A OMS (Organização Mundial da Saúde) sinalizou na sexta (12) que em poucas semanas haverá a confirmação definitiva da relação entre o vírus da zika e os casos de microcefalia. Mas, enquanto isso não ocorre, parte da comunidade científica ainda está cética sobre se é o vírus mesmo o vilão da história.

Até agora, foram confirmados 462 casos de microcefalia ou outras alterações do sistema nervoso central, sendo 41 associados à zika. Outros 3.852 registros continuam sendo investigados.

A principal razão do ceticismo é a falta de estudos que comprovem a relação de causa e efeito entre a zika e a microcefalia. Há trabalhos confirmando o vírus no cérebro de bebês com microcefalia. Mas é mesmo ele o responsável pela má-formação ou há outros fatores por trás disso?

Diversos grupos de pesquisa no Brasil e no mundo buscam essa e outras respostas por meio de diferentes estudos, como os que inoculam o vírus da zika em fêmeas grávidas de modelos animais (macacos, por exemplo) para verificar se o feto vai desenvolver lesões cerebrais.

Na opinião de Alexandre Chiavegatto Filho, professor de análise de dados de saúde da USP, pode existir um “terceiro fator” influenciando esses casos. Por exemplo, as condições socioambientais em que vivem as mães dos bebês com microcefalia.

Em epidemiologia, há um exemplo clássico desse terceiro fator: a associação do consumo de café com o câncer de pulmão, quando, na verdade, o responsável pelo câncer é o cigarro -que leva as pessoas a tomar mais café. “Associação não é causa”, afirma Chiavegatto.

Para Luis Claudio Correia, professor da Escola Bahiana de Medicina e especialista em medicina baseada em evidência, estudos analíticos, em que se compara grupos, serão fundamentais.

Um estudo de caso-controle, por exemplo, selecionaria bebês com microcefalia e bebês normais. Em seguida, se compararia a ocorrência de zika na gravidez desses dois grupos, demonstrando, possivelmente, que há mais história de zika no grupo microcefalia do que no grupo sem ela. “Isso se faz rápido.”

Há um outro fator que torna ainda mais nebuloso o cenário: a falta de estatísticas confiáveis sobre a série histórica de microcefalia no país e a provável subnotificação.

Em artigo publicado no site da revista científica “Nature”, pesquisadores do grupo de estudos latino-americano ECLAMC (Estudo Colaborativo de Malformações Congênitas) questionaram o surto de microcefalia no Brasil.

Segundo Ieda Maria Orioli e Jorge Lopez-Camelo, o aumento de casos da doença poderia ser atribuído ao fato de que, após os primeiros relatos, pode ter crescido a atenção a problemas de nascença (como a microcefalia) e também por diagnósticos errados.

“Um efeito conhecido e inevitável que pode estar revelando casos que talvez não fossem notificados em circunstâncias normais.”

Para eles, pelos dados epidemiológicos disponíveis, é impossível estabelecer o tamanho real de um eventual surto de microcefalia.

Eles cruzaram dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos com dados do ECLAMC, que são coletados desde 1967, e concluíram que a média histórica da prevalência de microcefalia no Brasil é de 2 casos a cada 10 mil nascimentos.

Segundo dados do Ministério da Saúde, em anos anteriores houve 150 casos, em média, dessa má-formação. Para efeito de comparação e levando em conta que nascem cerca de 3 milhões de bebês por ano, a incidência seria de 0,5 caso por 10 mil.

O ministério diz que confirmou a relação entre o vírus da zika e a microcefalia em novembro de 2015, mas estudos continuam em andamento para esclarecer questões como a atuação do vírus no organismo, a infecção do feto e o período de maior vulnerabilidade para a gestante.

EXPERIÊNCIAS PESSOAIS

Líder do grupo que primeiro identificou no Brasil o vírus da zika no líquido amniótico de gestantes com fetos microcéfalos, a médica Adriana Melo, de Campina Grande, na Paraíba, concorda que ainda faltam estudos para comprovar a relação de causa e efeito entre o zika e os casos de má-formação fetal.

Afirma, no entanto, que ela e outros especialistas em medicina fetal do Nordeste, baseados em suas experiências pessoais, não têm mais dúvida de que estão diante de uma “doença nova”.

“Para ter evidência, é preciso ter casos. A zika está sendo construída com observações pessoais. As evidências começam a partir delas.”

Adriana conta que, apesar da experiência de 18 anos com ultrassonografia fetal, nunca tinha visto o padrão de alterações cerebrais que têm os bebês de mães infectadas por zika durante a gravidez.

“As alterações não batiam com nenhuma síndrome conhecida. Se eu não estivesse no dia a dia, talvez também não acreditasse.”

Para ela, foi importante o alerta mundial mesmo sem haver “provas definitivas” sobre a associação.

“Imagine quantas mães não foram poupadas a partir do momento em que foram alertadas e passaram a se prevenir?”, questiona.

Adriana teve a ideia de colher o líquido amniótico de duas gestantes, cujos bebês haviam sido diagnosticados com a má-formação congênita em exames de ultrassonografia. As amostras foram analisadas pelo laboratório da Fiocruz, no Rio de Janeiro.

Ela diz que pediu os testes porque precisava dar uma resposta às mães sobre o que poderia ter causado a microcefalia nos bebês. “Era angustiante não saber o que dizer.”

As alterações, como cérebro atrofiado com calcificações no lobo frontal, no cerebelo e em outras áreas, foram descritas em artigo publicado em revista internacional de ultrassonografia.

PRINCIPAIS DÚVIDAS E BOATOS SOBRE A ZIKA

1 – A zika causa microcefalia?

A Organização Mundial da Saúde considera isso provável, mas ainda faltam estudos científicos para comprovar a relação de causa e efeito

2 – Como é possível comprovar essa associação?

Há diversos tipos de testes. Um deles é reproduz a infecção por zika no laboratório, ou seja, inocula o vírus em fêmeas de modelos animais grávidas e avalia se o cérebro dos fetos vão sofrer alterações. Esses testes já estão sendo feitos no Brasil e em vários centros de pesquisa no mundo

3 – Há uma epidemia de microcefalia no Brasil?

Não sabemos quantos dos casos de suspeita de microcefalia são verdadeiros e se estão realmente ligados à zika. Como não há um teste rápido de diagnóstico, não é possível confirmar se essas mães foram realmente infectadas pelo vírus. Além disso, é provável que, em anos anteriores, tenha havido muita subnotificação de microcefalia, o que torna difícil qualquer comparação

4 – E os estudos que mostram o vírus na placenta da mãe e no cérebro de alguns bebês com microcefalia?

Eles são muito importantes, mas não significam, necessariamente, que as alterações cerebrais tenham sido causadas pelo vírus. É possível, por exemplo, que essas mães tenham sido infectadas pela zika durante a gestação, mas que a má-formação tenha se desenvolvido no feto por outras causas ou fatores de risco

BOATOS

> A microcefalia é causada pela vacina da rubéola aplicada em gestantes.

Tanto o Ministério da Saúde como a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) já desmentiram essa informação falsa. A vacina contra rubéola não é aplicada em grávidas, apenas em crianças entre 12 e 15 meses de idade e em adolescentes e adultos que não foram vacinados. Também é boato a informação de lotes vencidos dessa vacina, segundo o ministério

> A zika também estaria provocando problemas neurológicos em crianças menores de sete anos e em idosos.

A Fundação Oswaldo Cruz desmentiu esse boato. A instituição afirma que diversos vírus podem gerar, em pequenas proporções, disfunções neurológicas. Isso, no entanto, não é nem exclusividade da zika nem ocorre apenas com crianças e idosos. Além da microcefalia, o vírus da zika está associado à síndrome de Guillain-Barré, que paralisa os membros e pode afetar pessoas de qualquer idade

> Mosquitos transgênicos seriam os responsáveis pela epidemia de zika.

A informação também é falsa, segundo o Ministério da Saúde. Os mosquitos transgênicos foram criados para combater o Aedes aegypti, que, além da zika, transmite a dengue e a febre chikungunya . As alterações genéticas ocorrem nos machos. Quando o mosquito copula com a fêmea, seus ovos ficam inviáveis, ou seja, não geram
novos mosquitos

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