Com boa nota no Enem, detento ganha bolsa integral e cursa teologia

Vilson Lima foi preso após cometer um assalto em São José dos Campos.
Ele é o primeiro preso do CDP de Taubaté a entrar na universidade.

Vilson tirou 880 na redação do Enem e conseguiu pelo Prouni bolsa integral de estudos em universidade (foto: Camilla Motta/G1)

Vilson tirou 880 na redação do Enem e conseguiu pelo Prouni bolsa integral de estudos em universidade (foto: Camilla Motta/G1)

Camila Motta, no G1

É com a  graduação em teologia que um preso, de 21 anos, pretende tranformar a vida. Vilson Lima é o primeiro interno do Centro de Detenção Provisória (CDP) Dr. Félix Nobre de Campos, de Taubaté, no interior de São Paulo, a ingressar na faculdade.

Com uma boa nota no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ele conseguiu uma bolsa de estudos integral em uma universidade privada e conseguiu a transferência para um presídio do regime seamiaberto.

Vilson foi preso aos 18 anos por assalto a mão armada em São José dos Campos (SP).  “Eu me envolvi no crime pela ganância, fui influenciado, só quando fui preso que caiu minha ficha e vi o que tinha feito, as consequências que isso trouxe para minha família e para vítima, que ficou traumatizada. Só me restaram sonhos: de poder fazer uma faculdade e ter uma vida social normal. Eu não aceitei que um dia de erro pudesse prejudicar toda minha vida”, disse o jovem.

Decidido a recomeçar, ele disse que utilizou o primeiro ano preso para ler, aprender coisas novas e ensinar os outros presos. “Tínhamos uma ‘casa de oração’, onde alguns presos que queriam mudar se reuniam para rezar, conversar e ensinar. Então comecei a absorver o pouco material que tinha, jornal, mídia, livro de literatura e história para ter o que ensinar. Aquelas pessoas realmente queriam mudar e eu acredito na ressocialização, que as pessoas mudam”, disse.

Ele disse que a influência da crença em Deus começou a ser maior depois que foi preso. “Eu precisava de Deus para não me corromper na cadeia e comecei a ver todos os livramentos dele na minha vida. Quando você chega aqui, você começa a dar valor para as pequenas coisas, na cela não tem interruptor de energia, até disso senti falta”, relatou.

Vilson também aproveitava o tempo livre para escrever carta para famílias e uma única amiga que manteve após a prisão. “Como eu gostava de escrever, passei até a ajudar os outros presos escreverem cartas para suas famílias”, disse.

Em 2015, ele pediu à direção do presídio para que o inscrevessem no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) na tentativa de realizar o sonho de cursar um curso superior. Vilson concluiu o ensino médio em escola pública. “A partir da minha inscrição, minha família começou a me trazer materiais dos exames antigos para eu estudar”, afirmou.

Resultado
Vilson fez o exame em dezembro de 2015 e tirou 880 na redação de um total de mil pontos. Com a boa nota, o próximo passo foi se inscrever no Prouni, para tentar bolsa de estudos para tornar viável a realização do curso.

Simultâneamente, ele também já tinha cumprido um sexto da pena e aguardava na fila para ser transferido para o regime semi-aberto no Centro de Progressão Penitenciária “Dr. Edgard Magalhães Noronha”, em Tremembé

O resultado saiu em janeiro de 2016 e ele conseguiu bolsa no curso de teologia em uma universidade em Taubaté.

Surpresa
O responsável pela educação do presídio, Lucas Castilho, trabalha há dez anos no CDP e disse que ficou surpreso com o resultado. “Quando saiu a nota dele, eu fui fazer as contas para ver se dava para entrar no Prouni e quando vi que sim, percebi que nunca tinha feito essa inscrição, tive que aprender. Foi excelente uma notícia, todo mundo ficou surpreso”, afirmou.

Vilson disse que ficou muito feliz com o resultado e que foi a primeira prova que sua vida estava mudando. “Até ali eu era só um número do sistema carcerário. Todo mundo duvidava. Depois do resultado, passaram a me chamar pelo nome, aceleraram minha transferência para o regime semiaberto e me deram autorização para efetuar a matrícula. Eles me ajudaram muito com o processo”, lembrou.

Ele começou as aulas no final de janeiro e precisa mandar relatório de notas e frequência semestralmente para a juíza que acompanha o caso.

“Toda coordenação da faculdade sabe [que sou preso] e os meus colegas mais os próximos também e sempre me trataram com respeito. A faculdade me ajuda permitindo que eu entregue os trabalhos manuscritos. Vou mostrar que essa barreira não vai fazer diferença em notas, frequência e comportamento. Eu também posso ser um aluno exemplar”, afirmou Vilson.

Saída temporária
Nesta quinta-feira (10), Vilson vai para casa da família pela primeira vez, desde que foi preso. Ele é beneficiado pela saída temporária de Páscoa. “Geralmente, todo mundo generaliza quando vê um preso. Mesmo sendo um número mínimo [os que mudam] eu creio que as pessoas mudam. Quando eu for de vez para minha casa tudo vai ser diferente. Agora é a hora de escrever uma nova história, provar para minha família e para sociedade que há solução”, concluiu.

O jovem pretende fazer faculdade de psicologia depois que terminar a de teologia e escrever um livro sobre sua história.

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