Do que e que se tem saudade

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Gregorio Duvivier, na Folha de S.Paulo

“O mundo tá chato”. Você já deve ter ouvido essa frase, geralmente vinda de gente chata. Em geral, serve para justificar o fracasso de alguma piada -claro, a culpa é do mundo, não da piada. Se sua piada não teve graça é porque “o pessoal hoje em dia se ofende com qualquer coisa”, afinal “você não pode mais brincar com nada” desde que “o politicamente correto venceu”. O que aconteceu? “O mundo perdeu a graça”.

Vale lembrar o óbvio: o fato de os ofendidos estarem manifestando somente agora sua indignação não significa que não se ofendessem antes. O que chamam de “politicamente correto” também pode atender pelo nome de “processo civilizatório”: o mundo definitivamente tá mais chato -se você for racista, machista ou homofóbico.

Nunca vi um negro com saudades das boas e velhas “piadas de crioulo”. O saudosismo, assim como o mocassim e a camisa polo com um cavalo enorme, é doença de branco. Se ninguém ri de uma piada machista, não significa que o mundo perdeu a graça, significa que o machismo perdeu a graça. Ou seja: cuidado. Quando você diz que o mundo tá chato, você pode estar se entregando.

“Quero meu Brasil de volta” -gritam atores em vídeo-manifesto e dançarinos em coreografia ensaiada. Não contem comigo para nenhuma manifestação que peça o Brasil de volta -são grandes as chances desse Brasil ser a encarnação das trevas.

Imagina que você tivesse uma máquina do tempo. Pode escolher uma época. Se eu fosse você, não colocaria no “shuffle”. Especialmente se você for negro, gay, mulher ou travesti. As chances de você ser espancado, escravizado, preso ou estuprado são altíssimas. Se você for pobre também não vai ser muito divertido. Viagem no tempo não é para esse povo diferenciado. A não ser que esteja procurando emoções fortes. Nesse caso, boa viagem.

Da minha parte, acho que prefiro ficar por aqui mesmo. Ainda não inventaram nada melhor do que o presente. Talvez abrisse uma exceção para o Brasil pré-colonial. Imaginem a Baía de Guanabara antes de Cabral -tanto o Sérgio quanto o Pedro Álvares- ou São Paulo antes de Borba Gato -tanto o bandeirante quanto a estátua. Aí sim. Por esse Brasil eu iria pra rua. No entanto, tendo em vista a profusão de hinos, bandeiras, camisetas da CBF, não acho que o Brasil das manifestações fale tupi-guarani. As selfies com a PM indicam que o Brasil saudoso é mais recente.

Se você quer algum Brasil de volta -levando em conta nossa história-, cuidado: você pode estar se entregando.

Comentários

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2 Comentários

  1. Fabiana disse:

    Olha, de fato, o que foi citado no texto não deixa saudades, ainda mais para quem é negra e foi muito pobre como eu. Mas sim, tenho saudades de ir a pé para escola e nada acontecer, da escola não ter muros e a maioria dos meus amigos não usar drogas, do bom ensino antes de matarem minha professora de português (o nome dela é Beatriz e foi morta por um aluno nos anos 90), sinto saudades do tempo de batalha, quando eu e outros jovens fazíamos grande esforço para passar numa prova em busca de um ideal, nossos pais nos ensinaram que o Brasil era injusto, mas com trabalho e determinação qualquer um chegaria lá, engraçado, nenhum dos meus amigos está preso, a maioria dos coleguinhas dos meus sobrinhos estão. Ah, mas tem coisas que não tenho saudades, da inflação maluca antes de 1994, de ver meus pais desesperados sem poder fazer planos financeiros, tenho trauma de um país onde faltava leite, pão, comida, carne, faltavam produtos nas prateleiras. É amigo, seu texto é legal, mas a questão muito mais complexa. Tenho saudades de uma geração chamada de preto, pobre, favelado, bichinha, mas que erguia a cabeça e ia a luta, ao invés de ficar chorando, com traumas e fazendo terapia. Saudações!

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