Como denúncia de pedófilo salvou menina de estuprador que transmitia abuso online

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Publicado no UOL

A americana Alicia Kozakiewicz tinha 13 anos quando escapou da casa dos pais para se encontrar com um menino com quem ela vinha conversando na internet.

“Ele se apresentava como alguém da minha idade e que tinha interesses parecidos com os meus, como as bandas e os filmes de que eu gostava”, relembra Alicia à BBC.

“É tão difícil ser criança. Muitas vezes, você não se acha inteligente, bonita ou popular. As crianças acham que sempre está faltando alguma coisa na vida delas. E aí surgem pessoas na internet que, de certa forma, suprem essas lacunas. E foi exatamente o que aconteceu comigo. Ele me fez confiar nele”, acrescenta.

O que se seguiu após o rápido encontro foi um pesadelo que só terminou quatro dias depois.

“Estava jantando com meus pais, quando, antes de comermos a sobremesa, pedi licença da mesa dizendo que estava com dor de estômago. Então saí de casa para encontrá-lo e me lembro de ter deixado a porta aberta. Era para ser coisa de alguns minutos”, diz.

“Andei um quarteirão. Já era noite e nevava. Finalmente minha intuição falou mais forte e achei melhor voltar para casa. Foi quando ouvi alguém me chamando pelo nome”.

“A única coisa de que me lembro depois disso foi estar dentro do carro e um homem adulto me dizer para ficar quieta e ser uma ‘boa menina'”, recorda.

Alicia foi sequestrada e mantida no porão da casa de seu raptor, um homem de cerca de 30 anos, até o FBI, a polícia federal americana, conseguir libertá-la.

‘Não reconhecia mais nada’

“Na mesma hora, pensei que fosse morrer. Enquanto ele dirigia, vi passarem placas e nomes de rua que conhecia. Em pouco tempo, já não reconhecia mais nada. Até que chegamos a um pedágio. Achei que seria resgatada, pois não parava de chorar no banco do carona. Não consigo explicar o que medo que sentia; é inexplicável”, afirma.

Alicia conta que a viagem durou cinco horas, da casa dos pais dela, na Pensilvânia, até a casa do sequestrador, na Virgínia.

“Quando ele chegou, me levou a um porão, tirou as minhas roupas e me colocou uma coleira. Ele disse: ‘Sei que isso vai ser difícil para você. Está tudo bem. Pode chorar'”.

Quando Alicia era mais nova, os perigos da internet eram pouco debatidos

Quando Alicia era mais nova, os perigos da internet eram pouco debatidos

“Me lembrava de quanto eu queria gritar e chorar, mas não acatar a ordem dele. Depois disso, ele me levou para a cama e me estuprou”.

Alicia disse que nunca perdeu as esperanças de ser encontrada.

“Sabia que meus pais tentariam de todo modo me encontrar. Eles iam mover montanhas. Tinha certeza disso. Sempre soube que eles me amavam. E que eles iam me achar. Viva ou morta”, diz.

“No quarto dia, ele me disse que me levaria para dar uma volta. E eu sabia que aquele seria meu fim. Eu seria morta. Ele me alimentou pela primeira vez desde que havia sido sequestrada e para mim aquilo me pareceu minha última refeição”, acrescenta.

“Só queria dizer aos meus pais que eu amava muito eles. Não queria que eles pensassem que eu os abandonara”.

Pouco antes de sair da casa para que o que pensava ser a sua morte, Alicia ouviu um grupo de homens gritando e batendo forte na porta.

“Nesse momento, eu estava acorrentada próximo à cama do meu sequestrador. Ouvi algo como se estivessem armados. Estava tão abalada emocionalmente que achei que eles me matariam”.

“Rastejei para debaixo da cama. E tentei ficar em silêncio. Não sei como eles me encontraram. Vi as botas deles ao redor da cama. Foi quando ouvi alguém me dizer para sair dali e colocar as mãos para o alto”.

Soltura

Era, na verdade, o FBI, a polícia federal americana. Alicia conta que os agentes conseguiram localizá-la porque seu raptor transmitia as relações sexuais que mantinha com ela para outras pessoas na internet.

“Um dessas pessoas percebeu se tratar de uma criança que possivelmente estava sendo mantida em cativeiro. Mas ele poderia ser preso por pedofilia. Dessa forma, foi até um orelhão e ligou para a polícia. Os policiais conseguiram chegar até mim pelo endereço de IP do meu sequestrador”, explica Alicia.

“Foi um milagre”, completa ela. “Em resumo, um monstro (em referência à pessoa que fez a ligação anônima) denunciou outro. Tive muita sorte. Se os policiais tivessem parado para tomar um café, ou se seu carro tivesse quebrado, talvez eu não estivesse aqui hoje. É um exemplo de como cada segundo faz diferença quando se trata de uma criança desaparecida.”

Segundo Alicia, o encontro com os pais foi um alívio. “Quando me viu, meu pai me abraçou bem forte. Naquele momento, eu senti que estava protegida. E que ninguém me machucaria de novo enquanto ele estivesse por perto”, diz.

Alicia decidiu quebrar o silêncio e contar publicamente sua história. Segundo ela, para “educar as crianças sobre os perigos da internet”.

Meus pais e eu percebemos que isso só aconteceu comigo porque não havia nenhum tipo de instrução sobre a segurança na internet sendo ensinada às crianças nas escolas.”

“Na minha primeira apresentação, eu nem conseguia falar direito. Comecei a chorar ao relembrar o que havia acontecido. Quando acabei, as crianças me cercaram e elogiaram a minha coragem de compartilhar aquela história”.

“Me sinto abençoada de estar numa posição em que posso ajuda a salvar essas crianças. Coisas ruins acontecem com a gente, mas temos de ver luz no caos. Transformei essa experiência terrível em algo positivo para mim e para outros”, acrescenta.

‘Lei Alicia’
Desde então, Alicia, hoje com 27 anos, tornou-se uma conhecida ativista pelos direitos das crianças e lutou pela aprovação de uma lei que leva seu nome.

Aprovada em nove Estados americanos, a Alicia’s Law (Ou Lei Alicia, em tradução livre) obriga as autoridades a financiar o trabalho de busca por crianças desaparecidas que são ludibriadas na internet por abusadores.

Segundo ela, seu objetivo é que a legislação seja aprovada em todo o território dos Estados Unidos.

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