A manhã em que ninguém é mais justo que ninguém

drama

Paulo Brabo, na Bacia das Almas

As regionais de São Paulo e do Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil se pronunciaram entre ontem e hoje sobre os grampos vazados por Sérgio Moro. Em sua nota a OAB do Rio de Janeiro se mostra estarrecida com o fato das gravações terem sido feitas e divulgadas. Em sua nota a OAB de São Paulo se mostra estarrecida com a opinião de Lula sobre a justiça no Brasil, registrada nas gravações. A fenda entre essas posições recorta o país.

Até onde você quer ir com a justiça? – é a pergunta que Sócrates faz continuamente de quem se aproxima do tribunal.

O juiz Sérgio Moro, que justificou a condução coercitiva de Lula com o argumento de que queria evitar “tumulto” e “comoção”, não tinha como ignorar que a divulgação das gravações, neste preciso momento (e por mais inócuas ou controversas que se mostrassem), provocaria precisamente comoção e tumulto. É até aqui e mais longe, Moro respondeu a Sócrates, que quero ir com a justiça.

Esta, senhoras e senhores, é a manhã das máscaras caídas. Precisamente por isso encontro nela, mesmo em suas sombras, alguma ternura e alguma esperança. A teoria dos três poderes parte do desiludido e acurado pressuposto de que um poder vai querer mais poder do que o outro, e vai precisar para manter a linha do tempero dos outros dois – mesmo que esse tempero seja a luta de cada um pela primazia. É uma ideia que tem alguma beleza porque parte da ideia que ninguém é mais propenso à integridade do que ninguém. Ela aposta a sua eficácia na sua precariedade, e pede ao mesmo tempo que cada envolvido não nutra grandes ilusões sobre a própria importância.

Numa dada manhã qualquer todos acordam, mesmo sem se darem conta, para defender a sua justiça.

A manhã em que ninguém é melhor do que ninguém, que são todas, requer o delicado equilíbrio de que todos façam o que é justo sem que ninguém lute para levar a justiça até onde gostaria.

Comentários

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1 Comentário

  1. Mary Ribeiro disse:

    Sócrates diria ” sei que nada sei”…

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