Estar completamente perdido é a única posição política digna do momento

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Tati Bernardi, na Folha de S.Paulo

Quando vi a foto da babá eu tive certeza de que aquilo era um absurdo. Expor assim as pessoas! E daí que eles têm babá? Quanta hipocrisia! Eu quero sim ter luxos e trabalho mais de 12 horas por dia (também) pra isso.

Ao mesmo tempo, quando vejo uma babá uniformizada em pleno domingão, eu tenho certeza de que essa maioria branca que vai as ruas “brigar por um país melhor” nunca precisou exatamente brigar muito por nada.

Eles terceirizam o amor até em dia de descanso? Na piscina do meu antigo prédio as mulheres tomavam sol enquanto os filhos gritavam pela babá quando caíam. Ou quando queriam mostrar que nadavam direitinho. E eu rapidamente olhava pras mães, esperando ver alguma dor ou ciúme ou arrependimento ou instinto materno. Mas elas estavam bem tranquilas lendo alguma “Vogue” gringa.

O que elas tinham, apesar do Instagram da família perfeita, era “extinto” materno. E a babá beijava o pescocinho molhado, cheirando a cloro, daquelas crianças lindas e desesperadas por amor. E a mãe virava a bunda pro sol, era a vez de dar atenção ao próprio rabo! Como se não fosse sempre hora disso.

Tenho certeza que não dá mais pra gente dizer que a elite branca desinformada foi às ruas porque tem raiva de pobre. Sorry, mas não tem tanto rico assim não! Se pó descolorante na cabeça fosse sinônimo de fortuna, o salão de beleza que frequento, na Pompeia, não tava pra fechar por causa da crise.

É preciso respeitar a vaia que o povo deu no Aécio e no Alckmin, é preciso assumir que a nossa economia virou motivo de alerta e chacota internacional. Que a Dilma fala mal, fala errado, faz aliteração de absurdos, faz concretismo de devaneios, não se dá com ninguém, é autoritária. Não, a Globo, a Globonews e os jornais, inclusive este que você lê, não fizeram tudo sozinhos.

Estava lá, o PT, só brilhando em decisões maravilhosas e bem intencionadas, sempre pensando apenas no coitado que acorda cedo e pega 12 conduções pra ganhar um salário mínimo, e veio o William Bonner e, entre uma desfiladinha ou outra pra discutir o tempo de amanhã, jogou uma bomba em nossa nação idílica? Não!

Ao mesmo tempo, tenho certeza que existe algo de podre no reino do jornalismo, quando deixo minha televisão ligada quase um dia inteiro e não aparece um único repórter ou apresentador ou comentarista pra fazer uma contra argumentação aos franco atiradores do governo. Sério gente, nenhuma crítica ao Moro?

Tenho certeza que sou contra o impeachment, acho triste as fotos com policiais, acho deploráveis as piadotas sobre dedos faltantes e feiura feminina. Tenho ojeriza extrema por aqueles playboys que compraram a carteira de motorista e trabalham como funcionários fantasmas da empresa do papai, segurando bonecos do Lula ladrão. O Lula, esse mesmo que sonhou em acabar com a miséria e foi lá pra África ensinar as pessoas como conseguiu fazer um Brasil tão melhor.

Tenho certeza que o PT não inventou a corrupção, mas que essa frase é chata e ninguém a aguenta mais. Tenho certeza que nunca se prendeu tanto bandido como nesse governo, mas essa frase não aquieta o peito decepcionado de quem já carregou uma estrela vermelha com tanto orgulho e esperança.

Tenho certeza que minha bipolaridade argumentativa é pura falta de informação, de estudo, de inteligência. Tenho certeza que estar completamente perdido é a única posição política digna do momento. A única ideologia possível a alguém responsável. Tenho certeza que essa alegria de abadá de quem sai as ruas contra a democracia não faz sentido, tampouco faz o sorriso de deboche da presidente.

Tenho certeza que ter certezas nesse momento é, no mínimo, esquisito pacas.

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