Última ceia

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Frei Betto, em O Globo

Nessa Última Ceia, sentarei à mesa farta e estenderei, aos semelhantes, travessas repletas de misericórdia. Servirei, em abundância, o cardápio da saciedade: de entradas, hinos e flores, para que a alegria plenifique o coração de cada comensal.

Como prato forte, efusão espiritual recheada de mistério, para que os sentidos se calem e a razão, prostrada, reverencie a sabedoria. De sobremesa, uma noz e, dentro dela, um labirinto e, em sua porta, um sino e, em seu badalo, o reflexo da lua e, em seu brilho, o rosto interior de cada convidado.

O vinho terá o gosto das liturgias salmodiadas por cordas e címbalos. Todos haverão de se embriagar de Deus. Serão invadidos por tamanha lucidez que já não poderão distinguir o dentro e o fora, o acima e o embaixo, a esquerda e a direita. O feio se fará bonito e o que se julga belo expressará o horror. O frio terá o calor da fervura e o quente será gélido quanto uma montanha de neve.

Estarão à mesa a escória e o escárnio, o sorriso patético dos imbecis e o ódio escancarado dos algozes, a fúria de vingança e a pérfida arrogância da indiferença. Convidarei o desamor e a crueldade, o abuso e a injúria, a insípida ilusão de quem se ama acima de todas as pessoas e a efêmera riqueza dos que somam e multiplicam atacados pela amnésia que lhes furta a ventura de subtrair e dividir. Quero que todos à mesa provem o veneno da própria alma ou deixem seus espíritos transbordarem em taças cheias de luz.

Farei um brinde à compaixão e pedirei um minuto de silêncio para que cada um se envergonhe da existência contrária à sua essência. Haverá, então, tanta música e dança e festança que os pares levitarão de olhos fechados.

Nessa Última Ceia, molharei o pão em azeite novo e ofertarei ao primeiro que arrancar as sandálias e, de pés nus, caminhar à beira do tatame sem provar a vertigem do medo. Premiarei a fé, a cegueira da mente, a noite escura que prenuncia o reverso dos versos.

Entregarei, assim, a amante ao amado, e um coro de anjos celebrará a união de corpos transmutada em alucinação do espírito, o sexo sorvido como ágape, o imponderável voejando em tão acelerado ritmo que já não haverá Norte ou Sul, Leste ou Oeste, porque a Rosa dos Ventos estará girando desvairadamente.

Louvarei o discípulo amado por sua humilde fidelidade aos sonhos que lapidam sua realidade, como quem cultiva um fruto que nasce na direção do fundo da terra ou uma ostra indiferente ao seu futuro de pérola. E beijarei aquele que haverá de trair-me, não porque o decepcionei, mas por trazer ele, impregnado nas entranhas, essa pusilanimidade que impede certas pessoas de serem fiéis a si mesmas. Não o rejeitarei, ele não será vítima de meu opróbrio. Deixarei que ele trafegue dividido pela vida, ora amigo, ora inimigo, amável hoje, detestável amanhã, até que possa juntar os cacos espalhados por seu caminho e compor o vitral de sua dignidade resgatada.

Nessa Última Ceia, abençoarei o pão e o vinho, as moléculas do trigo e da uva, e os átomos e os neutrinos e todas as partículas elementares, e os quarks invisíveis e indivisíveis. E na composição do Universo, detalhe por detalhe, será elevada ao mais alto dos céus a hóstia cósmica de meu corpo embebido no sangue que imprime vida a todas as galáxias.

Então, todos os olhos verão que sou tudo em todos, uno e trino, pessoa e substância, identidade e mistério. Sou o que se é, o limite intransponível da negação. Quando a noite cair e do cordeiro não restar senão os ossos, ofertarei como alimento Deus transubstanciado em corpo e sangue, pão e vinho. Terei ressuscitado antes de morrer e farei da vida a mais preciosa dádiva da Criação.

Alimentados por mim, todos saberão que a Última Ceia é sempre a próxima, pródiga comemoração do amor, singelo gesto, aqui e agora, que acontece e, assim tece os fios que enlaçam, envolvem e fundem tudo e todos, amorosamente. Ou inexiste e, portanto, padece. Para quem guarda o apetite por aquilo que transcende o paladar e cultiva a gula por luminescências, todas as ceias serão primeiras, e sairão delas ainda mais famintos, porém saciados de felicidade.

Frei Betto é escritor, autor de “Entre todos os homens” (Ática), entre outros livros.

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