O país do dedo em riste

É difícil escrever sobre afeto e relacionamentos enquanto a meu redor floresce a intolerância

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Ivan Martins, na Época

Tenho a impressão, por estes dias, que a minha vida privada está suspensa, esperando o desenlace da vida pública. Há coisas que eu deveria resolver, fazer, falar, ligar, mas simplesmente não dou conta. Espero por algo que não sei o que é. Parece que os sentimentos íntimos se tornaram reféns do que acontece em Brasília, em Curitiba, ou nas manchetes do jornal. A prioridade voltou-se para fora, abafando as questões de dentro. Enquanto isso, a ansiedade cresce em toda parte, entre todas as pessoas informadas, contaminando de tensão as conversas e invadindo os silêncios.

O Brasil virou o país do dedo em riste. É difícil escrever sobre afeto e relacionamentos enquanto ao meu redor floresce a intolerância. Outro dia, agrediram a filha de uma amiga minha e seu namorado, na avenida Paulista, porque ela pedalava uma bicicleta vermelha. A garota tem 18 anos e levou tapas e pontapés de uma turba alucinada, sob o olhar distraído de um policial. A intolerância verbal está se transformando em violência física. O incitamento ao ódio vai chegando ao seu desfecho natural.

Num universo assim polarizado, é fácil dividir o mundo entre os que concordam e os que discordam de nós. Deixei de falar com uma moça que andava me encantando depois que a vi dizendo coisas pesadas a favor do impeachment, no Facebook. Por causa desse assunto – e de Lula, Moro, Cunha – já discuti de forma exaltada com mais de um amigo. Outro dia, me peguei erguendo a voz ao telefone com a minha irmã. Uma estupidez. Agora, respiro fundo várias vezes ao dia para não deletar nas redes sociais pessoas que postam coisas opostas ao que eu penso. É duro conviver com o contrário quando as opiniões se radicalizam, mas talvez seja imprescindível.

Deve ser essa forma coletiva de agonia que os chineses antigos chamavam, ironicamente, de “tempos interessantes” – um inferno do qual a gente não consegue se esquivar. Liga a TV e a crise política está lá. Telefona para o amigo e ela aparece. Convida uma moça para sair, anda na rua, vai ao supermercado, e não há outro assunto. Uma hora você percebe que não vai se evadir. A discussão virá até você ainda que seja por baixo da porta, rastejando, como o fantasma de um filme de terror japonês. Melhor, então, informar-se e tentar ser parte da solução, não do problema.

Ontem, tive um momento de esperança ao ouvir o presidente Barak Obama discursar em Cuba. Depois de 56 anos de conflito, um presidente americano desembarcou na ilha de Fidel Castro como convidado, e fez um discurso maravilhoso. Exaltou as conquistas sociais e educacionais cubanas, elogiou o caráter altivo do seu povo, mas, ao mesmo tempo, defendeu o modelo americano de liberdades políticas e livre mercado. “Nós pensamos de forma diferente em muitas coisas”, disse Obama. “Mas, se vamos conviver como amigos, temos de falar sem hipocrisia”.

Essa frase cai como uma luva para o momento atual do Brasil. Mais que cubanos e americanos, nós, brasileiros, temos obrigação de nos entender minimamente, porque, ao contrário deles, compartilhamos o mesmo espaço geográfico e o mesmo destino. Não temos para onde correr. É nosso dever encontrar uma porta de saída para a crise estupenda em que nos metemos como país – e nada melhor para isso do que colocar as ideias na mesa, com educação e clareza.

É nesse espírito que eu quero falar das coisas que eu não acho razoáveis na cena política. Quem não concordar comigo, apresente a sua própria indignação. O essencial é manter o respeito e um mínimo de abertura mental. Num país que se encontra dividido como o nosso, é quase impossível que um grupo esteja totalmente certo e o outro inteiramente errado, não?

Vamos lá:

1. Não acho razoável que a presidente Dilma esteja sofrendo um processo de impeachment sem que haja contra ela uma evidência clara de crime, como prevê a Constituição. Estão tentando fazer um impeachment político, baseado na insatisfação da sociedade com a crise econômica e com a Lava Jato. Além de ser contrário a lei, esse artifício cria um precedente perigoso. Pode tornar frágeis os governos futuros. Não gostou, remove. Está em crise, tira. A jovem democracia brasileira não deve cair nessa armadilha, sob o risco de virarmos uma republiqueta instável.

2. Não acho razoável que no comando do processo de impeachment contra Dilma esteja Eduardo Cunha, político que está sendo julgado no Supremo por várias acusações de corrupção. As evidências contra ele se acumulam, na forma de gastos milionários no exterior e contas na Suíça, mas ele continua na presidência da Câmara, fazendo manobras diárias para tornar o impeachment possível. Cunha conta com o apoio dos que querem derrubar Dilma, e parece acreditar que se ela cair os seus próprios processos serão perdoados ou esquecidos. Algo de bom pode sair de uma barganha dessas?

3. Não acho razoável que Dilma e o PT sejam investigados até a medula enquanto seus adversários não são incomodados pela Justiça. Na operação Lava Jato, surgiram delações contra Aécio Neves sugerindo que ele teria em Furnas um esquema de corrupção similar ao que funcionava na Petrobrás, mas em benefício do PSDB. Por que não se investiga essa suspeita com rigor e com urgência? Corremos o risco de remover o PT do governo e colocar no seu lugar pessoas e partidos que fizeram a mesma coisa de que se acusa os petistas. Isso não teria cabimento. Com dois pesos e duas medidas não se faz um país melhor.

4. Não acho razoável que Lula ainda seja julgado pelo juiz Sergio Moro, que, por duas vezes, violou os seus direitos constitucionais. Primeiro, mandou conduzi-lo sob “condução coercitiva” (quer dizer, na marra, com show de polícia e de TV) para prestar depoimento, sem que Lula tivesse antes se negado a falar. A lei é bem clara quando diz que só pode ser levado à força quem se recusa a depor. Depois, o juiz divulgou um monte de conversas privadas de Lula ao telefone (inclusive com seu advogado, o que é gravíssimo), embora a lei proíba claramente, terminantemente, a divulgação de conversas grampeadas pela Justiça. Um juiz que por duas vezes violou a lei contra um cidadão não oferece a ele – nem à sociedade – a garantia de um julgamento isento. Que se troque o juiz ou se mande Lula ao Supremo, se ele vier a assumir o cargo de ministro. Todo mundo tem direito a um julgamento justo, mesmo o líder popular mais importante do país.

5. Não acho razoável o processo de demonização a que Lula tem sido submetido. Pedaços da imprensa passaram os últimos anos atacando o ex-presidente da maneira mais brutal, contribuindo para criar em torno dele uma camada de ódio que agora se tornou palpável. Isso não se justifica. Lula foi bom presidente por dois mandatos. Conduziu um período de prosperidade e harmonia, com todas as liberdades públicas. Mesmo agora, sob um raio-x incessante de investigações, o que se tem contra ele é relativamente pouco: a reforma, bancada por empreiteiras, de um sítio que talvez pertença à sua família; e a reforma de um apartamento que talvez viesse a ser adquirido por ele, também com o envolvimento de empreiteiras. Se vierem a ser provadas num julgamento isento, essas acusações podem destruir a carreira política de Lula e talvez ameaçar a sua liberdade. Mas certamente não o transformam num monstro de múltiplas cabeças que precisa ser destruído a qualquer custo, com ou sem o amparo da lei.

6. Não acho razoável que a violência se instale no discurso e na prática política brasileiros. Isso foi deixado para trás quando o país emergiu da ditadura. As pessoas não podem dizer que “petistas têm de morrer”, como se tem ouvido ultimamente. Isso é crime, assim como são criminosas as agressões que se multiplicam por aí contra pessoas vestindo a cor errada. Me contaram ontem que um rapaz levou uma pedrada na cabeça em Brasília porque estava na rua com uma gravata vermelha. No sábado, um conhecido me disse que levou uma bofetada de um homem idoso porque estava distribuindo panfletos contra o impeachment, em São Paulo. Violência atrai violência e quando essas coisas começam ninguém sabe onde vão parar. Melhor que não comecem.

Era isso que eu tinha a dizer.

Ah, mais uma coisa: no sábado passado, fui com uma amiga assistir no Sesc Belenzinho, aqui em São Paulo, ao show de Tiganá Santana, um jovem músico baiano de talento e elegância enormes. Antes de começar a cantar, ele pediu a atenção do público para dizer umas palavras em favor da tolerância. Sugeriu que nestes tempos difíceis as pessoas tentassem ser sábias e justas, que evitassem reproduzir no Brasil os erros monumentais dos séculos XX e XXI, cujas consequências se veem no mundo todo. Eu aplaudi no teatro, assim que ele terminou de falar, e aplaudo novamente agora. Este texto foi escrito no espírito que Tiganá sugeriu.

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