O que quer uma mulher

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Mario Sergio Conti, na Folha de S.Paulo

Agora que os ratos debandam do navio, na busca incansável do bem da pátria, de negócios maneiros e da nomeação de uma sobrinha para miss na Festa do Jerimum, o naufrágio soa inevitável. Mas alardear certeza na queda da presidente é apenas uma poção para paralisar o Planalto.

A frente única Fiesp-tucanos-Vem pra Rua se consolidou e quer meter medo. A Medusa diz aos governistas: vocês já eram, a hora é de trair, salve-se quem puder. Dilma, faça como Jango e se coagule em esfinge de mármore. PT, repita o Partido Comunista e se limite a berrar bravatas.

Trombetear que a história punirá os golpistas, por exemplo, é bravata. Nenhum deles foi tirado da santa paz. Nunca. É o que de fato a história ensina. Nem em 1930 e 1937. Nem em 1964 e 1968. Nem, de quebra, em 1984, quando a Câmara vetou o voto direto para presidente.

A avacalhação da vontade popular foi docemente tolerada. Inclusive pelo PT. Como o partido garantiu a impunidade de policiais e militares assassinos, os autoritários estão agora todos aí, serelepes.

O Dia D será o da votação do impeachment. Ele se dará em data incerta, entre abril e maio, a depender dos ardis de Eduardo Cunha, o Impoluto. Haverá até lá delações vulcânicas, teorias conspiratórias e conspiração para valer. Virão mais manifestos e abaixo-assinados.

O bate-boca a todos engolfa. A cacofonia que emana do Planalto não escapa aos ditames da sociologia clássica. A política continua a ser exercida das três maneiras cardeais. A tradicional, a legal e a carismática.

No modo tradicional, Dilma é a líder maior. Ela tem legitimidade porque foi votada para gerir o Estado. Na prática, a presidente vem nomeando capadócios para postos-chaves do Estado, em troca de votos contra o impeachment. O troca-troca tradicional, de corrupção implícita, é usado explicitamente.

No aspecto legal, o exercício do poder é enquadrado pelas instituições encarregadas de aplicar a Constituição. Ao contrário do que dizem políticos sem nada a dizer, não há judicialização da política, e sim politização da Justiça. O Supremo fará o que for decidido pelo cenáculo de varões de Plutarco, a Câmara. A separação entre os Poderes é uma lenda iluminista.

O terceiro elemento político é o carisma, e o da presidente é escasso. Nas suas falas recentes, porém, ela foi tomada por uma calma contundente. Levou frases até o fim sem interpolar sujeito, verbo e objeto. Não hesitou nem gaguejou. Na falta de marqueteiros a lhe atazanarem, foi clara.

Transmitiu a convicção de que é inocente. Pode ter descumprido o que prometeu. Pode ter maus bofes. Pode ter cavado a própria cova. Mas, num mundo político esmerdeado de alto a baixo, Dilma não tem nódoa. Não roubou, e será julgada por muitos ladrões.

Pedaladas fiscais? Ninguém sabe o que é isso, e quem sabe garante que prefeitos, governadores e presidentes primam por pedalar. Empresas venais deram dinheiro para a sua campanha? Fizeram o mesmo com todos os candidatos. Afundou o país na recessão? Nada diz que Temer irá tirá-lo do poço. Não há fiapo de prova de que tenha obstruído a Justiça.

A crise foi tão longe que o carisma da integridade pessoal não garante, por si só, a permanência de Dilma no poder. Continua a lhe faltar um programa. Quer continuar no Planalto para quê?

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