Lamento sobre o Brasil

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Hermes Fernandes

Ai de ti, Brasília! Ai de ti, Brasil! Porque, se nos dias que precederam o golpe de 64 a população tivesse acesso a tantas informações quanto se tem atualmente, certamente teria se mobilizado e impedido que a democracia fosse ultrajada e o país mergulhasse em vinte e um anos de ditadura militar. Portanto, que sejamos menos rigorosos em julgar os brasileiros daquela época que saíram às ruas clamando por um golpe, do que em julgar os que hoje, mesmo alertados pela história, seguem coniventes com o que está sendo engendrado contra a jovem democracia brasileira. A primeira vez é tragédia. Mas a segunda, farsa.

E tu, República Federativa do Brasil, que te levantaste até o céu para desfrutares da liberdade de uma pungente democracia, tornando-se a quinta economia mundial, terás teu orgulho abatido até o inferno ao vires o retrocesso a que serás submetida por aqueles que se unem para devorá-la e negociar tuas riquezas.

Os brasileiros que enfrentaram a ditadura e que saíram às ruas nas “Diretas Já” se levantarão e condenarão tua letargia e cinismo. As grandes democracias do mundo olharão com desdém e te censurarão por haver permitido tal descalabro, deixando-se seduzir por teus próprios algozes. As gerações futuras se envergonharão ao descobrirem a maneira como esta geração se deixou manipular por aqueles que almejavam retomar o lugar que ocuparam por quinhentos anos.

Não há desculpas para esta geração. Não depois da internet. Não depois que o Brasil se tornou protagonista no tabuleiro político e econômico internacional. Não depois que 36 milhões de cidadãos brasileiros deixaram a miséria. Não depois que o analfabetismo foi quase inteiramente banido. Não depois que o fluxo migratório foi revertido. Em 64, o número de jovens que ingressavam na universidade era ínfimo, na casa dos milhares. Hoje são quase oito milhões, incluindo negros e outras minorias que antes eram excluídos.

Não se trata de ser a favor de um governo ou de um partido em particular, mas de ser a favor da democracia, contrariando interesses econômicos dos que se locupletam da opressão exercida sobre as camadas mais humildes.

Não chegamos ainda à terra prometida. Quando muito, encontramos um oásis ou outro no meio do caminho. Mas, ainda há meio deserto pela frente. Mas não se pode dar ouvidos aos que pretendem nos levar de volta para o Egito.

Você pode até torcer o nariz para a mulher negra que Moisés arrumou, ou pelo fato de ter língua presa, ou por ele se demorar tanto no alto do monte, a ponto de seu próprio irmão ceder à pressão popular e confeccionar um bezerro de ouro para ser cultuado pelos hebreus. Mas não pode se esquecer de que estar neste deserto a caminho de Canaã é melhor do que retroceder e viver como escravo a serviço de Faraó.

Você pode não gostar da presidente, de sua maneira de discursar, das alianças que fez em nome da governabilidade, e até da corrupção cometida por membros de seu governo, mas daí se prostrar diante de um enorme pato amarelo em frente à sede de uma instituição que pretende acabar com os direitos trabalhistas conquistados a duras penas pelas gerações que nos antecederam… isso é inadmissível.

As próximas gerações não nos perdoarão. Nossos filhos e netos colherão o que hoje está sendo plantado sob a justificativa de se combater o comunismo e a corrupção, a mesma usada para desmoralizar Getúlio, destituir Jango, exilar Juscelino e decretar o AI-5.

Que o Senhor da História tenha compaixão da nossa geração durante a travessia desta encruzilhada. Que Sua providência nos guie na direção da justiça, da liberdade e da esperança.

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