Idiota digital

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Mariliz Pereira Jorge, na Folha de S.Paulo

Deus dá asa à cobra e a Apple dá celular a idiota. Eles se multiplicam como Gremlins caindo na água e entram em ação, muitas vezes, todos ao mesmo tempo. Porque um idiota digital só não basta, eles geralmente se conectam em rede.

Não se trata de gente que, no restaurante, é abduzido pelo celular e não conversa com ninguém. Ou que faz fotos do couvert, da entrada, do prato principal, da sobremesa e até do financier do cafezinho. Não apenas dele, mas de todos à mesa. E ai de você se der uma garfada no prato antes do clique. Faço isso com certa frequência, mas exerço meu direito de ser idiota apenas com quem conheço. Resolvemos a coisa internamente.

Falo de gente que perdeu toda e qualquer noção do que é espaço público e de como deveria se portar quando divide o ar, os centímetros quadrados, o H1N1, com pessoas que não conhece, nunca viu e que não são obrigadas a aguentar a falta de educação e grosseria dos outros. Porque não basta ser mal educado. Geralmente quem carece de modos, não hesita em destilar impropérios contra quem ousa se incomodar. A gente tem que aguentar tudo calado sob risco de levar uns tabefes.

Alguém me explica por que um sujeito paga ingresso de um show, enfrenta fila, perrengue para ir e voltar, banheiro sujo e sem papel higiênico, muitas vezes cerveja quente e ao chegar lá passa o tempo inteiro assistindo ao show pela tela do seu próprio celular. Ele não se contenta em gravar um trechinho da música preferida ou tirar uma foto para postar no Face, ele quer o maldito do show inteiro. Por que, claro, seu celular é um Samsung Galaxy, a propaganda diz que o aparelho faz imagens de cinema, e ele acredita que é o pica das galáxias, o Martin Scorsese. Então, ele saca o celular e coloca lá, bem alto, para você, que está logo atrás, não enxergar mais nada.

No show do Rolling Stones, não contente em estar a 10 metros de distância do palco e conseguir ver até a obturação do Mick Jagger quando esse abria a boca, um sujeito ao meu lado filmava o telão do show. O telão, meus amigos. No último domingo, show da banda Coldplay, a imbecilidade teve upgrade. Não basta apenas filmar, o atestado de idiota inclui agora usar o flash da câmera para ter certeza de que vai incomodar todo mundo. Contei ao menos umas 15 pessoas fazendo isso ao meu redor. E quando reclamei com um deles que jogava o facho de luz sobre mim, ouvi dele e da namorada o clássico “o lugar é público, os incomodados que se retirem”.

Não para por aí, idiotas se multiplicam, ampliam e sofisticam seus métodos. Tem o clássico idiota do avião. O cara acha que a poltrona da aeronave é uma extensão do seu escritório. Ele é tão ocupado e importante, que não pode esperar desembarcar ou falar baixo enquanto espera a decolagem. Ele quer despachar com os colegas ali mesmo pra quem quiser ouvir. Não interessa se o restante dos passageiros quer tirar uma soneca porque pegou uma ponte muito cedo, quer ler uma revista ou simplesmente não está interessado se o pessoal de vendas cumpriu a meta e vai ganhar uma viagem para Poços de Caldas.

Os restaurantes também estão cheios de idiotas-pessoas-de-negócios. Você não consegue fazer uma refeição em paz porque o idiota fala ao telefone como se estivesse fazendo uma palestra. Dia desses, só consegui almoçar por volta das 17h. Estava em São Paulo e fui ao meu restaurante favorito. Vazio, tranquilo, tocando jazz. Apenas a minha mesa e a de outro casal, que ocupava espaço de umas seis pessoas com planilhas. A mulher falava mais alto do que os agudos do sax de Coltrane. Educadamente, pedi que ela falasse mais baixo. Adivinhe. O marido, sócio, partner em idiotice falou o de sempre. “O lugar é público, os incomodados que se retirem.”

E quando finalmente achávamos que tínhamos nos livrado do idiota do Nextel, vem o imbecil do Whatsapp, que não tem o menor pudor em dividir suas mensagem de voz com o Brasil. Pode ser na fila do banco, dentro do elevador, na sala de espera do laboratório, enquanto você está em jejum, tem um potinho de xixi dentro da bolsa, e tudo que quer é ser atendida o mais rápido possível. Só pode ser um exibicionista, que adoraria mandar nudes pra geral, ou é um autocentrado, que se acha o único ser que respira num raio de dois quilômetros quadrados. Ele briga com a namorada, discute o menu da semana com a empregada, mente para o patrão.

E no cinema e no teatro? O idiota digital acha que só ele verá aquela luzinha do celular na escuridão. Só ele acha que “ai, é rapidinho, vou responder uma mensagem, atender ao telefone e dizer que depois ligo. Quanta gente chata”. Vai incomodar, acredite, eu vou olhar para esse sabre de luz intrometido bem na hora em que o Kylo Ren mata o Han Solo. E silenciosamente vou te odiar porque não quero atrapalhar os outros espectadores.

E assim, nós, os incomodados, nos tornamos apenas pessoas chatas e intolerantes e, se estamos incomodados, deveríamos nos retirar, porque o lugar é público. E em público cada vez mais gente acha que tem o direito de ser idiota, arrogante e agressiva, sem a menor vergonha. Faz tudo isso e depois posta o filminho, todo tremido, do show, com hashtag gratidão.

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