Um cuspe na cara da hipocrisia

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Publicado por Hermes C. Fernandes

“Por Deus e pela família!” Nunca o nome de Deus foi tão evocado no plenário da Câmara de Deputados Federais quanto na sessão de ontem. Pena que a maior parte dos que assistiram ao horrendo espetáculo não se deu conta do que estaria por trás de menção do nome sagrado. Talvez até haja dentre os nobres parlamentares alguns que se veem investidos de um propósito divino para defender a célula mater da sociedade. Mas, ouso afirmar que a maioria deles apenas feriu o terceiro mandamento sem o menor constrangimento. Porém, ambos, os sinceros e os picaretas, compõem o mesmo coro, regido pelos que camuflam suas verdadeiras intenções.

A bancada evangélica é o que há de mais retrógrado naquela casa. Seus componentes foram eleitos para defender exclusivamente os interesses de suas agremiações religiosas. São bravos em lutar por concessões de rádio e TV, por privilégios para seus líderes (como a anistia que Eduardo Cunha conseguiu para o Silas e o R.R. Soares), e isenções tributárias para as igrejas.  Entre eles, não há preocupação com os desassistidos, com as minorias, com a justiça social. Mas como poderiam ser eleitos sem oferecer ao povo alguma promessa concreta?

Simples. Descobriram na moral cristã a melhor artimanha para se elegerem sem o menor esforço.  Inventaram que a família tradicional estava sob um ataque acirrado de quem pretende aniquilá-la. Quem seriam os inimigos? Aqueles gays pervertidos! A partir daí, começaram a criar factoides, mentiras deslavadas. Disseram que havia um projeto de lei que seria levado a plenário que obrigaria pastores a casarem homossexuais. Depois que derrubaram a PL 122, procuraram outra desculpa para continuar brigando e garantindo seu capital político. Inventaram a tal “ideologia de gênero”. Assustaram os pais afirmando que seus filhos seriam iniciados sexualmente nas escolas.  Que menino poderia usar banheiro feminino e vice-versa.  Mentirosos! Seguem a cartilha de Hitler que dizia que uma mentira contada muitas vezes é tida como verdade.

Precisavam de um inimigo que encarnasse tudo isso. Elegeram Jean Wyllys. Transformaram-no num monstro, num ser asqueroso. Criaram memes onde palavras terríveis foram postas nos lábios do deputado que se assume homossexual.  E mesmo vindo à público para desmentir os boatos, eles continuaram a circular livremente pela internet.

Resultado: boa parte dos evangélicos têm ojeriza a Jean Wyllys. Comentários do tipo “ele vai destruir as famílias” são cada vez mais frequentes nas redes sociais. Xingamentos vindo de quem deveria destilar amor são comuns. Quem acompanha a sua legislatura dá testemunho de quão ética é sua postura. Até quando provocado com perguntas capciosas, Wyllys procura manter o tom respeitoso. Sou testemunha disso.

Um dos deputados que ontem gritavam “Tchau Querida”, disse na minha presença e de outros pastores, com todas as letras, que Jean Wyllys, seu desafeto, o havia cantado no dia anterior. Todos começaram a gargalhar. Eu abaixei a cabeça e me afastei. Que triste. A que ponto chegaram. Duvido muito que tal coisa tenha acontecido.  Não bastasse tentar desmoralizar o rapaz pelo simples fato de ser homossexual, ainda tentam achincalhá-lo em off.  Ah, os bastidores… se todos os conhecessem… teriam ideias completamente diferentes das que defendem.

Depois de elegerem um vilão, precisavam encontrar um herói. Feliciano, na qualidade de profeta, tomou o vaso usado por Samuel para ungir a Davi, e declarou numa conversa vazada recentemente, que só conhece um Messias: Jair Bolsonaro. Numa tacada, negou a Cristo. Alguns dirão que a conversa foi editada. Sim, há retalhos de várias conversas ali. Mas isso não diminui o que ele disse em alto e bom som, dirigindo-se ao próprio Bolsonaro. Cabe lembrar que o mesmo vaso (que na verdade era um chifre) usado para ungir a Davi, foi antes usado para ungir a Saul.

Já temos um vilão, um herói, faltava uma luta épica. E pelo jeito, esta ocorreu ontem durante a votação pelo impeachment da presidente Dilma. Após ter votado contrário ao embuste, Jean foi xingado por Bolsonaro de viado, queima-rosca, entre outras coisas. Bullying em pleno congresso. Se isso não é quebra de decoro, o que é, então? Quem suportaria tanta afronta? E isso ao longo de toda a sua legislatura. Ontem foi só a gota d’água. Com o sangue quente, Jean se virou em sua direção e deu-lhe uma cuspida. Se ele fez certo? Não. Acho até que também quebrou o decoro parlamentar. Se eu o condeno por isso? Também não. Bolsonaro fez por merecer tal reação. Não duvido nada que isso tenha sido pensado. Conheço poucos tão calculistas quanto ele.

Mas ele agora é o herói dos crentes. É o defensor da família tradicional. Tanto que já está no terceiro casamento e o último foi celebrado por ninguém menos que outro arauto da família tradicional, o sempre esbravejante Silas Malafaia. A crentaiada se sentiu aviltada pelo cuspe que Jean deu em seu herói.

Não se esqueçam de que quem é herói para uns, é vilão para tantos outros. E quem é vilão para uns, igualmente é heróis para outros. Davi era o herói dos hebreus, mas o vilão dos filisteus. Golias era o heróis dos filisteus, mas o vilão dos hebreus.

Aquele cuspe foi  emblemático. Deveria ser registrado nos anais da história. Foi o cuspe das minorias massacradas pelo nosso maldito preconceito na cara de nossa hipocrisia religiosa. Bolsonaro não me representa. Wyllys também não. Porém, me alinho muito mais com aqueles a quem Wyllys representa do que com aqueles cujos interesses são representados por Bolsonaro. Mania que aprendi com um certo Galileu de me posicionar pelas vítimas e não por seus algozes…

Muito mais grave do que ser insultado por um cuspe é dedicar seu voto a um torturador que quebrou os dentes de uma jovem de 23 anos que em seu idealismo lutava contra o golpe militar de 64. Pois foi justamente isso que fez o novo herói dos crentes. Ele não apenas cuspiu, mas vomitou na cara da sociedade, principalmente, dos que tiveram familiares presos e torturados pelo regime militar.

O cuspe de Wyllys lambuzou a cara de pau do Bolsonaro, mas também lavou a alma de milhões de brasileiros, sobretudo das minorias, dos negros, dos gays, das mulheres, dos deficientes físicos.

Sei o quanto pode me custar um artigo como este. Vou perder seguidores. Alguns que nutriam admiração pelo meu trabalho, ficarão decepcionados. Sinto profundamente. Não gosto de perder amigos. Mas não poderia me calar, nem ser hipócrita. Escrevo o que penso. Escrevo com o coração.

Se prefere continuar acreditando nos políticos evangélicos e em suas mentiras deslavadas; se prefere dar crédito a líderes que negociam o voto de seu rebanho, e tocam terror anunciando uma guerra inexistente contra a família, sinta-se à vontade. Posicione-se. Não vejo como é possível beber do que jorra aqui e continuar bebendo de fontes turvas como Olavo de Carvalho, Nando Moura, Danilo Gentilli, e outros que engrossam o coro do ódio, do preconceito, dos factoides. Mas lembre-se: você estará em companhia de gente muito boa que se aglutina ao redor destes mestres. Só lamento profundamente por você. Falo de todo o meu coração. Falo porque me importo com você e sei o dano que tudo isso fará à sua alma.

Só tome cuidado porque certos posicionamentos equivalem a cuspir no rosto d’Aquele que preferia a companhia de prostitutas e pecadores.

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