Novo livro afirma que Davi não matou Golias

“Davi: a vida real de um herói bíblico” diz que o rei de Israel não abateu o gigante, envolveu-se no assassinato de Saul e não era o pai de Salomão

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Ruan de Sousa Gabriel, na Época

A história de Davipoeta, algoz dos filisteus e rei de Israel – ocupa 42 capítulos da Bíblia. A trajetória do pastorzinho ruivo que cravou uma pedra na testa do terrível gigante Golias sugere que qualquer um pode derrotar seus gigantes particulares. Pelo relato bíblico, Davi foi coroado depois da morte de Saul no campo de batalha. Saul fora o primeiro rei israelita, que se acalmava ao ouvir Davi tocar lira. No trono, Davi unifica todas as tribos de Israel sob uma única coroa, derrota exércitos filisteus e transforma Jerusalém em capital do reino.

Davi se tornou a régua com que foram medidos todos os outros reis israelitas. Profetas anunciaram que o messias que restauraria a glória de Israel descenderia dele. Os Evangelhos chamam Jesus de “Filho de Davi”, sugerindo, assim, que o carpinteiro de Nazaré era o messias tão aguardado. O moderno Estado de Israel estampou a estrela de Davi em sua bandeira, numa referência simbólica às glórias de seu reino. Davi, rei de Israel, vive e resiste, cantam os judeus em louvor ao pastorzinho que derrotava gigantes.

daviJoel Baden, estudioso da Bíblia e professor da Universidade Yale, nos Estados Unidos, afirma que a história não foi bem assim. Davi não matou Golias. E é a própria Bíblia que diz isso. “Elanã, filho de Jaaré-Oregim, o belemita, feriu a Golias, o geteu, cuja lança tinha a haste como eixo de tecelão”, afirma o livro de Samuel, que, capítulos antes, registrara a luta do pastorzinho contra o grandalhão. Baden afirma que, além de não ser um matador de gigantes, Davi também não escreveu os salmos, deixou um rastro de sangue mais caudaloso que o Rio Jordão, serviu como mercenário aos inimigos de seu povo e não era pai de Salomão, o mais sábio dos reis de Israel, que lhe sucedeu no trono.

No livro Davi: a vida real de um herói bíblico (Zahar, 296 páginas, R$ 54,90), Baden se esforça para recuperar o Davi histórico e extirpar todas as lendas que envolvem o rei israelita, chamado pelas Escrituras de “homem segundo o coração de Deus”. “Davi é um dos únicos personagens bíblicos que é igualmente amado por judeus e cristãos – por ser o maior dos reis de Israel e ancestral de Jesus”, afirma Baden. “É a combinação perfeita para uma biografia.”
Baden diz que o Davi que reinou no século X a.C. não se parecia em quase nada com o rei mítico apresentado nas aulas de catecismo. A narrativa bíblica sobre Davi, segundo ele, não é histórica, mas apologética. “A apologia é um gênero literário que reconta o passado de modo que o herói da história pareça melhor do que ele realmente foi”, afirma. Apologias eram muito comuns no mundo antigo. Trajetórias de reis eram reescritas por biógrafos dispostos a esconder todas as ignomínias e exaltar todas as virtudes dos monarcas.

Mas por que o grande rei Davi precisaria de uma apologia? Segundo Baden, pesavam sobre ele as acusações de usurpação do trono e assassinato de Saul. Davi não tinha direito natural à coroa, que deveria pertencer à linhagem de Saul. As suspeitas de que ele assassinara Saul e seus descendentes para usurpar o trono correram o reino depois da insurreição de Absalão, o filho de Davi que tentou derrubar o próprio pai. Davi sufocou a revolta, mas saiu tão enfraquecido do conflito que foi preciso lembrar o povo do motivo por que ele era rei: a vontade de Deus. A apologia foi composta no período do reinado de Davi para absolvê-lo das acusações de ilegitimidade e assassinato e reafirmá-lo como o “homem segundo o coração de Deus”.

“Quando os autores bíblicos não medem esforços para enfatizar algo, temos razões para suspeitar que tenha se passado exatamente o oposto”, diz Baden. Ele contrapõe a narrativa bíblica ao conhecimento que temos do mundo antigo. Do método de Baden, emerge um Davi semelhante a outros monarcas do período: sempre disposto a recorrer à espada para manter seu poder e cuja ambição não conhece limites. Segundo a Bíblia, Davi chorou copiosamente a morte de Saul e mandou matar o autor do regicídio. Baden expõe razões para desconfiar desse Davi enlutado. “A única conclusão sensata é que Davi participou ativamente da morte de Saul, que o conduziu ao trono.”

Os destinos de Davi e Saul, no entanto, não teriam sido tão diferentes assim. Segundo Baden, os descendentes de Davi também não reinaram sobre Israel. “Salomão não era filho de Davi”, diz ele. “Portanto, é impossível que a dinastia davídica tenha governado Israel e que Jesus ou qualquer outro messias descendesse de Davi.” Quem reinou foi a linhagem de Urias, oficial do exército de Davi e verdadeiro pai de Salomão. A Bíblia conta que Davi armou a morte de Urias depois de engravidar a mulher dele, Betsabá. A criança não sobreviveu. Davi e Betsabá tiveram outro filho: Salomão, que ocupou o trono de Israel. Baden cita estudiosos, como o finlandês Timo Viejola, que concluíram que a história do primeiro filho morto foi uma inserção tardia no texto.  O objetivo era provar que não há nenhuma possibilidade de que Salomão fosse filho de Urias. A confirmação desse teste de paternidade reside no nome de Salomão, cujo significado, segundo Baden, é “o seu substituto”. Na falta de um irmão morto, Salomão substituiu o pai morto. E quem estava morto era Urias.

A biblista Suzana Chwarts, professora do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo, considera precipitadas as conclusões de Baden. “Essas conjecturas sobre o texto bíblico são construídas sobre areia movediça e podem cair por terra na próxima escavação arqueológica”, afirma. Há poucas décadas, estudiosos diziam que o reino de Davi não existiu, mas achados arqueológicos recentes provaram que o rei de Israel realmente é histórico. Segundo Suzana, o nome Salomão não significa “o seu substituto”, mas deriva de shalom, que, em hebraico, significa paz. “Davi era um homem de guerra; Salomão, um homem de paz”, afirma. A Bíblia, diz ela, é uma coletânea de textos reunidos ao longo de nove séculos, editados e formatados segundo molduras teológicas. E é comum que essa coletânea apresente versões diferentes da mesma história, como a narrativa da morte de Golias. “A tentativa de esclarecer as ambiguidades bíblicas por meio de outras histórias acontece amiúde”, afirma. “Em vez de inserir histórias imaginadas por nós nos vácuos do texto, precisamos entender como a Bíblia foi composta.”

Os estudos históricos da Bíblia, muitas vezes, converteram-se em arma dos céticos contra a crença religiosa. Mas os crentes entendem que a crítica acadêmica ao texto sagrado não é incompatível com a fé. O rabino Ruben Sternschein, da Congregação Israelita Paulista, prefere deixar as questões históricas com os historiadores e os arqueólogos. “Não lemos a Bíblia em busca de conhecimento histórico, mas, sim, de valores éticos e mensagens que dialoguem com o nosso cotidiano”, diz. “A comprovação ou negação histórica não derruba nem fortalece a minha fé.” Baden também rejeita a oposição entre fé e fato histórico. “As narrativas bíblicas não são importantes por serem historicamente verdadeiras, mas porque nos dão lições sobre a nossa própria humanidade”, afirma. “A fé pode ser cega, mas uma fé que mantém os olhos abertos é ainda mais forte.”

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