Fora, Cunha

A imprensa internacional não cai na lorota do “golpe”, mas aponta o dedo para Eduardo Cunha

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Ruth de Aquino, na Época

“Que Deus tenha misericórdia desta nação, voto sim.” De todos os votos no processo de impeachment de Dilma Rousseff na Câmara, o número 230 foi o que mais me escandalizou. Por vir de quem vinha: o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o “gângster”, “ladrão” e “canalha”, nas vozes de deputados que o enfrentaram com o microfone, sem que Cunha piscasse o olho. Em março, Cunha se tornou réu por receber propina no petrolão em voto unânime no Supremo Tribunal Federal: 10 a zero. Como pode continuar impune e poderoso e invocar Deus?

Entendo que o voto de Jair Bolsonaro, com elogio a um torturador, coronel Ustra, tenha chocado não só vítimas da ditadura, mas a todos nós que nos revoltamos com crimes contra a humanidade. Bolsonaro atacou muito mais que a democracia brasileira. Ele se equiparou a nazistas que insistem em ignorar o Holocausto. Mesmo em seus delírios homofóbicos, racistas e armamentistas, Bolsonaro é ninguém se comparado a Cunha. Por uma questão de poder político.

Se me perguntassem quem prefiro ver cassado, Bolsonaro ou Cunha, nem hesitaria. “Fora, Cunha”. Há seis meses – recorde na história parlamentar –, ele adia seu julgamento na Comissão de Ética, valendo-se de manobras com aliados e brechas no regimento. Não se incomoda com sua impopularidade. Segundo pesquisa do Datafolha, 77% querem a cassação de Cunha. Bem mais que os 67% que gritaram “Fora, Dilma” – por sua incompetência, irresponsabilidade fiscal e descompromisso com os eleitores: os seus 54 milhões de eleitores e os 51 milhões de Aécio. Não foi só pelas pedaladas.

A imprensa internacional não cai na lorota de Dilma, que chama o impeachment de golpe. Mas aponta o dedo para a maior nódoa no processo: o “maquiavélico” Eduardo Cunha, comparado ao personagem Frank Underwood, do seriado House of cards. Um homem sem escrúpulos. Acusado de corrupção ativa e passiva, de ter contas secretas milionárias na Suíça, de ter mentido em depoimento à CPI no ano passado. Ele não pedirá para sair. O Brasil precisa tirá-lo de onde está. Mesmo que seja apenas por quebra de decoro, como está na representação contra ele de 13 de outubro de 2015. Em dezembro, a Procuradoria-­Geral da República pediu seu afastamento, acusando-o de “manobras espúrias” e de despesas incompatíveis, como o Réveillon de 2013 em Miami, quando gastou com a mulher em nove dias US$ 42.258. Fora, Cunha.

Cunha presidiu a Telerj de 1991 a 1993, sob Fernando Collor, filiado ao PRN (Partido da Reconstrução Nacional) e ligado a PC Farias. Filiou-se ao PPB (Partido Progressista Brasileiro) em 1994. Uniu-se ao líder evangélico Francisco Silva, com quem trabalhou na Rádio Melodia. Virou afilhado fiel de Anthony Garotinho. Presidiu a Cehab (Companhia Estadual de Habitação) para Garotinho e foi demitido, em 2000, acusado de fraudes em contratos em sua gestão. Foi eleito deputado pelo PPB em 2002 e, depois, pelo PMDB. Safou-se de todas as sindicâncias – licitações irregulares, desvios, achaques, favorecimentos. Uma de suas frases mais conhecidas é: “O povo não está nem aí para o que eu digo, só pega a última frase”.

Foi eleito presidente da Câmara em fevereiro de 2015, prometendo aos deputados um novo complexo de quatro prédios, shopping, restaurantes, salões de beleza, plenário com 675 lugares. No dia 16 de julho, o consultor Julio Camargo delatou Cunha: acusou-o de lhe pedir US$ 5 milhões em propinas no petrolão. A advogada criminalista Beatriz Catta Preta, que defendia Camargo, decidiu encerrar a carreira e sair do país, por ter sido intimidada por integrantes da CPI da Petrobras. Disse que aumentou a pressão contra ela e sua família após essa delação: “Camargo tinha medo de chegar ao presidente da Câmara”.

Em agosto, Cunha pediu a cabeça do juiz Sergio Moro e exigiu que a ação na Justiça Federal do Paraná corresse em sigilo e fosse conduzida pelo Supremo porque ele tinha foro privilegiado. Logo depois, “rompeu” com o governo federal, se lixando para o fato de que o PMDB fazia parte da base aliada do governo Dilma. Decretou “recesso branco” de duas semanas e isolou-se. Agora, ameaça paralisar a Câmara enquanto o Senado não apressar o afastamento de Dilma. Basta ou é preciso mais?

A pressão popular é imensa. Cunha une o Brasil contra ele. Se a Comissão de Ética da Câmara não consegue fazer nada, que entre em cena o Supremo. Por mais pruridos que o STF tenha para julgar o afastamento do presidente da Câmara, precisa honrar seu próprio voto e levá-lo adiante. Sem procrastinar. Afinal, estamos ou não preocupados com a imagem do Brasil, a paz nas ruas e a lisura do processo?

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