Todo mundo é psicopata

publicado no Ciência Maluca

No começo da década de 1960, Stanley Milgram, psicólogo e cientista social, fazia coro aos incrédulos que, em choque, se perguntavam como os alemães haviam caído no papo dos nazistas e permitido tantas atrocidades. Hitler e seus comandados se consagraram como monstros da persuasão. Mas Milgram suspeitava que o peso da farda e do cargo deles contava muito na hora de convencer a população. Não era o padeiro quem pregava em prol de uma raça pura e ariana. Era o presidente do país, um homem inteligente, junto a todos os membros do alto escalão do governo. Eram autoridades. Como poderiam eles, simples cidadãos, contestar aquela enxurrada de ideias inovadoras vindas dos líderes da nação? Se contestassem poderiam ser acusados até de impedir a evolução da humanidade.

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Milgram decidiu envolver voluntários em um experimento pernicioso. Submeteria um participante a choques cada vez mais pesados, aplicados justamente por pessoas comuns. A cena seria a seguinte: dois voluntários chegariam ao laboratório e receberiam as instruções de um pesquisador. Participariam de um experimento para provar que o ser humano, assim como outros animais, aprende com o erro quando sofre uma punição: só apanhando deixa de fazer besteira. A sorte definiria os papéis: um deles viraria professor e o outro, aprendiz. A missão do aluno seria responder corretamente às perguntas do professor. Se errasse, levaria um choque do professor, que ficaria mais forte a cada deslize dele. Os dois ficariam em salas separadas e só um canal de áudio ligaria os dois. Só que junto ao voluntário que fizesse o papel do professor estaria um dos pesquisadores. Ele representava a autoridade ali. E, quando o professor ameaçasse sentir dó do outro participante, o pesquisador o lembraria sobre a missão. Afinal, ali havia, sim, um experimento em andamento. Se ele desistisse tudo iria por água abaixo.

Mas havia uma pegadinha na história. Na verdade, o cara ou coroa que definia quem seria o aluno e quem seria o professor era uma farsa. Um ator, contratado pelos pesquisadores, sempre seria o azarado a virar o aluno e receber os choques. Os choques, por sua vez, também eram falsos. O ator havia gravado áudios com gritos de dor e reclamações antes da chegada do “professor”. E a cada choque tomado (ou melhor, não tomado) ele se divertia na sala ao lado, colocando o som de dor. O voluntário no papel do professor seria o único a não saber que aquilo não passava de encenação.

O primeiro voluntário chegou ao laboratório da Universidade Yale, nos Estados Unidos, onde seria conduzida a pesquisa, e logo venceu na sorte e virou o professor. “Quão perigosos são esses choques?”, perguntou ao pesquisador. “Não são perigosos, só causam dor. Mais alguma coisa?”, respondeu friamente o pesquisador. “Não, isso é tudo.” O ator-aluno ficou lá, supostamente entregue ao azar, enquanto pesquisador e professor fecharam a porta e caminharam para a outra sala.

O professor começou a ler uma série de duplas de palavras (ex: dia azul; menina legal) em voz alta. A tarefa do aluno era memorizá-las. Na sequência, o professor embaralhava as palavras (ex: legal azul; menina dia) e o aluno precisava reencontrar os pares. Em frente ao professor, havia um painel com vários botões para acionar os choques, que começavam em 15 volts e terminavam em 450 volts, o suficiente – na vida real – para matar alguém.

Lá pelo quarto choque, o ator liberou um áudio mais tenso. “Ai! Pesquisador! Isso é tudo, me tire daqui. Eu falei que tenho problemas cardíacos e meu coração está começando a me incomodar.” O professor hesitou, olhou para o pesquisador. Deveria continuar. “Por favor, continue, professor.” “Bem, eu não vou ser responsável pelo que acontecer aqui”, replicou o professor, a verdadeira cobaia desse experimento. Seguiu em frente, leu em voz alta uma nova sequência de palavras. Um silêncio tomou a sala ao lado. O professor permaneceu parado, à espera da resposta. “Por favor, o experimento requer que você continue, professor”, insistiu o pesquisador. Ele, então, disparou um choque de 245 volts.

Entre os 40 voluntários testados, todos, sem exceção, chegaram até os 300 volts. E 65% deles seguiram até o fim com o experimento. Mesmo quando o aprendiz, após reclamar muito e apelar para problemas cardíacos, se calava lá dentro, sem dar sinais de vida, a maioria seguiu com os choques. Até chegar aos 450 volts. Ao final, o pesquisador explicava que não havia choque qualquer. E, para alívio do professor, o ator saía da sala vivo e sorridente.

Milgram, o chefe da pesquisa, repetiu o experimento mais 18 vezes, em lugares diferentes. Segundo ele, as pessoas seguem em frente por confiar nas autoridades. “A extrema vontade dos adultos de ir longe para atender ao comando de uma autoridade constitui o maior achado do estudo”, escreveu o cientista. Quando ele mudou o local de experiência para um escritório qualquer, fora da universidade, a taxa de obediência caiu. Ao colocar uniforme nos pesquisadores ou convidar dois professores, em vez de apenas um, novamente, a maioria dos voluntários levava os choques até o fim. Quanto mais profissional pareciam o ambiente e os pesquisadores, menos responsáveis os participantes se sentiam. E maiores as chances de completar o teste. Mulheres se mostraram tão dispostas e obedientes quanto os homens. E todos acabavam “matando” suas vítimas, seguindo os comandos da autoridade.

Altruísmo genuíno só acontece mesmo entre macacos. Pesquisadores de Chicago criaram um sistema de recompensa de comida. Um grupo de macaco reso puxava uma corrente para receber alguns alimentos. Funcionava bem. Até que perceberam: toda vez que aquilo acontecia, outro macaco da gaiola ao lado recebia um choque elétrico. E então pararam. Preferiam passar fome a causar sofrimento a outro colega. Uma lição e tanto para nós humanos.

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