A decadência do automobilismo

O piloto Nico Rosberg, da Mercedes, durante treino livre para o GP do Bahrein (foto: Luca Bruno/Associated Press)

O piloto Nico Rosberg, da Mercedes, durante treino livre para o GP do Bahrein (foto: Luca Bruno/Associated Press)

Mariliz Pereira Jorge, na Folha de S.Paulo

Quem tem mais de 30 e poucos anos, provavelmente quando criança tinha uma rotina parecida aos domingos de manhã. Enquanto o vapor das panelas enchia o ar com o cheiro confortável de comida caseira, as famílias ficavam num vai e vem entre a cozinha e a sala e o barulho dos carros de Fórmula 1.

Hoje, quando vejo alguma notícia sobre o campeonato, quase sinto o aroma do molho de tomate da lasanha da minha mãe. Mas é só isso. Foi o que ficou da minha relação com o esporte. Parece que não sou a única, haja visto a queda na audiência e a popularidade das corridas de uns dez anos para cá.

Vou mais longe e sei que os amantes do esporte —e ainda há muitos por aí— não vão gostar do que vou dizer. Num futuro, não tão breve, é verdade, olharemos para corridas de carro e teremos e mesma impressão sobre as lutas de gladiadores. Até fazia sentido na época, não mais.

As corridas de carros se popularizaram com o boom da indústria automobilística. O esporte virou sinônimo de glamour e pilotos ganharam status de pop stars. Passaram a estrelar comerciais, namorar modelos, estampar revistas de fofoca.

No ano passado, Bernie Ecclestone, o chefão da Fórmula 1, disse que o campeonato havia perdido 25 milhões de expectadores na TV aberta, mas que não se preocupava porque essa audiência havia migrado para a internet e para canais por assinatura. Não é tão simples.

É sinal de que corridas de carro, e eu falo da Fórmula 1 por ser a mais famosa, têm atraído apenas fãs que se dispõem a pagar para acompanhar o campeonato em canais pagos. O esporte vê os expectadores de ocasião irem embora e isso explica um tanto da perda da popularidade.

Entre os fãs de corrida há uma lista de reclamações. Falta de competitividade, desenho dos circuitos, calendário longo, com a inclusão de países sem tradição no esporte. Até o ronco do motor não é mais o mesmo, reclamam uns. Ficou chato, dizem outros.

No entanto, o maior impacto na popularidade do esporte e em sua audiência tem a ver com outro fator: o fim do culto ao carro e sua má relação com o homem, que se reflete em mortes, congestionamento e poluição.

Muitas cidades do mundo dão sinais de que o desgaste é irreversível. Cerca de 60% dos parisienses não têm carro. Madri pretende proibir a circulação total de veículos na região central em até cinco anos.

Um estudo britânico constatou que, em algumas horas do dia, os ciclistas se movem muito mais rapidamente do que os carros e que um motorista terá perdido 106 dias de sua vida procurando uma vaga para estacionar. Em Copenhague metade da população tem a bicicleta como meio de transporte. Ciclovias já são prioridade ou viraram pauta no planejamento urbano ao redor do mundo.

Em São Paulo, a chiadeira em torno da diminuição de velocidade deu uma trégua com a constatação da melhora do trânsito e da queda no número de acidente e de mortes. É difícil mudar uma cultura enraizada durante décadas, mas esse caminho parece sem volta.

Lembro de meu pai lavando o carro nos fins de semana, passando cera, cuidando como se fosse uma joia. Uma cena do passado. Assim como no futuro não fará o menor sentido sentar para ver duas dúzias de carros disputar quem chega em primeiro lugar.

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