O poder evangélico no Brasil

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Publicado na Revista Giz

A professora e jornalista Magali Cunha vem investigando, desde o início dos anos 2000, o universo das igrejas evangélicas no Brasil. Professora da pós-graduação em Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo, Magali pesquisou inicialmente a chamada cultura gospel – que apresentou cantores e compositores de música religiosa para o chamado grande público. Acabou descobrindo que as zonas de influência desse grupo ultrapassavam, e muito, a dimensão específica do entretenimento. Dispostos a ocupar espaços mais portentosos na esfera pública e na agenda dos brasileiros, os evangélicos pentecostais e neopentecostais chegaram rapidamente à mídia, para finalmente explicitar e consolidar um real projeto de poder.

“Eles almejam um Estado que ande em dia com as demandas das igrejas e que preserve os valores da chamada tradicional família brasileira. Na mesma linha, disputam espaço com os grupos militantes pelos direitos sexuais e reprodutivos e não medem esforços para manter a estrutura patriarcal na família e na sociedade”, explica a pesquisadora.

Para ela, a aceleração da agenda conservadora e o desarquivamento de pautas que já até tinham ficado para trás são obra do presidente afastado da Câmara dos Deputados, figura política fundamental para entender o nosso tempo. “O responsável pela velocidade nas ações é Eduardo Cunha, filho legítimo dos grupos evangélicos”.

A revista Giz entrevistou com exclusividade a professora da UMESP. Os melhores momentos dessa conversa você acompanha a seguir.

As pesquisas mais recentes da senhora se debruçam sobre a atuação contemporânea dos evangélicos que foram se movimentando para outros setores da sociedade, alcançando os meios de comunicação e a política. A comunidade evangélica é hoje uma força no Brasil. A senhora pode recuperar suas motivações e contar como começaram seus estudos?

Os evangélicos são meu objeto de investigação desde o início dos anos 2000. Meu doutoramento é de 2004, e, naquele momento, eu estava muito atenta a fenômenos da cultura, decidi analisar como a música chamada de gospel estava adquirindo força no mercado.  Houve um crescimento, ocupação das mídias religiosas e outras mídias, e as próprias igrejas estavam transformando seu jeito de ser por conta desse fenômeno musical e dessas práticas. Com o decorrer da pesquisa, percebi que não era apenas um fenômeno musical. Era cultural no sentido mais amplo mesmo, envolvia mudanças nas práticas, nos hábitos, na forma de praticar a fé, a troca com os católicos, o mercado, produções artísticas. Era um fenômeno cultural mesmo. Por isso, criei a expressão cultura gospel para explicar essa nova forma que os evangélicos tinham encontrado de ultrapassar as fronteiras da religião para ganhar a visibilidade da esfera pública. O elemento político entra aqui. À medida em que os evangélicos foram pleiteando espaço nas mídias e vendo como isso trazia destaque na sociedade, o projeto político começou de fato.

Esse crescimento cultural e comportamental se deu a partir de quando? Final do século 20?

Isso, a partir dos anos 1990 para frente. Nesse ponto, os grupos pentecostais têm destaque, porque eles vêm das igrejas evangélicas tradicionais, se ramificam, criam novas igrejas com novas teologias e dão início ao movimento das neopentecostais. Esse é um fenômeno bem brasileiro e que atende a questões próprias daqui. Esses grupos, que passam por esta expansão, é que buscam com mais afinco a mídia e a exposição. E conseguem.

E, ao chegarem aos meios de comunicação – seja como donos de emissoras, seja como conteúdo –, esses grupos constroem uma ponte para a política, para disputar um projeto de poder. É isso?

Exatamente isso. Existe um marco fundamental quando se fala da cultura evangélica e de suas ramificações. O marco é o ano de 1986, quando se forma o Congresso Nacional Constituinte. Na formação desse Congresso aconteceu a formação da primeira bancada evangélica. As igrejas evangélicas, tradicionais e mais novas, quiseram estar lá, participar para ter um papel na nova Constituição, marcar posições. É desse momento também uma política que distribuiu emissoras de rádio e TV em troca de favorecimentos para o governo Sarney.

A política do Trem da Alegria. Os grupos religiosos, em nome de apoiar certas medidas, ganhavam emissoras.

Isso. Foi um cenário amplamente divulgado e conhecido e acabou repassando para as mãos desses grupos uma ferramenta poderosa, que são as estações e emissoras de rádio. O governo Sarney distribuiu fartamente para conseguir, principalmente, o mandato de 5 anos. Então, em 1986, se constitui a bancada evangélica. Daí para frente, esse grupo teve altos e baixos, mas já estava constituído. No entanto, é a partir dos anos 2000 para frente que a bancada toda cresce muito e os projetos políticos ganham notoriedade. Neste ponto, o que a gente tem é a força de duas igrejas. Uma, bem tradicional, pentecostal clássica tradicional mesmo, que é a Assembleia de Deus. E a outra, a Igreja Universal do Reino de Deus, que já é neopentecostal, bem brasileira mesma, e com forte associação com a mídia. Essas duas igrejas se diferenciam das demais porque têm, sem nenhum receio em afirmar, projeto político, projeto de ocupação de esferas públicas.

Essas duas igrejas assumem essa posição?

Assumem sim. A Igreja Universal se associa ao partido político PRB (partido Republicano Brasileiro), que não é dela, mas tem forte participação; e a Assembleia de Deus, quando viu a força da Universal, se une ao PSC, Partido Social Cristão. Do PSC é que emergem o pastor Marco Feliciano, o Pastor Everaldo. A Assembleia hoje tem o intuito de formar um partido próprio e que já está em vias de ser fundado, já tem assinaturas, etc. É o Partido Republicano Cristão, PRC. Outros partidos também têm ligação com outras igrejas, são 27 grupos religiosos.

Antes de a gente seguir na questão política mais precisa, vamos só entender a que universo estamos nos referindo. Quantos e quem são, mais especificamente, os brasileiros declarados evangélicos?

Segundo o censo de 2010 do IBGE, auto declarados evangélicos são 22% dos brasileiros. Dentro desses 22% de evangélicos, 15% são pentecostais e esses são a grande força mesmo. Entre as igrejas, a Assembleia de Deus é a que possui mais fieis e também mais representação geográfica. Ou seja, é mesmo a maior força. Em segundo lugar, está a Universal. Os demais estão distribuídos entre os evangélicos históricos, que nunca foram uma força numérica, mas que têm uma presença, porque têm escolas, hospitais, serviços sociais, e vêm desde a chegada dos missionários no século 19. São os batistas, presbiterianos, metodistas, que têm presença, mas não têm mídia e nem projeto político declarados. Agora, tem uma parcela da população que se declara evangélica, mas não se vincula com nenhuma igreja. Pensando que de 2010 para cá a população cresceu, estamos falando de cerca de 30% da população brasileira que se afina com o evangelho. Alguns pesquisadores indicam que quando o patamar chegar a 30% da população, o grupo dos evangélicos para de crescer, estagna. Seja porque tem o lastro católico, seja por decepções com a própria igreja, ou tradições de família, parece que o teto é 30%. Como já chegamos mais ou menos nesse patamar, precisamos continuar acompanhando.

Voltando para a política. No dia em que estamos fazendo esta entrevista, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, representante direto da bancada evangélica, foi afastado dessa função. A bancada evangélica é fortíssima e ocupa postos fulcrais no desenho da nossa democracia; os votos pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff não poucas vezes citaram Deus, igreja, família e outros valores cristãos; o governo Lula, para ganhar e governar, se associou à bancada evangélica. Enfim, parece que estamos diante de um quadro em que, para se governar, é preciso pedir a bênção aos evangélicos. Então, afinal, qual é o projeto de poder desse grupo?

Olha, se a gente olhar tão para trás assim, a gente não vai encontrar um projeto de poder tão desenhado assim não. Eu falei que em 1986 se configura a primeira bancada evangélica, que vai disputar projeto público, mas é em 2010 que essa história dá um salto significativo. Até 2010, as pautas evangélicas eram muito domésticas, paroquiais. Eram projetos para dar destaque a uma igreja, ou a um pastor, ou a um assunto da agenda dos evangélicos, mas disputando atenção nesse universo pequeno, o Dia da Igreja X ou Y, voltado ao universo religioso e doméstico. No entanto, a perspectiva da força dos grupos que vinham crescendo ao longo dos anos 1980 e 1990 já vinha tomando corpo. Qual era o cenário? O crescimento da população evangélica, a novidade e a força da palavra do pastor, e aí alguns políticos aproveitam essas forças para se aproximar de uma parcela do eleitorado, uma parcela importante. A palavra do pastor certamente valia um voto. Por isso a perspectiva estava lá.

Mas 2010 trouxe novos elementos para este cenário.

Exatamente. Entra em cena a primeira mulher candidata à Presidência da República. Em volta dessa mulher, uma série de discussões relacionadas à mulher e ao direito das mulheres vão crescendo. Lula já tinha instituído uma secretaria da Mulher com status ministerial; já existia a secretaria de Direitos Humanos, que estava dando voz às questões de gênero, de orientação sexual, etc… o caldo vai crescendo. Chega a campanha e Dilma Rousseff é levada a tratar de temas e pautas que já vinham sendo tratados por Lula e os grupos evangélicos começam a se sentir incomodados.

Marina Silva também é mulher e foi candidata…

Mas é evangélica e não tomou posições diversas dos demais evangélicos. Além disso, Marina não saiu de cima do muro para agradar a vários grupos. Dilma, ao contrário, foi forçada a pronunciar suas posições por pressões desses grupos. Teve de falar de aborto, de homossexualismo…

A campanha presidencial daquele ano foi mesmo marcada por essas questões.

Sim, era uma mulher, de esquerda, guerrilheira. Não se colocou frontalmente contra aborto, drogas, homossexualismo, etc. vinha com pautas de reforçar as bandeiras das mulheres e reforçar o que já vinha sendo feito nos dois governos do Lula. Ela foi encostada na parede para pronunciar coisas que ela nem queria muito, mas foi forçada. E por que 2010 fica então marcado? Porque pela primeira vez aparecem na campanha as questões dos direitos sexuais e reprodutivos. Direito à libertação do corpo, que sempre é controlado pelo Estado e pela religião. Aí veio alguém que pode mudar essa história do controle sobre os corpos, que é a presidente Dilma. O ano de 2010 é paradigmático nesse sentido, porque vai mostrar uma reação muito forte dos grupos religiosos, incluindo aqui os católicos também, que não tinham uma bancada, mas se uniram contra os valores representados por Dilma.

Estamos falando do movimento “Vamos salvar a família”?

Exatamente. Não teve esse nome formal, mas foi essa a bandeira que surgiu. Os governos Lula e a campanha de 2010, principalmente ela, sinalizaram para os grupos mais religiosos que os valores da tradicional família brasileira poderiam estar em risco se Dilma ganhasse a eleição.

É possível a gente fazer um paralelo com movimentos anteriores que o Brasil já experimentara… nos anos 1950 e 1960, as marchas da família com Deus e que tais…

Sim, esse sentimento nunca morre de vez e foi reavivado na eleição. Regulação de corpos, controle de mulheres, controle de gênero. E aí, de 2010 para frente, os evangélicos não vão mais ficar só com pautas domésticas e vão tentar interferir nas políticas públicas, para frear avanços que possam ameaçar esse âmbito da família. E tudo culmina em 2013, quando Marcos Feliciano assume a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Já é uma estratégia de ganhar espaços importantes. Não se aprovou nada naquele ano, mas o Feliciano facilitou a entrada de várias pautas, como o Estatuto da Família, a não inserção de discussões de gênero nas escolas. Ninguém sabia quem era o pastor Feliciano. Ele foi catapultado. Era um pastor midiático, mas vira um personagem da política.

E o que os evangélicos querem?

Um Estado que corresponda às expectativas religiosas, que visam a garantia da família tradicional e tudo que isso traz a reboque.

Agora, a pregação religiosa convence ainda mais porque o momento social e econômico se afinam com o discurso religioso. Me refiro aqui à explicação religiosa para o sucesso da economia, das finanças da família, que se apoia na chamada “Teologia da Prosperidade”.

Olha, essa teologia nasceu num momento muito especial, quando as políticas neoliberais estavam em plena implantação e aprofundamento, vieram os arrochos, a perda de direitos. A economia ia mal e a renda das pessoas também. Os líderes religiosos estavam afinados com essas propostas e fazem aparecer no Brasil esse discurso que já existia fora daqui. O discurso da teologia da prosperidade combina muito com a pregação dos pastores, porque aposta muito no individualismo, no sucesso individual. Não tem perspectiva social, é o indivíduo com Deus. E aí, mudam os ventos da economia, muda a política econômica, o país passa a crescer, a renda aumenta e o fiel começa a se sentir agraciado por todo seu esforço.

Como se, de tanto pedirem, Deus atendesse. Como se depois de tanto esforço, viesse a recompensa divina.

Exatamente isso. Claro que se trata de uma questão econômica, mas que foi muito bem capitalizada pelas igrejas. E, é importante ressaltar, como o quadro muda, o discurso e o público das igrejas evangélicas mudam também. Se, nos anos 1990, no auge das políticas neoliberais, com desemprego superior a 15%, os pastores falavam para pobres e desprovidos, no início dos anos 2000, a classe média ascende e os pregadores passam a falar com vitoriosos, empreendedores, trabalhadores com renda. A Igreja Universal, em especial, faz esse movimento de ascensão econômica e passa a acolher empresários, casais ricos, gente que pagou as dívidas e hoje prospera.

Na linha contrária, o pastor Waldomiro Santiago rompe com a Universal, abre a Igreja do Poder de Deus e abraça os mais pobres…

Os que não ascenderam economicamente, migram com o Waldomiro. E, por isso, a fala dele é muito ligada à cura, à libertação, a expiação dos problemas. Os evangélicos mais pobres, que seguem essa linha, não têm plano de saúde e não têm perspectiva de enriquecimento a curto prazo, então se sentem melhor entre a classe D, o que já não acontece com o público da Universal, que enriqueceu e hoje é formado por empresários, profissionais liberais, comerciantes, que buscam a superação das dificuldades na empresa, a conquista de uma carreira mais próspera e etc. O Brasil mudou e a igreja acompanhou essa mudança. 

Agora, seja entre os mais pobres, seja entre os mais ricos, os evangélicos acabam fazendo coro e reforçando esse projeto político das igrejas, que passa por valores, costumes, tradições, mas também economia?

Sim, porque, à medida em que a crise econômica é associada à crise política, os fiéis fazem uma leitura religiosa dessa situação. Ou seja, estamos pagando economicamente por um governo que não deveria estar lá. Um governo que não defende a família, Deus não pode estar com esse governo. Estamos sendo punidos e a era de prosperidade acabou. Esse discurso é propagado nessa ordem, com essa lógica.

E como a mídia associada aos grupos evangélicos vêm sendo manejada? Temos as emissoras de rádio, de TV, canais laicos, canais com horários comprados…

Então, vamos separar para explicar melhor. O rádio ainda é o meio mais importante, mais usado e que mais atinge fieis. De uma forma geral, as emissoras de rádio usadas pelos grupos evangélicos se dedicam exclusivamente à programação religiosa, com música e pregações mesmo. Já nos canais de TV, a gente tem uma divisão. As igrejas compram horários, ao longo do dia e da madrugada. Esses horários são ocupados por cultos e por programas mesmo, de auditório, ou de aconselhamento. A programação da rede CNT foi quase toda comprada, assim como a da TV Gazeta e parte da TV Bandeirantes. Destaque para a Igreja Universal do Reino de Deus, que distribui programação em uma série de canais. Mas a Rede RIT e a Igreja do Poder de Deus também têm muitos horários. É um jogo confortável para as emissoras, que não conseguem uma fonte de renda segura. E o público desses programas, isso é importante, é mais diversificado que o conjunto de fieis daquela igreja. São evangélicos, católicos, gente sem religião confessa, que assiste e se sente beneficiado pelo programa, independente da fé e da confissão. Se interessa pelo conteúdo e pelas propostas.

É o caso do programa Escola do Amor, da filha do Edir Macedo?

Exatamente esse o exemplo. Só para diferenciar. A Record, apesar de pertencer a Edir Macedo, sempre se colocou como uma emissora laica, não religiosa, e, de fato, a Igreja Universal compra os horários na grade da Record. A exceção é o Escola do Amor, com Cristiane e Renato Cardoso, filha e genro de Macedo, que apresentam um programa na Record, de forte orientação religiosa, afinadíssimo com a Igreja Universal, mas que é um programa comum, da grade da Record mesmo. E é um programa que vai muito bem na audiência. Ele trata de um assunto que ninguém trata, nem as emissoras seculares e nem as religiosas, que é a relação do casal, o casamento, as crises, os planos. Você tem um casal bonito, moderno, com dicas contemporâneas, nada arcaicas. Eles dizem para as pessoas, saírem, se divertirem, investirem, serem felizes. Isso cola bem no público.

No entanto, o lastro é evangélico tradicional.

Sim! O ranço todo do patriarcado está ali. O homem é o chefe da família, a família é a mais tradicional possível, mas isso tem um apelo incrível. Nos espaços públicos as TVs ficam ligadas nesse programa, reproduzindo os valores. A mídia, como eu venho dizendo, sempre teve um lugar estratégico para esses grupos. Logo eles perceberam a força que as emissoras têm e como potencializam os projetos políticos. Mas, é bom ressaltar, que de 2009, outro componente começa a fortalecer ainda mais, e muito mais, esse cenário.

Os evangélicos deixam, nesse período, de estar restritos às emissoras evangélicas.

Exatamente. As grandes redes, as não religiosas mesmo, começam a abrir espaço para as falas, as pautas, os costumes e a cultura evangélica. Os cantores gospel começam a aparecer nos programas de TV, as famílias evangélicas passam a fazer parte das tramas das novelas, os grandes festivais de música passam a ser televisionados. Marília Gabriela entrevista os artistas, Ratinho recebe os cantores, Raul Gil, etc. E é interessante como a grande mídia é simpática a essas personalidades evangélicas, abre os espaços e sempre pinta para a sociedade como figuras do bem, positivas, confiáveis.

E mesmo em relação à democratização dos meios de comunicação…

Os evangélicos não representam qualquer ameaça à grande mídia, não se contrapõem em nada e, ao contrário, até reforçam certos valores que os grupos de comunicação querem difundir. Os governos não têm dado atenção a isso e os grupos evangélicos e tradicionais vão surfando nessa onda, são parceiros, se complementam.

Já falamos de política, já falamos de economia, já falamos de cultura. Falta falar de comportamento. Ao mesmo tempo que avançam as discussões e as políticas públicas de inclusão ligados a gênero, orientação sexual e etc, algumas conquistas podem nem ser alcançadas e outras correm o risco de se perder. Tudo em nome da defesa da tradicional família. Como os evangélicos se relacionam com esse cenário?

Então, é mesmo um jogo. Alguns direitos avançam, outros recrudescem. É uma tensão entre forças mesmo. O que a gente pode dizer é que, a partir de 2010, da campanha presidencial, essas discussões saíram dos círculos mais domésticos e viraram questões políticas de frente. Os evangélicos tiveram grande papel em jogar luzes sobre essas questões, mas não estavam sozinhos. Os católicos se aliaram aos evangélicos e trataram de defender mais claramente alguns valores. Os padres superstar têm um papel importante aqui. A retirada das questões de gênero dos conteúdos escolares foi uma espécie de cruzada da igreja católica. Os evangélicos vieram junto, mas quem puxou foram os católicos. Essa discussão de costumes e transformações, de gênero e de direitos sexuais e reprodutivos, não se restringe aos evangélicos. A deputada que vai tratar das questões de gênero na Câmara dos Deputados, indicada pelo Eduardo Cunha, é da Renovação Carismática católica.

Então, se somarmos o conservadorismo nos valores e costumes a uma composição francamente conservadora do Congresso Nacional – em parte constituída pela bancada da bíblia -, o que podemos esperar é um futuro sombrio?

Em 2014, quando vimos a lista dos eleitos no Congresso e no Senado, de fato o mais conservador desde 1964, já sabíamos que seria assim. Não sabíamos que seria tão rápido. O responsável pela velocidade nas ações é Eduardo Cunha, filho legítimo dos grupos evangélicos. A aceleração das pautas conservadoras e o desarquivamento de pautas conservadoras que já até tinham ficado para trás são obra deste homem, Eduardo Cunha.

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