Pense em se demitir todo ano, diz especialista em felicidade

publicado na Exame

Aos 38 anos de idade, o escritor norte-americano Chris Guillebeau se orgulha de ter visitado todos os 193 países do mundo. A aventura foi a chave para que ele descobrisse sua vocação e encontrasse felicidade na carreira.

Sua volta ao mundo rendeu o livro “The happiness of pursuit” (Harmony, 2014), que entrou para a lista de best-sellers do jornal The New York Times. “Os 11 anos que passei viajando afetaram imensamente a minha visão de mundo e o meu trabalho atual”, diz ele. “Hoje me sinto tão realizado que é como se tivesse ganhado numa espécie de loteria profissional”.

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Mas será que construir uma carreira feliz é uma conquista tão rara quanto ganhar na Mega-Sena? Para o escritor, a comparação é justa, mas com uma ressalva fundamental: ao contrário das apostas, o sucesso profissional não depende de sorte pura.

Guillebeau acredita que é perfeitamente possível construir o seu próprio caminho até o “prêmio” de forma sistemática, a partir da aplicação de certos métodos e filosofias de vida.

Uma das propostas mais ousadas do seu último livro, “Born for this: How to find the work you were meant to do” (Crown Business, 2016), é fazer um pacto radical consigo mesmo — fixar uma data na qual, todo ano, você se demitirá caso não esteja contente com o seu emprego.

Parece arriscado? Para o autor, a busca pela felicidade no trabalho é de fato um processo difícil, longo e tortuoso. O principal, diz ele, é ter coragem para desistir de caminhos que se revelaram errados.

Em entrevista exclusiva a EXAME.com, Guillebeau diz o que pensa sobre rotina, dinheiro e a possibilidade de se realizar profissionalmente mesmo sem ter o seu próprio negócio.

Veja a seguir os principais trechos da conversa:

EXAME.com – Por que há tanta gente infeliz com o trabalho — justo em um momento histórico em que há mais alternativas de carreira do que nunca?

Chris Guillebeau – A insatisfação geral com o trabalho nasce justamente desse enorme leque de opções. Como saber o que é melhor para a minha vida? E se eu deixei passar alternativas que seriam mais interessantes para mim? A variedade de carreiras disponíveis alimenta a dúvida e traz muita angústia para as nossas decisões.

EXAME.com – Essa dúvida vai além da época do vestibular, em que é preciso escolher um curso universitário. Mesmo profissionais maduros se questionam constantemente sobre a sua vocação.

Guillebeau – O problema é que muitas pessoas não controlam as rédeas da própria carreira. Na verdade, não é exatamente culpa delas. Durante toda a infância e a juventude somos levados a tomar decisões apressadas, sem saber muito bem o que estamos escolhendo. Apesar disso, nunca é tarde para parar e refletir: “O que eu realmente desejo? O que é melhor para mim, e não para os outros?”.

EXAME.com – Como saber o que realmente nascemos para fazer?

Guillebeau – O primeiro passo é entender que você não seguirá um trajeto linear. O caminho até descobrir a sua verdadeira vocação costuma ser longo e tortuoso, cheio de reviravoltas. A chave é justamente não ter medo de abandonar uma direção que de repente se revela equivocada. Descobrir o trabalho que você nasceu para fazer é um tipo de busca que nunca acaba. Você terá que perseguir continuamente algo que traz satisfação e, ao mesmo tempo, seja sustentável do ponto de vista financeiro. Todos nós estamos tentando chegar a esse equilíbrio ideal, e nunca ninguém “chega” a ele permanentemente.

EXAME.com – Existe uma definição universal para a felicidade no trabalho?

Guillebeau – O que é universal é que todo mundo busca a felicidade, mas o conceito em si varia muito de pessoa para pessoa, e também de cultura para cultura. É por isso que a palavra “alegria” diz mais do que “felicidade”. É muito importante identificar o que a alegria significa para você, e tomar decisões profissionais com base nesse critério.

EXAME.com – Como se manter alegre na rotina?

Guillebeau – O segredo é nunca se adaptar, nunca se resignar. A maioria de nós acredita no falso dilema entre dinheiro e vida pessoal. O objetivo é buscar contentamento nessas duas frentes. Você não precisa fazer uma escolha e se conformar com ela. Sentir-se desafiado também é essencial. Fazer algo que não exige muito esforço, mas paga bem, dificilmente fará alguém feliz. Afinal, seres humanos gostam de construir algo com significado, algo maior do que eles. Pouco esforço não satisfaz; o que satisfaz é um esforço que vale a pena.

EXAME.com – Em seu último livro, você defende um método curioso para alcançar a felicidade no trabalho: todos os anos, numa data pré-definida, o profissional deve pensar em pedir demissão do seu emprego atual. Como isso pode ser benéfico?

Guillebeau – A ideia é que você você faça um pacto consigo mesmo. Você se compromete a pedir demissão naquela data, todos os anos, a não ser que o seu emprego seja realmente a melhor opção disponível para você. Não se trata de abandonar o trabalho uma vez por ano, mas sim de garantir que você está fazendo a coisa certa. Permanecer é a melhor opção? Se sim, continue na empresa, agora com a confiança reforçada de estar no caminho correto. Se não, vá imediatamente atrás de algo diferente.

EXAME.com – O glamour em torno de startups que se tornaram negócios bilionários, como Google e Facebook, alimenta a crença de que só é realmente feliz quem se “liberta” do chefe e abre o próprio negócio. É assim mesmo?

Guillebeau – Não, a ideia de que a felicidade profissional só existe no empreendedorismo é um grande mito. Imagine um bombeiro, por exemplo. É impossível ser um bombeiro autônomo, certo? Ainda assim, ninguém nega que eles fazem um trabalho digno, valioso, capaz de trazer realização pessoal. É possível ser feliz de muitas formas. A chave está em se conhecer muito bem e saber qual é a melhor situação para você. Aliás, mesmo em um emprego tradicional você pode ter uma atitude empreendedora. Existem funcionários que são seus próprios patrões, isto é, pessoas que trabalham para uma empresa, mas estão continuamente investindo em si mesmas, aprendendo novas habilidades ou até investindo em um negócio próprio paralelo. No fim das contas, todo funcionário está alugando seus talentos para uma empresa. Ninguém nunca vai se importar tanto com a sua carreira quanto você mesmo, e por isso é tão importante nunca deixar de criar oportunidades para si mesmo ao longo da vida.

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