Pesquisa mostra perfil da cultura política de participantes da Marcha para Jesus 2016

O apóstolo Estevam Hernandes, da Igreja Renascer em Cristo, conduz a 24ª edição da Marcha para Jesus. Estevam e sua mulher, Sonia Hernandes, foram presos em 2007 nos Estados Unidos por evasão de divisas. O casal foi condenado e cumpriu dois anos e meio de prisão. foto: Marcello Fim/Frame Photo/Estadão Conteúdo

O apóstolo Estevam Hernandes, da Igreja Renascer em Cristo, conduz a 24ª edição da Marcha para Jesus. Estevam e sua mulher, Sonia Hernandes, foram presos em 2007 nos Estados Unidos por evasão de divisas. O casal foi condenado e cumpriu dois anos e meio de prisão. foto: Marcello Fim/Frame Photo/Estadão Conteúdo

Leandro Ortunes, no Mídia, Religião e Política

No dia 26 de maio de 2016, aconteceu a 24ª edição da Marcha para Jesus em São Paulo. Pela Lei 12.025/2009, que institui o dia Nacional da Marcha para Jesus, o evento deve sempre ocorrer no primeiro sábado, subsequente aos 60 (sessenta) dias após o Domingo de Páscoa. No entanto, esta edição aconteceu em 26 de maio, completando exatamente 60 dias após o domingo de páscoa e coincidiu com a celebração católica Corpus Christi.

O dia que era para ser mais um feriado pacato nas linhas de trem e metrô, teve sua rotina alterada, por milhares de fiéis que, já dentro do transporte público, cantavam os hits atuais do mundo gospel.  De acordo com os organizadores do evento, três milhões de pessoas participaram da marcha. Desta vez a polícia Militar decidiu não fazer a estimativa de participantes. Vale lembrar que, na marcha de 2015, os organizadores estimaram dois milhões de participantes, enquanto a Polícia Militar estimou 340 mil pessoas.

Independentemente do número, esta marcha partiu mais tímida na cobertura midiática em relação aos anos anteriores e não contou com a presença de várias lideranças políticas que participaram em outras edições. Um possível reflexo de um cenário crítico e de uma imagem desgastada da política brasileira em relação aos fiéis. Contudo, este é o cenário ideal para buscar compreender o grau de engajamento político dos fiéis e de perceber seu posicionamento em algumas pautas, por muitas vezes polêmicas, que tramitam ou tramitaram no congresso.

Por este motivo, o Grupo de Pesquisa Mídia, Religião e Cultura (MIRE), do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, da Universidade Metodista de São Paulo, promoveu uma pesquisa com o tema “Evangélicos: Política e pensamento conservador”, coordenada pelo pesquisador do grupo Prof. Leandro Ortunes (PUC-SP), com apoio de um grupo 26 estudantes.

527 entrevistados participaram da pesquisa, realizada por meio de questionário com perguntas fechadas. As primeiras impressões foram a heterogeneidade do grupo e o ceticismo em relação à política. Embora a Igreja Renascer em Cristo fosse a grande articuladora do evento, a maioria dos presentes (48%) pertenciam a denominações independentes. Nas questões sobre política, a maior parte (62,7%) afirmou não ter preferência de linha política (esquerda, centro ou direita) e 16,4% não souberam diferenciar ou responder tal questão. Sobre os partidos políticos, 81,6 % afirmaram não possuir preferência partidária. Em segundo lugar, com 7,6% foi citado o PT, e em seguida o PSDB, com 4,9%. Diante disso, percebemos que há uma apatia dos entrevistados em relação as ideologias políticas e as organizações partidárias. Os entrevistadores também relataram o tom de desconfiança e desprezo dos entrevistados diante destas questões. No entanto, esse tom se alterava quando se tocava em pautas morais e de representatividade.

Destaca-se que, segundo os entrevistados, o Pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia é o líder com maior índice de representatividade entre os evangélicos, alcançando 58,6%, quando somados os que afirmaram se sentirem representados ou muito representados pelo posicionamento do pastor na mídia. Na representatividade política, novamente destaca-se um líder evangélico, o Deputado Federal Pastor Marco Feliciano (PSC-SP, Assembleia de Deus) alcançou 40,8%, quando somados os que afirmaram se sentirem representados ou muito representados pelo deputado. Por outro lado, destaca-se o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), que alcançou o maior índice de rejeição entre os líderes políticos, com 42,5% de entrevistados, que afirmaram que o deputado não os representam em nenhum sentido.

Somente neste comparativo, entre estrutura política e a representatividade, percebemos que o público entrevistado está muito mais voltado à figura do líder do que a uma ideologia política ou partido. Fato que nos remete aos três tipos dominação legítima, de acordo com Max Weber. É evidente que a participação política, dos evangélicos entrevistados, é influenciada pelo poder carismático e midiático de alguns líderes religiosos, isso independente da linha partidária ou política dos deles. No entanto, não podemos afirmar que toda agenda destes líderes é absorvida de forma homogênea pelos fieis, pois como pode ser observado nesta pesquisa, algumas pautas como a questão do aborto e do casamento homoafetivo sofreram um pequeno descompasso entre a posição da liderança e o posicionamento dos fiéis.

Veja neste link os slides com os dados coletados.

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