‘Italo foi um pequeno furacão que parecia pedir ajuda’, diz psicóloga

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Depoimento a Cláudia Collucci, na Folha de S.Paulo

A psicóloga Maria Cristina de Ciccio, 59, conheceu o menino Ítalo, 10, em 2014, quando foi levado a um abrigo no litoral paulista.

Aos oito anos, tinha marcas de cigarro pelo corpo e havia sido deixado sozinho em casa. Empinava pipas e pedia comida na vizinhança. Comovidos, os moradores chamaram o conselho tutelar.

O menino morreu na noite da última quinta (2) após confronto com policiais militares. Ele estava em um carro roubado, com outro menor de idade.

A seguir, trechos do seu depoimento da psicóloga que o atendeu em 2014.

*

Conheci o Ítalo no fim do ano de 2014, quando ele foi trazido para acolhimento no abrigo em que atuo como psicóloga no litoral paulista.

Segundo apuramos, ele havia chegado há pouco tempo na cidade com sua mãe e o companheiro dela e estava sozinho em casa.

Sua mãe havia entrado em trabalho de parto e teria sido levada pelo Samu ao hospital. O seu “padrasto” havia desaparecido.

Ele ficava na rua empinando pipa e pedindo comida. Isso causou comoção aos vizinhos, que acionaram o conselho tutelar.

Chegou ao abrigo um pouco arredio, fazendo cara de ‘perigoso’, numa postura de defesa. Tinha marcas de queimadura de cigarro nas pernas e algumas no braço, pareciam marcas antigas. Ele dizia que era uma doença.

Logo de pronto, já começou a interagir com as outras crianças da idade dele que, na época, eram poucas.

Quando cheguei para falar com ele, estava agachado no chão. Sentei ao lado dele e fui puxar conversa. Ele, com a cabeça baixa, disse: ‘não falo com estranhos’.

De pronto, pedi desculpas e me apresentei: ‘prazer, meu nome é Cris, não somos mais estranhos”. Ele apertou a minha mão e disse: ‘agora sim”.

Era um menino que claramente mostrava sua carência e nos testava o tempo todo. Se o tratassem bem, ele era amável, se fossem mais ríspido com ele, ele devolvia. Mas o carinho sempre imperava.

Era também muito engraçado, ensinava os outros a dançar (e dançava bem) e a fazer pipa. Orgulhava-se disso, sendo procurado o tempo todo para isso.

Eu tinha certeza de que, por trás daquela criança, havia inúmeras histórias. Seu linguajar e sua esperteza não eram próprios de uma criança de oito anos (na época), mas mexer nelas também seria invadir um mundo que ele parecia querer deixar quieto naquele momento.

Por meio de uma busca ativa, soubemos que ele esteve abrigado em outra casa de acolhimento em São Paulo. Morou com uma tia e com sua avó e fazia tratamento de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade).

Como sua família mora em São Paulo, tivemos que mandá-lo para a capital, pois a criança deve ser acolhida na cidade que se encontra os familiares para que se possa trabalhar o vínculo familiar.

Ítalo ficou conosco em torno de três meses. Foi um pequeno furacão que passou entre nós, mas um furacão que parecia pedir ajuda o tempo todo.

Hoje fico me perguntando em que momento a sociedade perdeu a mão? Que crianças estamos deixando para o mundo? As filhas do funk? Os filhos do crack? Os filhos da carência? Crianças que pedem ajuda e as instituições não ouvem?

Ítalo era só uma criança de dez anos que carregava com ele o que chamo de “bichinho da sobrevivência”, de uma sociedade que achamos que conhecemos, mas nem de longe vivenciamos.

Sei que a história dele vai se repetir e que a impotência diante disso inquieta o coração. Lá se vai mais um guri!

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