Carta ao meu estuprador

Vítima de violência nos EUA relata noite do crime e sofrimento que vive desde então

Brock Allen Turner, o estuprador (foto: AP)

Brock Allen Turner, o estuprador (foto: AP)

Publicado em O Globo

Em janeiro de 2015, uma jovem de 23 anos foi estuprada no campus da Universidade Stanford, uma das instituições de ensino superior mais prestigiadas do mundo, na Califórnia, nos Estados Unidos. Ela foi violentada atrás de uma lixeira enquanto estava inconsciente.

Seu agressor, o estudante Brock Allen Turner, hoje com 20 anos, foi pego em flagrante. Nadador, o americano tinha bolsa de atleta, mas foi expulso da universidade. Em janeiro deste ano, Brock foi declarado culpado e, no último dia 31 de maio, recebeu uma sentença leve: ele ficará seis meses numa cadeia local e outros três meses em liberdade condicional.

O juiz que proferiu a sentença disse que temeu o impacto de uma pena mais severa em Turner. Seu pai, durante o julgamento, afirmou no tribunal que seu filho não poderia ser preso por causa de um “ato de 20 minutos”.

No mesmo 31 de maio, a vítima, que não foi identificada para proteger sua privacidade, leu no tribunal uma longa carta endereçada a seu estuprador. No texto, ela relata a noite do crime e tudo o que passou ao longo de mais de um ano transcorrido. A jovem descreve uma espiral de sofrimento intenso que vive desde que descobriu ter sido violentada. O GLOBO traduziu a carta na íntegra.

——

“Meritíssimo,

Se estiver tudo bem, pela maior parte desse depoimento eu gostaria de me dirigir diretamente ao réu.

Você não me conhece, mas você esteve dentro de mim, e é por isto que estamos aqui hoje.

Em 17 de janeiro de 2015, era uma noite de sábado tranquila em casa. Meu pai fez um jantar e eu me sentei à mesa com minha irmã mais nova que estava nos visitando naquele fim de semana. Eu estava trabalhando em expediente integral, e estava se aproximando a hora de dormir. Eu planejava ficar em casa sozinha, ver TV e ler, enquanto ela iria a uma festa com amigos. Então, eu decidi que era minha única noite com ela, eu não tinha nada melhor a fazer, então por que não?, tem uma festa idiota a dez minutos da minha casa, eu iria, dançaria de forma ridícula, e faria minha irmã mais nova passar vexame. No caminho até lá, eu brinquei dizendo que meninos que ainda não se formaram usam aparelhos. Minha irmã implicou comigo por usar um cardigan bege numa festa de fraternidade, como uma bibliotecária. Eu me chamei de “mamãe”, porque sabia que seria a pessoa mais velha. Fiz caretas, baixei a guarda, e bebi licor rápido demais, sem me dar conta de que minha tolerância caiu bastante desde que saí da faculdade.

A próxima coisa da qual me lembro é estar numa maca num corredor. Eu tinha sangue seco e esparadrapos nas costas das mãos e cotovelo. Eu pensei que talvez tivesse caído e estivesse num escritório administrativo do campus. Estava muito calma e pensando onde estaria minha irmã. Um policial explicou que eu havia sido assaltada. Eu continuei calma, achando que ele estava falando com a pessoa errada. Eu não conhecia ninguém naquela festa. Quando finalmente pude usar o banheiro, puxei as calças que o hospital me deu, tentei puxar minha calcinha, e não senti nada. Ainda me lembro do sentimento de minhas mãos tocando minha pele sem agarrar nada. Olhei para baixo e não tinha nada. A peça fina de tecido, a única coisa entre minha vagina e qualquer outra coisa, estava faltando e tudo dentro de mim ficou em silêncio. Eu ainda não tenho palavras para aquele sentimento. Para continuar respirando, pensei que o policial poderia ter usado uma tesoura para cortar (a calcinha) como evidênca. Meu cérebro estava tentando convencer meu estômago a não entrar em colapso. Porque meu estômago estava dizendo, me ajude, me ajude.

Eu fui de quarto em quarto com um cobertor enrolado em mim, uma trilha de agulhas de pinheiro atrás de mim, deixei uma pequena pilha em cada quarto aonde me sentei. Pediram para eu assinar documentos que diziam “vítima de estupro” e eu pensei que algo realmente tinha acontecido. Minhas roupas foram confiscadas e eu fiquei de pé enquanto as enfermeiras usavam uma régua em várias escoriações no meu corpo e tiravam fotos delas. Nós três nos juntamos para tirar as agulhas de pinheiro do meu cabelo, seis mãos para encher um saco de papel. Para me acalmar, elas disseram que era apenas flora e fauna, flora e fauna. Eu tinha muitos algodões inseridos na minha vagina e ânus, agulhas para injeções, pílulas, tinha uma nikon apontada diretamente para minhas pernas abertas. Minha vagina estava manchada com uma tinta azul e fria para verificar escoriações.

Depois de algumas horas disso, eles me deixaram tomar banho. Eu fiquei lá examinhando meu corpo debaixo do jato d’água e decidi, eu não quero mais meu corpo. Eu estava horrorizada com ele, eu não sabia o que tinha entrado nele, se estava contaminado, quem havia tocado nele. Eu queria tirar meu corpo como se fosse uma jaqueta e deixá-lo no hospital com todo o resto.

Naquela manhã, só me disseram que eu fui encontrada atrás de uma lixeira, potencialmente penetrada por um estranho, e que eu devia me testar de novo para HIV porque os resultados nem sempre se mostram imediatamente. Mas por agora eu deveria ir para casa e voltar para a minha vida normal. Imagine voltar ao mundo com apenas aquela informação. Eles me deram grandes abraços, então eu andei do hospital para o estacionamento usando as novas camisa e calça que eles me deram, já que só me deixaram ficar com o meu colar e os meus sapatos.

Minha irmã me buscou, com o rosto coberto de lágrimas e contorcido em angústia. Instintiva e imediatamente, eu queria tirar a dor dela. Eu sorri para ela, disse para olhar para mim, eu estou aqui, estou ok, está tudo ok, eu estou aqui. Meu cabelo está lavado e limpo, eles me deram um xampu estranho, acalme-se, e olha pra mim. Olha essas calças engraçadas e a camisa, eu me pareço com uma professora de educação física, vamos para casa, vamos comer alguma coisa. Ela não sabia que por debaixo das minhas roupas, eu tinha escoriações e curativos na minha pele, minha vagina estava doendo e tinha se tornado uma estranha, escura por causa da fricção, minha calcinha tinha sumido, e eu me sentia vazia demais para continuar falando. Que eu estava também com medo, que eu estava também devastada. Naquele dia nós dirigimos para casa e por horas minha irmã me segurou.

Meu namorado não sabia o que tinha acontecido, mas ligou naquele dia e disse, “eu fiquei muito preocupado com você ontem à noite, você me assustou, você voltou para casa bem?” Eu fiquei aterrorizada. Foi quando eu soube que eu liguei para ele na noite do meu apagão, deixei uma mensagem de voz incompreensível, que a gente também se falou ao telefone, mas eu estava xingando tanto que ele ficou com medo de mim, que ele repetidamente me disse para encontrar minha irmã. De novo, ele me perguntou, “O que aconteceu ontem à noite? Você voltou para casa bem?” Eu disse que sim, e desliguei para chorar.

Eu não estava pronta para contar a meu namorado ou meus pais que na verdade, eu posso ter sido estuprada atrás de uma lixeira, mas que eu não sabia por quem ou quando ou como. Se eu contasse, eu veria o medo nos rostos deles, e o meu multiplicaria em dez vezes, então em vez disso eu fingi que tudo aquilo não era real.

Eu tentei tirar aquilo da minha vida, mas era tão pesado que eu não falei, não comi, não dormi, não interagi com ninguém. Depois do trabalho, eu dirigia para um lugar escondido para gritar. Não falei, não comi, não interagi com ninguém, e me isolei daqueles que mais amo. Por uma semana depois do incidente, não recebi telefonemas ou atualizações sobre aquela noite ou o que aconteceu comigo. O único símbolo provando que aquilo não foi um pesadelo era a camisa do hospital no meu armário.

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