O que os atentados de Orlando revelam sobre o Brasil

As reações ao ataque, que deixou 49 mortos numa boate gay americana,expõem a face homofóbica da nossa sociedade.

Homem reza em memorial montado em frente ao Dr. Phillips Center for the Performing Arts, em homenagem às vítimas do atentado que deixou 49 mortos na boate Pulse, em Orlando, Flórida (foto: Joe Raedle/Getty Images)

Homem reza em memorial montado em frente ao Dr. Phillips Center for the Performing Arts, em homenagem às vítimas do atentado que deixou 49 mortos na boate Pulse, em Orlando, Flórida (foto: Joe Raedle/Getty Images)

FLÁVIA YURI OSHIMA e CRISTINA TARDÁGUILA, na Época

Quem nunca entrou no site Sensacionalista perdeu boas oportunidades de rir. Criado nos moldes de uma página de notícias, o site faz paródias de notícias e fatos reais. Vez ou outra, raramente, a piada que contam é a pura verdade. Isso ocorre quando a realidade ultrapassa qualquer senso de ridículo. Esse foi o caso da notícia que eles divulgaram na segunda-feira, dia 13, depois dos atentados que deixaram 49 vítimas fatais na boate gay, Pulse, em Orlando, nos Estados Unidos, no final de semana. Nada, absolutamente nada, do que eles disseram era mentira. Na verdade, eles não disseram quase nada. Simplesmente enumeraram várias mensagens, colocadas em redes sociais, sobre os atentados de Orlando.

A primeira mensagem era do deputado Marco Feliciano. Ele lamentava o fato de os LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) estarem se aproveitando de uma tragédia para se promover. As demais traziam outros tipos de lamento: a ocorrência de apenas 49 pessoas, o fato de o atirador ter sido morto ao invés de ganhar uma medalha….não era uma piada e não era para rir. O registro era importante porque foi sensacionalmente absurdo – mais absurdo do que qualquer piada sensacionalista. Mostrou algo a que nos acostumamos e a que não deveríamos ter nos acostumado. Mostrou o preconceito agudo que ofusca a noção de humanidade, a ponto de banalizar 49 mortes de pessoas inocentes e indefesas.

Alguns dados sugerem que o preconceito contra o que ocorreu em Orlando não está apenas nas mensagens que aparecem na internet. O preconceito aparece, sobretudo, nas palavras que não estão na rede. A Agência Lupa e a Fundação Getúlio Vargas varreram as redes e analisaram os dados que circularam logo após os atentados de Paris, em novembro do ano passado, e desta semana, depois de Orlando. A conclusão é que Paris causou uma comoção bem maior do que Orlando.

O volume total de hashtags e tuítes surgidos nas 24 horas posteriores aos dois atentados mostrou que o massacre de Paris teve 13 milhões de menções, 51% a mais do que as 6,33 milhões registradas nas primeiras 24 horas pós-terror em Orlando. Quando observada apenas a principal hashtag de cada atentado, a diferença entre os dois casos fica ainda mais surpreendente. O #PrayForParis teve 7,46 milhões de menções no Twitter. O #Orlando, apenas 2,1 milhões – 71,8% a menos.

Não é possível cravar que a razão de os atentados de Orlando terem mobilizado muito menos gente seja por causa de homofobia, mas a diferença de mais de 70% de menções é absolutamente incomum para um episódio da grandeza do que ocorreu na boate Pulse.

Em entrevista a ÉPOCA, o deputado Jean Wyllys, homossexual e ativista da causa LGBT, contou que procurou a Polícia Federal por causa das agressões virtuais que sofreu, pelas redes sociais, depois dos atentados de Orlando. “O preconceito contra gays e transexuais foi a motivação por trás de 344 mortes no ano passado. Esse é um assunto seriíssimo que é banalizado”, disse ele. Essas mortes, segundo o observatório Homofobia Mata, não incluem o número de gays, bissexuais e transexuais mortos durante assaltos, chacinas ou tiroteios entre gangues. Referem-se apenas aos crimes em que a polícia não encontrou nenhum motivo para o ocorrido.

O potencial de esses números estarem subnotificados é grande. Uma das lutas dos grupos de ativistas LGBT é contra a “desclassificação de crimes de natureza homofóbica”. O que isso quer dizer? Significa que, em muitos casos, mesmo em face a uma série de evidências, a polícia se recusa a contabilizar a morte como um crime homofóbico, dizem esses ativistas. Eles reivindicam que esses crimes sejam classificados como homofóbicos.

No Reino Unido, em que os direitos de atendimento especializado a crimes de preconceito de qualquer espécie, inclusive homofóbico, é reconhecido,qualquer tipo violência contra gays é registrado (mesmo que não acabe em morte). Isso não ocorre no Brasil. Os números britânicos não só são alarmantes como cresceram em relação aos anos anteriores. O último dado disponível (2014 e 2015) mostra que houve, naquele período, 5.587 crimes de raiva (como são chamados) contra gays e lésbicas, um número 22% superior ao levantamento anterior. Nos Estados Unidos, um em cada cinco homossexuais foi vítima de algum tipo de ataque homofóbico nos últimos três anos, embora somente um em cada quatro tenha reportado a violência para a polícia. Os dados são da ONG Stonewall, que monitora os crimes homofóbicos.

Os países da Europa Ocidental e os Estados Unidos têm políticas mais consistentes de prevenção de crimes homofóbicos. O número superior de registros é uma prova disso. Por lá, os homossexuais têm menos receio de reivindicar seus direitos e pedir ajuda à polícia. Ainda assim, o tratamento não chega a ser igual ao que um cidadão heterossexual receberia em situações idênticas. Os observatórios de Direitos Humanos mostram que, em todos esses países, os crimes de preconceito contra homossexuais, negros e mulheres persistem subnotificados, principalmente, na parcela mais pobre da população.

Os números dos Estados Unidos, que mantêm uma das maiores bases de dados sobre a vida de homossexuais, mostram o reflexo da discriminação na saúde e na qualidade de vida desse grupo. Ainda na pré-adolescência, a incidência de jovens que se machucam de forma voluntária chega a quatro para cada dez entre os homossexuais. Na população em geral, a relação é de um para 15. Uma das razões para isso é que, nesse período, muitos jovens têm de fazer o movimento de se assumir ou, o contrário, de se esconder, no caso dos que vivem em grupos que não aceitam a homossexualidade. Uma em cada cinco mulheres lésbicas desenvolvem alguma desordem alimentar, em comparação a uma em 20 na população em geral. A incidência de depressão entre homossexuais chega a ser três vezes maior e as tentativas de suicídio ocorrem em dobro entre eles, comparada à média populacional.

Apesar de o homossexualismo existir desde que o mundo é mundo, até há pouco tempo ele ainda era oficialmente encarado como distúrbio. Até 1990, o homossexualismo ainda figurava na lista de doenças da Organização Mundial de Saúde. No Brasil, o conselho de psicologia retirou a indicação de tratamento para homossexualismo, como um desvio de comportamento, somente em 1999. Hoje, o homossexualismo ainda é considerado crime em 37 países. Os cientistas sociais dizem que essa é uma das explicações para a alta intolerância  em relação aos LGBT. Mudanças sociais profundas demoram muitas décadas para ser consolidadas. Episódios como o atentado à boate Pulse são um chamado à reflexão. O atraso que tivemos, como sociedade, em reconhecer os homossexuais não pode justificar o atraso no respeito aos direitos humanos.

Gráfico sobre a reação dos brasileiros em relação ao ataque em Orlando (foto: Época )

Gráfico sobre a reação dos brasileiros em relação ao ataque em Orlando (foto: Época )

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