Gamefield self – aprendendo com os jogos a me motivar para o dia a dia

publicado no Obvious

Quais os vilões, power-ups e aliados na sua vida?
Video-games são incrivelmente úteis em nos motivar a jogar; investimos horas, com atenção focada cumprindo objetivos dificílimos, errando, tentando de novo e de novo, até enfim conquistar o objetivo, zerar, matar o chefão. Temos muito a aprender com os jogos em termos de motivação.
Um ramo surgiu, chamado “Gamification”, o ato de usar técnicas de jogos em ambientes de “não-jogos”. Pontos, trofeus e quadros de liderança são os exemplos clássicos. Se você já recebeu um cartão num restaurante onde depois de 10 adesivos (um por cada refeição) você ganha uma grátis, parabéns, você foi vitima da gamificação. Não que isso seja um problema ou errado de qualquer forma, é simplesmente uma forma de te estimular a ser um cliente mais fiel. Te dá um objetivo claro (conseguir a refeição grátis – o prêmio), a forma de alcançá-lo (10 adesivos) e os trofeus, além de um feedback instantâneo (cada adesivo ou carimbo é visualmente compensador).
Uma forma de se estimular a superar obstáculos e melhorar em algo é agir como se fosse um jogo. Um método pra trazer alguns dos benefícios e elementos dos jogos pra outros ambientes da sua vida, e com isso agir com seu objetivo pessoal ou profissional com a mesma vontade que tem para um candy crush. Eis aqui 4 etapas que você pode usar no seu dia-a-dia, que vão te ajudar a alcançar qualquer objetivo.

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1. Qual o Objetivo?
Pra começar, defina o seu objetivo de forma clara. Pode ser que você tenha muitos objetivos, ou poucos, ou pode ser que queira escolher um menor apenas pra testar os passos aqui descritos. De qualquer forma é importante ter esse objetivo final bem claro, idealmente em uma frase. Por mais simples que pareça, há casos em que esse primeiro passo é mais trabalhoso. Siga confiante. Escreva sobre o objetivo, quantos parágrafos for necessário, porque quer alcançá-lo, como vai saber quando isso aconteceu, o que te estimula, e desenvolva bem cada parte. No final você deve estar com uma meta clara e precisa. Existem objetivos que podem ser quebrados em alguns menores. Por exemplo, ter um livro como best-seller talvez possa começar com apenas “escrever um livro”. Comece da forma que achar confortável. Uma boa meta é difícil o suficiente pra te estimular e por pressão, mas não tanto a ponto de te fazer pensar em desistir. As vezes achar esse ponto ótimo é uma arte em si, mas, como tudo, a prática leva a perfeição.

2. Power-Ups
Power-ups são os elementos nos jogos que dão ao seu personagem uma energia a mais, a estrelinha do Mário, um boost na energia, força, agilidade, o que for. Faça uma lista de tudo que te inspira, que te joga pra cima, que te estimula a produzir mais.

No começo, pode ser uma lista mais geral, como ouvir música, sair com amigos, jogar 10 minutos de um jogo, assistir vídeos engraçados no youtube, ler o capítulo de um bom livro, ir na academia, correr 4 Km, tomar um bom banho, cozinhar, comer chocolate, reler uma carta de amor antiga, brincar com o cachorro, etc. A lista é grande, e a primeira é pra ser brainstorm mesmo. É hora de deixar a mente correr solta e escrever mesmo as ideias mais esquisitas.

Depois iremos focar mais. É interessante que cada item esteja numa unidade fechada, que não seja algo infinito. Por exemplo, “ver vídeos no youtube” pode durar horas, já “ver 5 minutos de vídeos no Youtube” é mais específico. E isso é uma unidade. De forma prática, ter as coisas listadas como unidades tonra tudo incrivelmente simples e funcional. Em certos momentos posso querer consumir 3 unidades seguidas. “Comer chocolate” ou “tomar sorvete” podem virar “comer um quarto de chocolate”, “tomar uma bola de sorvete na minha xícara favorita”. Quanto mais específico melhor.

O nível seguinte de profundidade é pensar nos power-ups específicos pra atividade em foco. Se quiser pode fazer uma lista mais geral, mas se tiver um objetivo especial em mente, essa segunda etapa é um aperfeiçoamento interessante. Ouvir 10 minutos de Rock pesado pode ser um ótimo power-up pra malhar na academia, mas péssimo pra estudar cálculo III. Alguns podem ser gerais. As vezes “meditar por 5 minutos” vale pra qualquer coisa, nesse caso ele é um power-up coringa.

É possível que você tenha dúvidas de alguns, e outros surjam ao longo do tempo. É assim mesmo. Esteja atento, especialmente no começo, pra quão eficaz é cada power-up pra essa atividade. Alguns podem funcionar mais antes, outros depois. Por exemplo, ver 3 minutos de vídeos de capoeira me inspira antes de uma aula, mas depois acaba me deixando ansioso pra próxima e não é tão bom. Você pode descobrir que algumas coisas não funcionam como esperado. Talvez tentar meditar antes de estudar só te atrapalhe mais. A experiência manda. Corrija e ajuste. Dedique uma atenção especial na primeira semana calibrando seus power-ups, descobrindo o que funciona melhor, quando e como. E separe um tempo pra experimentar coisas novas. Converse com amigos e veja o que funciona pra eles. É como se fosse o tutorial de um jogo, uma fase na qual você experimenta as armas, testa o personagem, o que pode fazer e etc. As vezes quando temos um objetivo ficamos ansiosos pra começar logo, mas cada minuto a mais gasto no planejamento pode significar muitas horas ganhas (ou não desperdiçadas) mais pra frente.

No final você terá uma lista de diversas pequenas ações (unidades) que te estimulam e ajudam a superar cada obstáculo – seus Power-ups pessoais.

3. Vilões
Todo herói tem o seu vilão, todo bom jogo conta com uma série de obstáculos, dificuldades e armadilhas que não só tornam o jogo interessante, como te estimulam a melhorar. Um jogo sem desafios não tem graça. A nossa capacidade de curtir a dificuldade de um jogo, tentar, falhar, tentar de novo, falhar de outra forma, e assim até conseguir, e gostar do processo, não devia ser compartimentalizada. Não desligue essa parte de você junto com o vídeo-game, traga de alguma forma essa mentalidade pros desafios da vida digital para a analógica (pra mim, tudo que não é digital deve ser analógico).

Faça agora uma lista de tudo que te atrapalha, de todo obstáculo entre você e seu objetivo. Podem ser coisas concretas como “o preço do aluguel do estúdio” no objetivo de gravar meu CD ou “minha preguiça ao acordar”, “procrastinação” e outros mais abstratos. Uma mesma coisa pode ser um vilão e um power-up em momentos diferentes. Por exemplo, morar com amigo e ter sempre gente em casa pode ser um power-up quando preciso de alguém pra compartilhar algo, mas pode ser um vilão quando preciso de um tempo sem ser incomodado.

Idealmente a lista de vilões será acompanhada por uma solução ou mitigação, mas em alguns casos não, e apenas ter eles listados já é um grande adianto.

Ex: No objetivo de escrever um livro um vilão é “a música alta do vizinho de baixo”. Uma solução é algo que resolve o problema, que pode ser “escrever em outro horário”, “Escrever em outro local”. Mitigar é diminuir o impacto negativo, nesse caso “um fone que anula o barulho externo”, ou “fechar a porta e ligar o ar”, etc. Mitigar não resolve, apenas minimiza. Posso evitar um problema, contorná-lo, resolvê-lo, mudá-lo de lugar, ou de horário, mitigá-lo, ressignificá-lo, e tantas outras opções. Gaste um tempo escrevendo a sua lista de vilões, e depois pense um a um opções de solução, mitigação, de qual ou quais as formas inteligentes e criativas posso lidar com cada um. Alguns podem não ter nenhuma, outros terão varias. Como tudo, essa lista vai acabar evoluindo, sendo adaptada e atualizada conforme você vai avançando. Começamos com uma versão 1.0, e seguimos fazendo atualizações conforme a necessidade. Nada é absolutamente definitivo.

4. Aliados
Os aliados são parecidos com os power-ups e têm até uma mesma função as vezes. O Batman conta não apenas com o Robin, mas com o Alfred, o comissário Gordon, uma série de pessoas para momentos e funções específicas.
Um aliado pode ser mais forte que um power-up na medida que ele lida mais diretamente com o objetivo. Por exemplo, se quero perder 15 Kg, um power-up pode ser a água de côco que tomo depois de correr. Ou o tênis novo que comprei e fico feliz de usar. Já um aliado pode ser um amigo que corre comigo todo dia, alguém que me estimula, ou um personal trainer. Não precisa ser uma pessoa, talvez um livro sobre o assunto ao qual recorro possa ser meu aliado. Mas em geral é uma fonte de apoio, algo ou alguém que me ajuda, me corrige e com quem posso contar. É um empurrão, um conhecimento, uma fonte de informação e/ou de cobrança também.

Faça sua lista de aliados. Considere também o que fazer pra conquistar novos aliados. É uma excelente oportunidade de aprofundar uma amizade, ser convidado pra acompanhar o progresso de um amigo. Pense em quem está na mesma situação, ou já passou por ela, ou pode te ajudar de alguma forma. A verdade é que todos gostam de ajudar, e costumamos ser muito mais reservados e pecar pela falta, com vergonha de pedir ajuda e de se expor. É disso que as relações são feitas, experimente, você pode se surpreender com o quanto consegue. Um canal no youtube, blog do assunto ou um fórum online podem ser excelentes aliados.

Um dos aliados mais fortes é uma punição. Simplesmente porque nos esforçamos mais pra evitar a dor do que pra buscar o prazer. Apostar com um amigo, ou grupo de amigos, fazer um comunicado público do seu objetivo (um bom uso pro facebook) e o que acontece se não alcançá-lo. Existem sites que fornecem esse serviço, você se compromete a doar uma quantia (100 reais por exemplo) a uma instituição que deteste (um político que odeie funciona bem) caso não cumpra sua meta. Versões menos extremas incluem pedir que um amigo divulgue uma foto vergonhosa sua caso não cumpra a meta, ou talvez apenas a “humilhação” que vem do deboche dos colegas já seja suficiente. Simplesmente temos uma aversão a perda, então o esquema de criar uma punição funciona – usemos a nosso favor. Pense em qual seria a mais útil pro seu caso e use-a como um poderoso aliado.

Com sua lista de Power-ups, Vilões e Aliados você esta muito mais preparado pra conquistar seu objetivo. A ideia é fazer algo divertido mas também sério e realmente útil. Usar as melhores práticas e sucessos de outras áreas, migrar conhecimentos e métodos pra onde estamos necessitando. Se você está adiando algo esses pequenos passos podem ser feitos em 20 minutos numa primeira vez. Só listar os power-ups, vilões e aliados já traz à consciência, nos faz pensar e perceber o quanto estávamos esquecendo, deixando de lado ou sub-valorizando.

A procrastinação é um vilão clássico de todo mundo, e é impressionante o quanto um exercício simples como esse pode te motivar.

Um pequeno mergulho, essas 4 etapas acabam sendo uma reflexão guiada, na qual você simplesmente organiza conhecimentos que sempre teve, mas numa ordem talvez nova. Sempre gostei de ler, mas não tinha atinado ao fato que depois de 5 minutos eu entro num estado muito propício pra certas atividades. Que depois do banho eu sou mais produtivo ou que uma pausa de alguns minutos pra cozinhar me faz bem quando me sinto pouco criativo. Já eram atividades que faria de qualquer forma, mas agora posso gerir meu dia conscientemente, colocar isso antes ou depois daquilo pois sei que assim rendo mais, fico mais produtivo. Encontro amigos sem culpa ou ouço um podcast sabendo como cada atividade me afeta. Tudo que consumo – comidas, bebidas, drogas, informações (livros, vídeos, músicas) – me afeta, e é mais inteligente entender como, e controlar um pouco isso. É impressionante como um alongamento, a música certa, me forçar a cantar junto mesmo quando não estou tão no clima, quão pouco é preciso pra mudar drasticamente meu estado de espírito. E no estado correto tudo flui melhor.

Nos cercamos de proteções e estimulantes que nos ajudam em momentos de fraqueza. Sei que vai ser difícil acordar de manhã, então tenho um dispositivo que torna o ambiente inóspito ao sono – o despertador é um aliado ao objetivo “acordar cedo”. Um banho gelado é um power-up. E o são pra tantas pessoas pois funcionam há décadas. Esses são mais gerais, mas criar os seus além de ser uma momento bem interessante de reflexão e auto-conhecimento, vai te ajudar e muito a criar um ambiente propício, evitar seus pontos de falha e recompensar cada pequeno (e grande) sucesso. Ser mais proativo, tomar as rédeas da situação e seguir em frente com vontade é um a mais muito bem vindo.

Uma quinta e última etapa possível é a lista de bônus. Prêmios que você vai se dar ao conquistar certos marcos no caminho para o seu objetivo. Deixo como opcional, pois é menos importante que as outras, e com mais espaços pra erros. Deve-se definir os marcos cedo e de forma não dúbia, fácil de medir. Algo que seja factível mas claramente uma comemoração daquela conquista intermediária. Assim você tem uma lista de recompensas que vai se dar a cada etapa de sucesso. Ela é mais delicada pois pede que você quebre seu objetivo em algumas metas intermediárias, e o pulo do gato é saber como medir cada sucesso. Se você quer emagrecer é fácil, o indicador já é numérico, mas alguns casos pedem um pouco mais de criatividade. Se você tem disciplina pode fazer essa etapa sozinho, senão talvez seja melhor criar um aliado específico, responsável por ser o juiz e só te permitir a recompensa quando conquistar o marco definido (e quem sabe o fiscal também, que garante que não hajam “cheats”). Deixo essa lista como um bônus, um extra pra quem quiser testar.

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