A sociedade está obcecada com coisas fofas. Entenda o porquê

publicado na Veja

De comentários elogiosos e reconfortantes para os amigos no Facebook às roupas um tanto quanto infantilizadas que muitos adultos usam; do sucesso dos vídeos de gatinhos e cãezinhos no Youtube aos personagens de desenhos animados que encantam não apenas as crianças, como os Minions; dos emoticons às selfies apaixonadas — nossa sociedade está obcecada com coisas fofas.

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Uma reportagem do jornalista americano Neil Steinberg mostra que a explosão da fofura é um fenômeno recente. E em nenhum outro lugar do mundo ele é tão forte quanto no Japão, motivo pelo qual Steinberg decidiu visitar o país para entender porque as pessoas gastam tanto com produtos fofos e o que isso revela sobre a sociedade contemporânea.
O parâmetro universal de fofura, evidentemente, são os bebês — humanos e animais. A psicologia evolutiva considera que o visual fofo dos bebês — bochechas gordinhas, olhos grandes, testa alta, nariz e maxilar pequenos e membros curtos e grossos — servem como proteção, pois despertam a afeição dos adultos e o impulso de cuidar dos pequenos. Muitos dos personagens ou mascotes fofos seguem esse padrão visual.

Steinberg concentrou sua reportagem no fenômeno dos yuru-kyara, ou mascotes japoneses, personagens fictícios criados para promover de cidades a presídios.

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No Japão existe até um concurso de mascotes. O mais recente contou com a participação de 1.727 mascotes e 77.000 espectadores. Um dos que fazem muito sucesso é o Kumamon, um ursinho estilizado que representa a cidade de Kumamoto. Quando houve um terremoto na região, em abril deste ano, a conta no Twitter de Kumamon, que é alimentada pelo governo local, parou de ser atualizada. Os fãs, não só japoneses mas de diversos países do leste asiático, se desesperaram. Milhares de mensagens se espalharam pela rede, perguntando o que teria acontecido com o mascote, pedindo que se rezasse por ele e imaginando que ele estaria fazendo parte dos esforços de resgate. Lembrando: Kumamon é um desenho, um personagem fictício criado primeiro no papel e que hoje estampa mais de 100.000 produtos licenciados diferentes.

Segundo estudos feitos com aparelhos de ressonância magnética, a visão de imagens fofas estimula áreas do cérebro relacionadas ao prazer, levando à liberação de dopamina. Todos sabem, por experiência própria, como é reconfortante olhar para um bebezinho sorridente ou para uma oncinha pintada, uma zebrinha listrada ou um coelhinho peludo. Mas isso não explica o porquê da atual obsessão pela fofura.

Ora, as coisas fofas preenchem um vazio emocional. Uma teoria é que, na sociedade atual, as pessoas têm dificuldade em criar empatia umas com as outras. As fofurices ocupam esse espaço. Essa necessidade é especialmente notável em países onde as pessoas não estão satisfeitas consigo mesmas. E o Japão é o campeão neste quesito. Segundo uma pesquisa alemã citada no artigo de Steinberg, um terço da população do país não está satisfeita com a própria aparência.

Os maiores consumidores de coisas fofas — e isto é estatisticamente comprovado — são as mulheres. Alguns estudiosos dizem que isso é uma prova de que as sociedades estão cada vez mais machistas. Outros, ao contrário, consideram que é um sinal de empoderamento feminino: ao se expressarem com elementos fofos, as mulheres estão assumindo o controle da própria sexualidade. As japonesas adultas que se vestem com uniformes escolares estariam fazendo exatamente isso. É o ero-kawaii, uma mistura de fofo e sexy.

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