Feliciano, Biel e a lógica abusiva OU como funciona a cultura do estupro

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Alex Antunes, no Yahoo!

Está caindo a casa do deputado Marco Feliciano. Acusado de abuso violento por uma jovem correligionária, youtuber e militante da juventude do PSC, Feliciano está agora enredado numa aparente tentativa de abafamento e ocultação.

A explicação mais insider, exceto a do professor dela, Hugo Studard, da UNB, que expôs o caso, é esta aqui, do colunista Leandro Mazzini, que vinha conversando com a moça e teve acesso à troca de whatsapp entre ela e o “pastor”. (Aqui um cache mais explícito de uma nota apagada numa outra coluna, aqui uma postagem do professor explicando porque fechou seu perfil no facebook, e aqui o vídeo com a negação dela, que também foi logo apagado.) Ou seja, nos próximos dias certamente será possível acompanhar mais desdobramentos do caso. O deputado, que gosta de manipular a causação, certamente vai pagar um custo por sua notoriedade moralista.

Mas o que me interessa desenvolver aqui é não o fato em si, mas a conversa no whatsapp. Anteontem, o cantor Biel, aquele que foi denunciado pela repórter Giulia Pereira por comportamento abusivo em uma entrevista em maio, voltou ao assunto para afirmar que gostaria de dizer a ela que “sua carreira (a dele) foi prejudicada”. Giulia, além de ouvir durante a entrevista que Biel “a quebraria no meio” (sexualmente), acabou demitida do IG, assim como sua editora, Patrícia Moraes, que optou por não abafar o caso.

Diz Biel agora: “Eu queria primeiro deixá-la ciente do quanto ela prejudicou minha carreira. É um trabalho de anos, não só meu, mas de um grupo empresarial, de uma gravadora. Ao mesmo tempo, queria agradecer porque eu aprendi muito com isso e poderia ter sido muito pior. Presenciei tudo e sei o quanto estávamos em clima de descontração. Errei por ter feito as brincadeiras que fiz com uma pessoa que não conheço”.

É interessante a escolha de palavras. Biel “presenciou tudo”, teve “prejudicada” sua carreira, que aliás é um investimento não só dele, mas de um “grupo empresarial”. Se, eventualmente, errou, foi por conta de ter feito “brincadeiras” em um “clima de descontração”. Ou seja, na real Biel não aprendeu nada, a não ser que deveria ser mais ardiloso em seus assédio, ou coisa que o valha. Como disse meu amigo, o publicitário Jean Boechat, “gostaria de ‪#‎DeixarCiente como Elisa Samudio e seu ‘sumiço’ prejudicaram o goleiro Bruno” (#DeixarCiente foi uma tag criada ontem para tratar dessas inversões lógicas).

Agora às conversinhas de Feliciano. Destaques meus: “Jovem, a carne é fraca”. “Você é uma moça linda, atraente, sofreu um abuso assim como eu”. “Vem aqui que eu curo você”. E depois: “Quem vai acreditar em você?”. “Não adianta bloquear minhas ligações (…) Com certeza você já contou para seu namoradinho? E se ele ficasse sabendo da história por mim? Certamente ele me daria muito mais credibilidade, não acha? Afinal eu fiz o mesmo com o Tiago e ele te trocou fácil pela vice prefeitura. Pra onde você tentar fugir eu vou atrás de você. Sabe o que mais tenho saudade? De te agarrar e ficar olhando para sua carinha linda de choro gritando não”.

Aspecto a) assim como Biel acha, há uma ordem natural, espontânea, segundo a qual uma moça atraente atrai… abuso. Como os cristãos acreditavam na idade média (e eu também ouvi isso pessoalmente de um importante rabino), a mulher É esse fator desestabilizador que atrapalha a realização, o investimento masculino, com sua tentação.

Aspecto b) obviamente só resta aos homens (e à sua lógica de investimento) criar uma rede de autodefesa em que não é problema fazer uso da mentira sistemática e da brodagem acobertadora (“E quem vai acreditar em você?”), para reduzir os danos.

Do aspecto c), um pouco mais sutil e complexo, falarei mais adiante. Não estou especificamente interessado em desconstruir Feliciano para sua própria base moralista, ainda que ache uma graça irônica na treta – para quem tem um mínimo de inteligência, Feliciano (e Biel, e o goleiro Bruno) já deixaram claro a que vieram: são apenas graus diferentes da mesma lógica de manutenção de poder.

Aqui entro na discussão de se existe ou não uma “cultura do estupro”. Para mim é óbvio que sim: é o funcionamento naturalizado do patriarcado. Não interessa muito se alguns homens têm mais freio moral que outros, e conseguem se conter (até porque, se não conseguirem se conter, terão as mesmas garantias).

Mas naturalizado não é natural. A natureza, mesmo no que ela tem de violenta e amoral, não entende nada de “subterfúgio”. A natureza prescinde de pretextos para ser o que é, movida por seus ciclos e pulsões irracionais (ou seja, por lógicas que não compreendemos, e que nos transcendem).

É a humanidade – e mais especificamente sua fase patriarcal – que introduziram essa dimensão de inquietação. Só que a resolveram da pior maneira possível, que é fazer a merda (porque é inevitável), e depois ter estruturas para varrê-la para baixo do tapete (porque a lógica do investimento não quer perder muita energia com contratempos). Assim, Biel, Feliciano e o goleiro Bruno são partes de um negócio, de uma política e de uma cultura, e só serão incomodados se fizerem muita merda – e ainda por cima derem o azar de sua posição ficar insustentável.

O terceiro aspecto de que eu queria tratar é típico dos traumas abusivos. Notem a estranha passagem em que Feliciano diz “se identificar” com a moça, por também ter sido vítima de abuso. E depois que tira prazer do pavor dela negando-lhe os avanços. É um mecanismo conhecido de reproduzir o abuso.

Essa contaminação/ possessão pela perversão é uma questão central para a humanidade hoje. Afeta desde as relações pessoais até o destino do país (por exemplo, porque Lula e o PT, que chegaram a liderar um processo de transformação real da sociedade, deixaram-se envolver “pragmaticamente” pelos esquemas de sustentação corrupta das campanhas?).

Tanto a vítima de Biel, aos 21 anos, quanto a de Feliciano, aos 22, estão na idade em que as mulheres, antigamente, estavam se convencendo de que tinham que ficar quietas diante de certos “fatos da vida” (not), para manterem uma posição dentro do jogo (masculino) de poder. Hoje, ao contrário, a disseminação de ambientes feministas faz com que se sintam empoderadas (sim, eu gosto do termo) para sustentarem suas denúncias, quando são incomodadas.

Se a vítima de Feliciano aparentemente recuou, é por conta do formidável dispositivo de convencimento/ intimidação que é posto em funcionamento nesses casos. Mas não se engane: não é só porque Biel e Feliciano valem dinheiro e votos; esse mesmo funcionamento se dará em qualquer escala onde haja homens.

Acredito no poder social transformador do feminismo (e só nele) porque homens e mulheres veem, sim, de lugares diferentes esses funcionamentos, sem nenhuma simetria de percepção. Consideremos por um instante que as mulheres são natureza (e não “tentação”), e os homens são cultura (do estupro, e de sua contraface, a noção de pecado). Como o tal Tiago citado por Feliciano, para um homem é mais naturalizado aceitar a corrupção, a conivência em troca de vantagens – enquanto para as mulheres o natural está se tornando jogar a merda no ventilador.

Essa é obviamente uma redução, mas uma redução útil. Um incômodo necessário. Porque a reinvenção da cultura humana em outros parâmetros, a reordenação radical de nossos hábitos, depende não de “boa vontade” (idealizada, yang). Mas dessa fonte de desconstrução impaciente do que é imposto como regra de convívio.

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