O polêmico grupo ‘de Satã’ que quer dar aulas nas escolas dos EUA

Apesar de nome, grupo ateu diz rejeitar noção de sobrenatural e busca incentivar o pensamento crítico em alunos ‘com base na razão’.

Organização apela a leis de liberdade religiosa para oferecer aulas satânicas (foto: The Satanic Temple)

Organização apela a leis de liberdade religiosa para oferecer aulas satânicas (foto: The Satanic Temple)

Beatriz Díez, na BBC [via G1]

Um grupo ateu chamado The Satanic Temple (Templo Satânico) está causando polêmica nos Estados Unidos ao propor as escolas adotem uma atividade extracurricular chamada “clubes de Satã” – descrita como uma aula de formação distinta da proporcionada por grupos religiosos.

A discussão ganha força por ocorrer no momento em que o ano letivo está prestes a começar nos EUA. É quando pais e filhos falam sobre atividades extracurriculares que as crianças poderão frequentar durante o ano.

Há petições do grupo para pedir que as aulas comecem a valer já neste semestre em diversas escolas de cidades Nova York, Boston e Detroit, segundo o jornal The Washington Post.

Mas o jornal explica que o plano do grupo não é promover a adoração ao diabo: o templo rejeita a noção de sobrenatural e defende a racionalidade científica. Satã seria, segundo o grupo, uma “metáfora” para rejeitar todas as formas de tirania sobre a mente.

Ainda de acordo com o grupo, o programa do curso seria formado por aulas de ciências, pensamento crítico, artes e história indígena para crianças do ensino primário. Também haveria exercícios para elevar a autoestima e desenvolver a empatia.

Mas o que se sabe sobre o Templo Satânico?

O fato de o nome da organização remeter a reuniões clandestinas, nas quais se sacrificam animais e se adora a figura de Lúcifer, provocou receio entre muitos pais de alunos.

Porém, o Templo Satânico se apresenta como um grupo ateu cujos objetivos seriam proporcionar igualdade, justiça social e defender a separação entre a Igreja e o Estado. A organização tem sede em Nova York e 20 escritórios espalhados pelos Estados Unidos.

“As pessoas nos veem como diabólicos pelo nosso nome, mas o irônico é que a bondade e o pensamento crítico são nossas crenças fundamentais”, disse à BBC Mundo, o serviço espanhol da BBC, um porta-voz do escritório do grupo em Los Angeles, na Califórnia, identificado como Ali.

Ali explicou que o grupo usa Satã como mascote por interpretar que, segundo a Bíblia, ele desafiou a autoridade de Deus e foi expulso do céu. O grupo, na opinião de Ali, enfrentaria situação similar à do personagem bíblico.

“De forma similar, nós desafiamos a autoridade intolerante na política, na sociedade e na cultura e somos marginalizados por isso. Além disso, recebemos ameaças de morte pela simples associação com o nome”, disse ele.

Doutrina
O grupo, que diz ter mais de 200 mil membros, afirma não acreditar em seres sobrenaturais e se distancia de conceitos como o medo do inferno e da ira de Deus.

Seus dogmas são:
– O indivíduo deve atuar com compaixão e empatia em relação a todas as criaturas, e de acordo com a razão;
–    A luta pela justiça é uma busca constante e necessária e deve prevalecer sobre leis e instituições;
–  O corpo é inviolável, sujeito unicamente à vontade da pessoa;
– A liberdade dos outros deve ser respeitada, inclusive a liberdade de ofender. Invadir de propósito e injustamente as liberdades dos outros é renunciar às suas;
– As crenças devem estar de acordo com o conhecimento científico do mundo. Devemos ter cuidado de não distorcer feitos científicos para que se encaixem nas nossas crenças;
– As pessoas são falíveis. Se cometermos um erro devemos fazer o possível para retificar e resolver qualquer dano que possa ter sido causado;
– Cada dogma é um princípio orientador concebido para inspirar nobreza nas ações e pensamentos. O espírito de compaixão, sabedoria e justiça devem prevalecer sempre sobre a palavra escrita ou falada.

Satã para crianças?
O Templo Satânico foi criticado por suas atividades, especialmente por organizações cristãs. Alguns dizem que o Templo não é uma organização, mas sim uma espécie de brincadeira, sátira ou simples provocação.

Assim, a proposta do grupo de levar sua mensagem para as escolas tem despertado suspeitas, não apenas pela referência ao diabólico, como pelas dúvidas sobre a seriedade da iniciativa.

Ali afirmou que o grupo está encontrando muita resistência, mas também apoio.

“Algumas autoridades se negam a analisar a proposta, enquanto outras nos convidaram a falar nas juntas escolares para conhecer mais detalhes”, afirmou.

“Em relação aos pais, alguns expressaram entusiasmo e estão querendo matricular seus filhos ou se voluntariar durante as aulas. Outros ameaçaram atirar e nos matar se entrarmos nas escolas de seus filhos”.

Liberdade religiosa
O grupo diz que baseia seu pedido para dar essas aulas na existência dos Good News Clubs, programas extracurriculares de estudos bíblicos organizados pelo grupo Children Evangelism Fellowship (Sociedade de Evangelismo Infantil).

Em 2001, a Justiça dos Estados Unidos determinou que nenhum discurso religioso específico pode ser discriminado nas escolas.

“Os evangélicos cristãos, em particular a Sociedade de Evangelismo Infantil, vêm se beneficiando dessa regra desde então”, diz a organização.

“Por ser ilegal discriminar religiões concretas ou que se dê preferência a alguma delas, os clubes extraescolares de Satã não podem ser negados onde operem clubes cristãos ou de outras religiões”.

Para Mat Staver, fundador de um grupo de ajuda legal que assessora a Sociedade de Evangelismo Infantil, o Templo Satânico é “ilegítimo e está disfarçado de religioso”.

“O chamado grupo satânico não tem nada de bom a oferecer aos estudantes e sua única razão de existir é perturbar. Nenhum pai em seu perfeito juízo consentiria que seu filho assistisse a esses eventos”, disse.

Resta saber qual será a resposta oficial dos distritos consultados.

Mesmo após isso, segundo Staver, a palavra final caberá aos pais, que têm que concordar – ou não – com que seus filhos participem das atividades depois das aulas.

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