Perdeu amigos por causa de política? Sorte sua

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Mariliz Pereira Jorge, na Folha de S.Paulo

Se você acompanha política e está nas redes sociais, sabe do que estou falando. Perdi mais amigos e tive desentendimentos com mais conhecidos nos dois últimos anos do que durante a vida inteira. Deve piorar, o destempero generalizado assola corações e mentes sensíveis, desde ontem. O pessoal desceu do tamanco e tem caprichado nos impropérios. Feio, chato, burro, você, que não concorda comigo. Que nível, senhores.

Lembro de amizades do passado que ficaram no caminho por inúmeras razões. A gente perde um contato aqui, falta um tanto de afinidade acolá, alguém lhe pede dinheiro e nunca mais devolve, uma amiga dorme com seu namorado. Hoje, quase todo mundo tem uma história para contar de amizade que acabou por causa de política. Não é a coisa mais adulta a se fazer, já lamentei laços desfeitos, hoje vejo que não é de todo ruim essa reciclagem automática dos últimos tempos.

Não posso pensar numa razão mais besta, mas de certa forma eficaz, de lapidar nosso círculo de amizades. E essa expressão nunca fez tanto sentido. Se você é da minha patota, dentro. Se não é, fora. E assim vamos nos dividindo em grupinhos, como crianças de quinta série. Petralhas para um lado. Golpistas para o outro. Isentões para o cantinho, virados para a parede. Porque não há pior coisa do que não ter convicções, na cabeça da patrulha.

A ruptura é tanta que vem produzindo episódio bizarros. Num anúncio, moradores de uma república procuram alguém para ocupar um dos quartos. O primeiro requisito: ser contra o golpe. Em um post do Facebook, uma pessoa convida para seu aniversário e a confirmação deve ser feita com a #foratemer, nos comentários. Tem uma turma que não se relaciona com gente que usa termos como empoderamento, apropriação cultural, cota. Falou em prol de cota, acabou amizade. E #bolsonaromito? Bem, deixa para lá.

Não me convidem para nenhuma dessas festas pobres. É festa ou convenção de partido? Os círculos de amizades se transformam aos poucos em bolhas, e não há nada pior do que viver numa. Mandar gente chata, gritona e raivosa pentear macaco é uma coisa. Restringir o convívio a uma pequena tribo é atestado de ignorância mesmo.

Quanto mais a gente concorda com pessoas que estejam do mesmo lado político, maiores são as chances de estarmos errados quando o que está em jogo são fatos. É só dar uma espiada nas redes sociais para ver a quantidade de gente que julga com o fígado e não com evidências. As pessoas passaram a editar a vida com o que lhes convêm. Isto eu concordo, então, é verdade. Isto eu não concordo, puta mentira.

Olhando ontem para reações teatrais, exageradas, fora do tom, das pessoas, lembrei de algumas já defenestradas das minhas redes sociais – e da vida, e de tantas outras que entraram na fila. Para todos meu mais solene “já vai tarde”.

Que alívio poder terminar amizades, bloquear desconhecidos com apenas um clique. Sei que tenho sido ignorada ou colocada de castigo num cantinho imaginário. Faz parte. Ninguém é obrigado a aturar ninguém. Não quero eu mesma me fechar numa bolha, mas nesse quadrado não tem espaço para cientista político de Facebook, tampouco para reacionário de esquerda ou de direita. Só você leu todos os livros de história? Só você consegue entender tudo nas entrelinhas? Só você consegue fazer uma análise completa, independente e desapaixonada do momento? Só você, arremedo de mãe Dinah, sabe o que vai acontecer daqui para frente. Cê jura?

Block é vida. Block é amor. Block vai cantar geral.

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