Paralimpíada: `Para eles, não basta competir`

Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, diz que os atletas com necessidades especiais são perfeccionistas a quem só a vitória interessa

Parsons, presidente do CPB: “Não é porque não tenho deficiência que não faço parte desse movimento” (foto: Paulo Vitale/VEJA)

Parsons, presidente do CPB: “Não é porque não tenho deficiência que não faço parte desse movimento” (foto: Paulo Vitale/VEJA)

Alexandre Salvador e Juliana Linhares, na Veja

Sabe aquela frase “Atletas paralímpicos já são vencedores por estarem aqui”? Nem pense em dizê-la a um desses esportistas, ou prepare-se para uma reação furiosa. Quem assegura isso é o carioca Andrew Parsons, 39 anos, comandante dos representantes brasileiros na Paralimpíada do Rio, que começa em 7 de setembro. Em entrevista a VEJA, o presidente do CPB diz que a briga “será por pódio todo dia”, o que lhe permite apostar que o Brasil figurará entre os cinco primeiros colocados. A ideia é reacender no público o frisson causado pela Olimpíada. Não será fácil: até 24 de agosto, nem metade dos ingressos havia sido vendida, e o Comitê Organizador já teve de pedir um caminhão de dinheiro aos governos federal e municipal para evitar que o evento naufrague antes de começar. Apesar disso, Parsons está otimista: além de ver os para-atletas como pessoas perfeccionistas a quem só a vitória interessa, ele aposta no poder de transformação da própria Paralimpíada. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O BRASIL ENTRE OS MELHORES
Somos, de fato, uma potência paralímpica. Mas não uma superpotência. Esse posto é da China e da Rússia. Ficamos em sétimo lugar em Londres 2012, à frente da Alemanha, e o plano agora é subir para o quinto, ultrapassando Austrália e Estados Unidos. Conseguimos isso porque, há quase duas décadas, nos aproximamos de universidades que desenvolvem estudos aplicados ao esporte paralímpico, caso da Unifesp e da Unicamp. Essa aproximação com a academia é tão decisiva que o esporte olímpico passou a seguir tendências que nós, do CPB, desenvolvemos antes. O fisiologista que adotou, nesta Olimpíada, os óculos com luzes especiais para que os nadadores não sentissem tanto o cansaço das provas noturnas é o mesmo que elaborou um projeto de qualidade de sono para que nossos atletas se adequassem à diferença de fuso horário na Paralimpíada de Sydney, em 2000. Em 2004, nossos biomecânicos detectaram que a envergadura do Clodoaldo Silva é maior que a da grande maioria da população, além de ele ter mãos imensas. Só que isso não se refletia em sua braçada. Com um trabalho executado ao lado dos treinadores do nadador, os cientistas fizeram com que a braçada fosse alargada em 30 centímetros. O resultado foram seis medalhas de ouro em Atenas.

ESTIGMA
Não existe essa ideia de que os atletas paralímpicos são “coitadinhos”. Com eles, não tem a frase “Já sou um vencedor por estar aqui”. Eles querem ganhar. São perfeccionistas. Além disso, não são “bonzinhos”, como muita gente pensa. Alguns dos atletas paralímpicos estão entre as piores pessoas que conheço, assim como há outros que estão entre as melhores. A deficiência é apenas uma característica de alguém, e não a definidora. Acho muito ruim quando ouço: “Fulano é um cadeirante”. É como se dissesse: “Sicrano é um usuário de óculos”. Sobre o modo de se dirigir a um para-atleta, o problema está na intenção. Não há nada de errado em falar que alguém é amputado. Já aleijado é ruim, porque soa como se a pessoa fosse incapaz. Os atletas têm piadas internas a respeito disso. Muitos dos cadeirantes se chamam entre si de “chumbados”.

A BAIXA VENDA DE INGRESSOS
Achamos que, na última hora, vai encher de gente. O brasileiro ficou com saudade da Olimpíada, com um gostinho de quero mais. Além disso, nossa aposta é que a primeira medalha de ouro do Brasil vai sair já na manhã do dia 8, o primeiro da competição. Ela vai empolgar o público.

O CUSTO DOS JOGOS
A utilização de recursos públicos na Paralimpíada (um aporte emergencial, de 250 milhões de reais, será dividido entre a prefeitura do Rio e o governo federal) estava prevista desde o início. Mas não esperávamos ter de usá-los. Em 2010, quando negociávamos os patrocínios com empresas privadas, a economia estava aquecida e as empresas, com vontade de nos apoiar. Tinha-­se a expectativa de fazer os dois eventos com capital 100% privado, o que não vai acontecer. É um investimento. Colocar dinheiro num evento que olha para 45 milhões de brasileiros que têm algum tipo de deficiência é fazer algo em prol da sociedade.

CATALISADOR DA MUDANÇA
A Paralimpíada pode empreender uma real mudança de consciência na sociedade sobre o valor do deficiente. Um exemplo aconteceu em 1980. A então União Soviética declarou que não faria os Jogos Paralímpicos porque não havia deficientes no país. Uma mentira óbvia. Em 2013, três décadas mais tarde, foi aprovada uma lei de acessibilidade na Rússia, por causa dos Jogos de Sochi, marcados para o ano seguinte. Ou seja, o esporte ajudou a virar uma chave importante. A Paralimpíada não é em si mesma um evento. É um meio de mudança da sociedade.

EXEMPLO DE SUPERAÇÃO
Por mais que pareça um clichê, todo para-atleta saiu do fundo do poço. Mesmo os que já nasceram com deficiência enfrentaram traumas profundos, por exemplo, na infância. Há um momento difícil, e ele não pode ser minimizado. Agora, no caso de adultos que sofrem um acidente, sair do fundo do poço é uma escolha. Ir trabalhar, não viver só da ajuda do governo, deixar a casa e a proteção da família é uma opção. Mas é claro que há pessoas que não conseguem se recuperar e se entregam ao sofrimento. E elas merecem todo o respeito.

INCLUSÃO NA SOCIEDADE
Esse movimento começou em 2004, com o nadador Clodoaldo Silva, que tem paralisia cerebral e levou seis medalhas de ouro em Atenas. Virou orgulho nacional. Isso mexe com a cabeça das pessoas, porque não é um deficiente pregando: “Você tem de nos respeitar”. É um cara que vira ídolo e que, por associação, nos faz pensar que alguém como ele pode ser um colega de trabalho, amigo ou chefe. Mas é preciso trabalhar também com as crianças sem deficiência. Existe uma modalidade para cegos chamada golbol. É uma espécie de handebol em que a bola tem um guizo. O comitê treina professores de educação física da rede pública para que eles lidem com alunos deficientes. E uma das técnicas que sugerimos é que eles ensinem o golbol, mas vendando todas as crianças. Dessa maneira, elas tateiam como é ser diferente. E como se colocar no lugar do outro.

OSCAR PISTORIUS
Não acho que o crime invalide tudo o que ele conquistou dentro da pista (o corredor sul-africano, biamputado, foi condenado a seis anos de prisão por matar a namorada, em fevereiro de 2013). É uma questão de caráter: o assassino já estava lá. Eu tinha batido papo com o Pistorius algumas vezes e, no dia do crime, fiquei surpreso, pois me lembrava dele como um cavalheiro. Era amável com todos e, quando ia falar com alguém em cadeira de rodas, se acocorava para ficar na altura da pessoa, um sinal de respeito.

AUTORIDADE NO ASSUNTO
Não é porque não tenho deficiência que não faço parte desse movimento. Não tenho de ser mulher para fazer parte do movimento feminista. Entrei como estagiário de comunicação do CPB em 1997. Ou seja, estou nesse ramo há dezenove anos porque gosto. Minha mulher é treinadora da seleção paralímpica de hipismo. Nós nos conhecemos em 2003, quando eu era secretário-geral do comitê e ela foi brigar comigo, pois achava que estávamos sendo injustos na escolha de atletas para o Mundial. E estava certa.

DAR O EXEMPLO
A melhoria na vida dos deficientes deve ser de dentro para fora. O dono do mercadinho deve colocar uma rampa na entrada do seu estabelecimento, mas todos nós temos de pensar que um amigo cadeirante talvez não possa tomar uma cerveja na nossa casa porque não vai conseguir usar o banheiro. Se a sua casa não está preparada para receber uma pessoa deficiente, talvez você não esteja preparado para tê-­la como amiga.

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