‘Véu também é liberdade’: a vida de uma muçulmana feminista no Brasil

_91077388_img_1821

Publicado na BBC Brasil

Dana Albalkhi, 27, veste uma jaqueta de couro, brincos dourados de bolinha e jeans quando encontra a reportagem da BBC Brasil. Formada em literatura inglesa, ela dá aulas num colégio particular de São Paulo e quer voltar a estudar. Sozinha no Brasil, onde chegou há três anos, fez vários amigos brasileiros, e sente saudades da família que deixou na Síria. Dana é mulçumana, mas sua religião – e o véu florido que usa sobre a cabeça – não são o que melhor a definem.

Feminista, a professora diz que, para ela, o hijab é uma forma de liberdade, e não de opressão, como costuma ser encarado. Em agosto, 30 cidades do litoral francês proibiram a utilização do burquíni (traje de banho islâmico,) porque alguns o consideravam uma provocação contra os valores ocidentais. Há duas semanas, a principal instância administrativa francesa, o Conselho de Estado, suspendeu os decretos.

Para Dana, as peças representariam a liberdade de usar o que quiser e viver sua fé. Roupas, diz, não vão impedir que ela seja independente, tenha uma carreira e case por amor.

As brasileiras chegam para mim e falam: mas você está no Brasil, por que você está colocando o véu? Eu que estou aqui sem família e posso fazer o que quiser. É minha escolha.”

“Se eu não usar o véu, não deixo de ser mulçumana. Deixo, sim, uma parte muito importante da religião.”

Dana explica que o uso do hijab está previsto no Alcorão, livro sagrado do Islamismo, e que serviria para que a mulher “se preocupasse mais com questões intelectuais e espirituais do que corporais”. “Maria (mãe de Jesus), por exemplo, usava”, diz ela.

Por manter sua escolha, a síria já foi chamada de mulher-bomba, ouviu piadas sobre Alá e teve atendimento recusado em uma loja. Também há preconceito no mercado de trabalho.

“Quando faço entrevista, eles escolhem quem não usa véu. Por motivos de segurança, podem me passar por centenas de aparelhos, tudo bem. Qualquer mulher pode, usando um vestido curto, colocar uma bomba na bolsa. Terrorismo não está ligado com vestimenta, mas com uma ideologia doente.”

Abaixo, trechos do depoimento de Dana à BBC Brasil:

O véu e a liberdade da mulher

“No Brasil, o conhecimento é quase zero sobre Islamismo e cultura árabe. Não chegam as coisas verdadeiras das nossas práticas e da nossa crença.

Minhas amigas brasileiras fazem perguntas bem simples, mesmo sendo pessoas que já viajaram.

Falo com elas de maneira muito aberta. Elas perguntam como faço para namorar, se posso casar com um brasileiro, com um cristão e ligam todas essas coisas ao véu.

Aqui as pessoas parecem não entender isso, mas lá a gente sofre num mundo machista. Para me proteger, o hijab é uma parte importante da minha vida. E, quando a gente sai para o mundo ocidental, também existe machismo.

Então, se a mulher escolheu não mostrar o corpo, é porque não se sente à vontade. Ela se sente em paz assim. Então, ela é livre, pode ter essa escolha de colocar, e todo mundo tem que respeitar isso. Como todas as mulheres podem andar de biquíni se quiserem, as mulçumanas, se quiserem andar de burquíni, têm direito.

Eu fui à praia e usei um. Olha a pergunta das pessoas: você não pode mostrar o corpo? Poder eu posso, mas não quero. Talvez amanhã eu queira, mas é uma coisa minha.

Aqui no Brasil eu já tirei o véu, andei sem (ele) por oito meses. Sou livre. Minha família sabe, e acredita na minha escolha.

Sou feminista e fazia parte de um grupo online que reunia feminista árabes (e foi criado na Europa). Lá tem mulçumanas e outras que não são. As não-mulçumanas são contra o véu, acham que é repressão. As mulçumanas, como eu, acham que é uma forma de liberdade.

O hijab funciona para mostrar a modéstia. A mulher, com o hijab, deve se voltar a coisas mais intelectuais e espirituais do que corporais ou materiais. Maria, por exemplo, usava.

O uso do véu está no livro sagrado do Islamismo, o Alcorão. Se eu não usar o véu, não deixo de ser mulçumana, mas deixo uma parte muito importante da religião.

Já o niqab (que deixa só os olhos à mostra) não é da religião. Foi inventado culturalmente pela comunidade para controlar as mulheres. Eles oprimiraram as mulheres, infelizmente, e não pararam os homens.”

Feminismo e religião

“A gente tem que criticar os radicais de cada religião, que têm atos machistas e usam a crença para justificá-los. Mas nunca podemos atacar a religião dos outros.

Temos que definir o feminismo fora dela. A causa mais importante é a mulher. Se o mulçumano fez uma besteira, a gente vai atacar, se o cristão fez uma besteira, a gente vai atacar, e se um ateu fez algo, também vamos fazer um escândalo.

Existem homens que usam a religião islâmica como desculpa para controlar as mulheres. E aí a mulher tem que ser do homem porque ele paga as contas ou deu uma casa para ela morar. Se ele não quer mais aquela mulher, ela sai prejudicada.”

Vida no Brasil e saída da Síria

“As brasileiras chegam para mim e falam: ‘mas você está no Brasil, tira o véu, por que você está colocando?’. Eu digo que estou aqui sem família e posso fazer o que quero. A escolha é minha.

Aqui estou praticando minha religião, mas numa forma adaptável, não como estava seguindo na Síria.

Mudei algumas coisas, como dar a mão para cumprimentar homens, o que na Síria não fazia. Aqui é mais difícil, porque saio sempre para encontrar pessoas novas no trabalho. Não é que estou negligenciando minha crença, mas agora não dá. No futuro, vou querer manter o jeito da Síria.

As mulçumanas colocam limite para os homens estrangeiros, que é como chamamos qualquer homem com quem possamos nos casar. Ou seja, qualquer um que não seja nosso pai, irmão, filho, ou sobrinho.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for ‘Véu também é liberdade’: a vida de uma muçulmana feminista no Brasil

Deixe o seu comentário