Alex Dias Ribeiro: uma história fora da curva

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José Geraldo Magalhães, no Expositor Cristão

Nunca realizei uma entrevista na qual o entrevistado pedisse para fazer uma oração antes de iniciarmos. “Vamos falar com o chefe primeiro”, disse o ex-piloto de Fórmula 1 (F1) Alex Dias Ribeiro em nossa conversa que durou pouco mais de 40 minutos no Condomínio Portal do Morumbi, em São Paulo, no início de agosto. Criado em um lar cristão, Alex é a quarta geração de “batistões”, como ele mesmo disse. Só que, para Alex, “Deus não tem netos/as”, motivo que o levou a entregar sua vida a Jesus aos oito anos. A paixão por automobilismo iniciou na infância, em Brasília. Depois disso foi uma longa trajetória, passando pela F1 entre 1976 e 1977 (equipes Hesketh e March). Em 1979 formou dupla com Emerson Fittipaldi na extinta equipe Copersucar-Fittipaldi.

Atualmente, o ex-piloto de F1 é palestrante e mentor de atletas e ex-atletas de alta performance. Já atuou em cinco Copas do Mundo, cinco Olimpíadas, além dos Mundiais de F1. “Nunca disse para os/as atletas que o importante é competir; no esporte de alta performance o importante é vencer”, disse Alex, que já discipulou vários/as atletas, dentre eles Ayrton Senna, por oito meses, e Emerson Fittipaldi.

Nos Jogos Olímpicos Rio 2016, Alex lançou seu sexto livro, “Força para Vencer”, em três idiomas, com 63 mil exemplares, que reúne testemunhos de atletas e ex-atletas que superaram as derrotas pela fé em Deus.

O sonho

Em dezembro de 1956, o pai de Alex Ribeiro foi o primeiro médico a chegar a Brasília. “Ele foi movido pelo sonho de Juscelino Kubitschek”. Na inauguração da cidade teve uma festa que durou sete dias e, como parte desses festejos, tinha uma corrida de automóvel que deixou Alex completamente fascinado. “Quando eu crescer, quero ser piloto”, dizia ele, e foi atrás desse sonho. Estudou e frequentou oficinas a tal ponto de os mecânicos o colocarem para fora: “sai daqui, menino”, conta Alex. O primeiro carro se chamava “car-ckoque, uma mistura de cadilaque com caixote”. Naquela época o bacalhau chegava ao Brasil em caixotes. Alex simplesmente colocou quatro rolimãs num deles e começou a treinar.

Quando Deus diz “não”alexlivro

Depois de muita pesquisa, Alex descobriu o que era necessário para ser piloto, mas achou o sonho impossível. “Comecei a apelar para Deus. Fiz a ficha técnica do carro ideal e disse para Deus: ‘É isso aqui, Senhor. É disso que eu preciso’. Tinha que ser uma Belina com motor mil, câmbio de cinco marchas, quatro carburadores duplos, tamanho das rodas, tala larga e vermelha, mas Deus disse não”. Segundo o ex-piloto, ele ficou bravo com Deus, mas justamente naquela época de crise, o pai dele sofreu um acidente com o fusca e quase morreu, ficando seis meses internado no hospital. O primeiro carro de Alex foi o que sobrou do fusca. “Meu pai ficou meio relutante, mas me deu e com outros três malucos transformamos aquela sucata num carro de corrida, feito sem projeto, sem nada, feito ‘no tapa’ mesmo”. O primeiro passo foi desempenar o chassi e os eixos. Um dia ficou pronto, colocamos um banco em cima e fomos testar. Foi assim que começamos. Chegamos às pistas com aquilo e o povo quase morreu de rir”.

As vitórias

A história de Alex é um pouco fora da curva. Ele tinha pé-quente. Foi bicampeão brasiliense de Kart (1970 e 1971) e estreou na Fórmula Ford em 1972, sagrando-se vice-campeão. No ano seguinte, conquistou o título de campeão, uma das mais importantes conquistas da época para a revelação de novos pilotos. Na carreira internacional foi vice-campeão na F3 e campeão em 1975 antes de passar pela F2. Quando estava na F1, em 1977, Alex sempre levava na carenagem de seu carro a frase “Jesus Saves”, para reforçar a sua crença em Jesus. “Quando instituíram a Fórmula Ford no Brasil, foi a primeira vez que entrei numa corrida para correr de igual para igual. Fizemos de tudo para comprar um carro, os amigos se juntaram, meu pai me ajudou e começamos a correr”, disse. Alex se destacou instantaneamente na Fórmula Ford. Conseguiu um patrocínio e foi para a Europa correr de F3, F2, F1 no final da década de 1970. Estreou na F1 em 1976, depois fez o ano inteiro com a March F1. “Depois disso fui mal e tudo que consegui em dez anos perdi por causa de uma má temporada na F1”, lamentou.

A decepção

Alex vivia, segundo ele, o sobrenatural de Deus para chegar ao topo do automobilismo. “Ele abriu portas e eu sou muito grato a Deus. Quando cheguei à categoria máxima, achei que deveria colher esses frutos”, disse. Entretanto, nem tudo saiu como ele havia planejado. “Para vencer em um esporte de alto rendimento, você precisa ser muito competente. Com essa atitude do ‘eu posso, eu vou vencer’, você gera expectativas muito altas. Quando essa realidade não dá resultados, gera frustração. Então eu fiquei muito frustrado. ‘Poxa, chefe, o Senhor me trouxe até aqui e o Senhor me abandonou na reta final?’ A imprensa faturou muito com minha derrota. As manchetes diziam: ‘Jesus Saves, mas o Diabo vence’. Me senti envergonhado e foi um longo processo para sair do buraco. Veio a depressão, perdi a profissão, meu ganha-pão e minha razão de viver”.

O discipulado

Alex é amigo até hoje do ex-piloto de F1 e campeão mundial Emerson Fittipaldi. Eles se conheceram nas corridas de Kart. “Tínhamos um relacionamento comercial e de admiração. Tive o privilégio também de correr junto com ele na Fórmula 1. Sempre falei de Cristo para ele e depois de 30 anos a ficha caiu. Depois de dois acidentes, fui visitá-lo no hospital, onde lhe entreguei uma Bíblia. Quando cheguei lá, ele disse: ‘ai, ai, estou mal mesmo. Lá vem o Alex me trazendo a extrema-unção’. Fizemos um discipulado com ele e, hoje, ele é um irmão em Cristo”. Outra pessoa com quem Alex fez um discipulado de oito meses foi Ayrton Senna. Depois do acidente em Ímola, todos queriam saber se ele foi para o céu. “Isso porque ele teve um encontro real com Cristo. Fizemos um discipulado com ele, bem discreto, sem ninguém saber, e depois de oito meses dei uma Bíblia para ele. Ayrton estudava muito a Bíblia”.

O ministério

Depois de uma temporada na Inglaterra, Alex foi convidado para fazer parte do Atletas de Cristo, mas não aceitou. Estava decepcionado e resolveu seguir sua rota. “Já que Deus me abandonou eu decidi seguir meus caminhos. Quebrei a cara em todos os sentidos”. Quatro anos depois que tentou fazer de tudo, inclusive ser fazendeiro, um novo convite do Atletas de Cristo foi feito. Então, Alex resolveu aceitar e foi trabalhar como Diretor Executivo. “Descobri a importância do fator psicológico sobre os resultados. Nas Olimpíadas comecei a analisar as máximas que ‘o importante não é vencer e sim competir’, na verdade, no esporte de alta performance, o importante é vencer. Se não vencer, ele está fora. O corpo são e a mente sã resumem o homem em duas dimensões, mas o homem é tetradimensional: alma, força, entendimento e coração. Tendo essas quatro dimensões, é como um motor de quatro cilindros. Se desligar um, ele anda, mas não ganha uma corrida”. Alex Dias Ribeiro deixou suas marcas no automobilismo. Hoje sua vida e vocação estão voltadas para apoiar atletas nos momentos de grande tensão, além de ajudar os/as “perdedores/as a juntar os cacos”.

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