O que não dizer a alguém que foi ferido pela igreja

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Jonathan Hollingsworth, no Church Leaders [via Feridos pela Igreja]

Alguns anos atrás, eu tive minha primeira experiência com o abuso espiritual.

Compelido a servir a Deus de uma maneira radical, eu saí da faculdade, desfiz das minhas posses e me mudei para a África, apenas para ser manipulado, controlado e enganado pelos líderes da organização missionária.

Quando cheguei em casa, meu pastor me deu duas opções: Eu poderia mentir e inventar uma história mais agradável de se ouvir, ou eu poderia simplesmente manter a boca fechada. De qualquer maneira, eu estava proibido de contar a história real, dentro ou fora da igreja.

Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Uma coisa é você ser abusado por pessoas que você mal conhece, mas outra coisa é ser traído por alguém que você confiava e admirava. Eu estava com raiva e deprimido, então eu saí da igreja pela primeira vez na minha vida.

Felizmente, alguns dos meus amigos entenderam o que eu estava passando. Outros, nem tanto. Mas o que eu tenho percebido é que os cristãos podem ser muito ruins em lidar com o abuso espiritual.

Muitas das respostas abaixo eu testemunhei em primeira mão. No passado eu mesmo fui  culpado de dizer algumas dessas.

Aqui estão algumas coisas para não dizer a alguém que foi ferido pela igreja:

1. “Nenhuma Igreja é perfeita”.
Em vez de empatia com aqueles que foram feridos por uma igreja, alguns cristãos se colocam logo no modo de defesa.

Eles podem argumentar que a vítima só teve uma “experiência ruim”. Ou eles dizem que a Igreja está cheia de pessoas imperfeitas que são “apenas humanos” e cometem erros assim como o resto de nós.

Mas podemos concordar que essas desculpas apenas desviam a atenção do problema? Ninguém quer ouvir para “se concentrar em todas as coisas boas que a Igreja faz”, quando eles foram feridos por uma. Não importa quantos milhares de pessoas foram afetadas positivamente por uma igreja ou ministério. As boas experiências não anulam as ruins.

2. “Você está trabalhando para a reconciliação?”
A última coisa que uma vítima de abuso espiritual precisa fazer é voltar logo ao ambiente onde foi ferida.

Se alguém foi atacado por um cão, você diria a ele para voltar e se arriscar a ser mordido de novo? Os cristãos que insistem na reconciliação em face do abuso espiritual estão esquecendo uma coisa importante: as pessoas abusivas nem sempre podem ser responsabilizadas.

Não só é perigoso pedir a uma vítima para fazer as pazes com seus agressores, como  também se coloca um encargo indevido de responsabilidade sobre a vítima de chegar a uma solução. É como dizer: “Eles foram os únicos que te machucaram, mas agora é o seu trabalho fazer a coisa certa”.

3. “Eu não quero fofoca.”
Se um pastor ou membro da alta liderança da igreja está maltratando alguém na congregação, não é fofoca falar sobre isso. Na verdade, não é fofoca você falar sobre isso.

Imagine se você descobriu que o seu cunhado bate em sua irmã. Sua primeira resposta seria: “Isso é da minha conta”? Da mesma forma que a violência doméstica envolve uma família inteira, abuso espiritual envolve uma família: uma igreja inteira. O abuso pode ter ocorrido em privado, mas isso não significa que seja um assunto privado.

Como cristãos, se vamos começar a levar o abuso espiritual a sério, temos de parar de compará-lo com fofocas.

4. “O que são descrentes vão pensar?”
Você já leu a manchete sobre um cristão ir a público contra uma igreja ou ministério e pensou para si mesmo: “Isto é dar um bom testemunho?” Se você está mais preocupado com a reputação da igreja do que com o próprio abuso, você pode estar confuso quanto às suas prioridades.

Como cristãos podemos ficar tão preocupados com a forma como as pessoas de fora verão a igreja, que colocamos as aparências à frente da verdade. Quando tentamos controlar a narrativa, substituímos a realidade da igreja para o nosso próprio ideal de igreja. Tudo o que estamos mostrando ao mundo é que nós preferimos um falso testemunho sobre um mau.

5. “Pare de ser tão amargo.”
Pessoas que foram feridas por uma igreja tem o direito de estar com raiva. Não só a raiva é  uma resposta adequada à injustiça, como é uma resposta saudável se for canalizada da maneira correta.

Então, por que os cristãos têm tanta dificuldade em deixar o outro expressar emoções negativas? Por que sempre têm que buscar algum problema espiritual como sendo a raiz da amargura ou rancor?

Outro dia ouvi alguém colocar desta forma: “A religião vai importunar você e então acusá-lo de ser amargo sobre isso.” Você vê o duplo padrão? Quando as vítimas reagem ao serem feridas por alguém em uma igreja, nós as tratamos como se houvesse algo de errado com elas. É por isso que os abusadores são tantas vezes deixados de lado. É mais fácil, para justificar, deixar o abusador sem cobranças, se ambas as partes estão “erradas”.

6. “Vale a pena causar uma divisão na igreja por isso?”
Como isso pode afetar a congregação nunca deve ser o fator decisivo para expor o abuso ou não.

Este especialmente me atinge. Quando eu escapei da minha situação abusiva na África, o meu pastor queria varrer todo meu sofrimento para debaixo do tapete. Meu silêncio, me foi dito, era para o bem maior do Evangelho. Não era uma sugestão, era um ultimato. Se eu não ficasse quieto, ele avisou, eu traria divisão para toda a congregação.

Uma das maneiras mais eficazes para silenciar a vítima é enchê-la com um falso sentimento de culpa. A vítima é levada a acreditar que falar só vai piorar as coisas, e tudo o que acontece como resultado é culpa dela.

Certamente que expor o abuso espiritual pode dividir uma congregação. Mas isso não é uma consequência da vítima falando. É uma consequência do abuso perpetrado.

Há uma coisa que é ainda mais importante do que saber o que não dizer a alguém que foi ferido por igreja. E isso é simplesmente ouvir.

Jonathan é autor, conferencista, e um Cristão em recuperação. Compelido a servir a Deus de uma forma radical, Jonathan deu todos os seus bens e se mudou para a África apenas para descobrir o que acontece quando fazer o bem dá errado. Seu primeiro livro “Runaway Radical” (Fugitivo Radical) está disponível em inglês pela editora Thomas Nelson. Conecte-se com ele no Twitter, Facebook, Instagram.

Comentários

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2 Comentários

  1. Marta disse:

    Paz seja com os leitores. Li sobre abuso espiritual, estou desde o mês de maio deste ano fora da Igreja onde congregava. O motivo? Abuso espiritual de uma “pastora” dentro da minha casa em um culto no lar, frente a toda igreja (pessoas). Me fez pedir perdão e tudo o mais me expondo perto de toda minha familia (filhos) e parentes, precisei reconciliar e tudo por um recado de Deus sobre a minha vida intima, com direito a acusação, julgamento e veredito. Não volto mais na igreja em que congreguei por 18 anos. Me dizem que não estou sendo humilde, na verdade não quero passar por isso novamente e nem minha familia merece.

  2. Fabiana disse:

    Marta, minha irmã em Cristo. Identifico-me com seu relato.
    Fui passada pra trás por um irmão da igreja, sofri abuso espiritual de quem se dizia profeta e quando falei sobre o problema eu é que virei culpada. Felizmente conseguir me libertar depois de 18 anos, não posso dizer que tudo ali foi errado, costumava ser uma boa igreja, onde aprendi muito e onde me ensinaram muito, mas certas coisas passaram dos limites e por fim nesta última situação, eu fui quase induzida a me sentir culpada, enquanto os verdadeiros culpados foram encobertos em nome de um “bem” maior. Hoje estou feliz numa nova igreja, fui bem recebida, aconselhada, liberta da religiosidade. Estou feliz!

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