A gente nunca mais brigou por futebol

arte: Catarina Bessell

arte: Catarina Bessell

Gregorio Duvivier, na Folha de S.Paulo

No meu tempo, filho, a gente brigava por futebol. Não sei quando foi que aconteceu. Acho que era 2013. Fred caiu na área. “Pênalti!”, gritei. Não tinha sido –mas era tarde demais pra dar o braço a torcer. Continuei: “O juiz sempre rouba pro Flamengo!”. E meu amigo flamenguista: “Mas não é a gente que tá devendo a série B!”. Daí eu falei no gol de barriga, ele falou de novo na série B, daí falei que ele era um imbecil e ele falou de novo da série B (sim, tive que ouvir muito sobre a série B). Foi a última vez que briguei por isso.

Hoje uma briga por futebol parece tão anacrônica quanto um fax. Filho, fax era um telefone que imprimia. Boa pergunta, filho. Não sei por que terminou. Agora que você falou: saudades do fax.

No tempo do fax, a gente não sabia ao certo quem estava de um lado e quem estava de outro. Seus avós, por exemplo, votaram no Lula em 89, FHC em 94, Lula em 98, e não tinham transtorno bipolar. Isso era normal, filho. Mais que isso: era irrelevante. Você podia saber o signo, o time, o CEP, podia saber a cor dos pentelhos, mas não sabia em quem o sujeito votava. Minha avó paterna, por exemplo. Morreu antes do Facebook. Seria coxinha ou petralha? Difícil dizer. Não ocorreu a ninguém perguntar.

Claro que tinham exceções. Todo mundo tinha um tio politizado. Mas era um excêntrico, um louco. Tadinho, não tinha nem com quem brigar. Gritava impropérios apocalípticos na mesa de jantar. Ninguém dava ouvidos. Até que um dia –não sei dizer qual –todos nós viramos esse tio. Talvez tenha sido uma maldição lançada por algum tio cansado de não ser ouvido. Não há uma mesa de jantar em que não se gritem impropérios apocalípticos.

Há quem tente escapar. Mas não é fácil. Chama de impeachment ou golpe? Chama Dilma de ex-presidente ou ex-presidenta? Até a língua te obriga a se posicionar: é impossível chamar de ex-presidentx.

Há quem consiga escapar, é verdade. O famoso “isentão”. Essa palavra tampouco existia, filho. Não existia não porque não existisse o isentão, mas porque isentões éramos todos nós. Bons tempos? Você acha porque não viveu.

Por um lado, hoje a gente discute sobre coisas que de fato podem mudar nossa vida. Por outro, é verdade, o nível das discussões não melhorou. “Foi pênalti.” “Não foi.” “Cala a boca.” “Vem calar.” Ninguém parece, mesmo com todas as evidências, disposto a reconhecer que foi golpe. Digo, pênalti! Droga. Já não sei ser isentão.

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