Ricardo Semler: Precisamos libertar as pessoas de toda a estupidez que criamos nas empresas

Executivo diz que corporações precisam se livrar do modelo fordista para dar liberdade para os funcionários trabalharem e inovarem

Ricardo Semler (foto: Divulgação)

Ricardo Semler (foto: Divulgação)

Barbara Bigarelli, na Época Negócios

Executivo conhecido e reconhecido pela revolução corporativa e de gestão que promoveu dentro do Grupo Semco nos anos 80, Ricardo Semler tem um diagnóstico preciso sobre os dilemas enfrentados atualmente pelas companhias. “Está na hora de percebermos que o modelo Ford, que estabeleceu a forma como nos organizamos, e tem melhorias marginais, não resolve. Estamos com inovações disruptivas e precisamos libertar as pessoas de toda a estupidez que criamos nas empresas”, disse, durante palestra realizada no CEO Summit, nesta terça-feira (18/10), em São Paulo.

Semler defende que a maior parte das corporações hoje continua pensando e trabalhando com as práticas do modelo fordista: “muita gente, muitos processos e uma linha de montagem”. Este jeito de trabalhar reflete-se no culto à meritocracia, na idolatria ao empreendedor solitário (como Steve Jobs) e na vontade de controlar cada funcionário. Como resultado, teríamos um cenário onde a “intuição das pessoas” é ignorada. “A nossa capacidade hoje de pensar alguma coisa completamente nova é muito pequena. Um estudo mostra que a sua chance de inovar dentro de sua própria empresa é menos de 1%”, afirma.

É um mundo, segundo Semler, onde os fundos de private equity tem “convicção absoluta” de que podem gerenciar qualquer negócio e no qual o CEO se vê como empreendedor de si mesmo — e não pensa em como suas decisões impactam os funcionários. Ou até mesmo não tem mecanismos para escutá-los. O resultado? As empresas possuem alto índice de rotatividade — “no setor hoteleiro, por exemplo, de 52%, e no varejo, chega a 130%” — e não conseguem encontrar candidatos para preencher vagas, a despeito do alto desemprego visto no mundo. “Conversei com uma headhunter global na Holanda e é ela me disse que tem 790 mil cargos em abertos há 1 ano e não consegue preenchê-los”, diz.

E por que isto ocorre? “O desenho da meritocracia, das empresas que existem hoje, não atende às pessoas que entram no mercado de trabalhregras, o e querem trabalhar de uma outra forma ou ter flexibilidade”, diz. “A empresa precisa ser desenhada em função da pessoa. Tem que fornecer liberdade de horário, saber que não há livros de regras nenhum e que as regras vão se fazendo”. Esta, porém, é uma consciência que gera medo nos controladores e conselhos, segundo Semler, porque não é possível “controlar as pessoas” ou porque o que impera atualmente é a “crença de que o sigilo de informações é importante”.  “Temos um monte de raciocínios antigos na cabeça. Atualmente, alguém saber o que o concorrente faz é menor dos problemas. Veja aí o segredo que foi o Samsung Galaxy Note 7.  É o resultado de 18 meses de sigilo absoluto”.

Durante a palestra, Semler citou exemplos de práticas que aplicou dentro de sua empresa, enquanto ainda era CEO, e que visavam justamente instituir essa nova forma de pensar e reter talentos. O refeitório da empresa tinha um computador a que todos tinham acesso com informações de salários e balanços. “Você deve tratar as pessoas como adultos — sem se importar com o horário que elas chegam ou se estão bem de saúde. Creches, academias, saúde, não é problema da empresa. As pessoas têm que escolher como viver”, afirma.

Na Semco, os organogramas rígidos acabaram e os orçamentos passaram a ser definidos a cada seis meses. O departamento de RH foi reduzido ao máximo e os próprios funcionários passaram a avaliar quem seria o próximo chefe. O índice de rotatividade chegou a 2%. “Criamos um sistema no qual os subordinados avaliam o chefe por aspectos intuitivos e um sistema de rating. Se a nota for baixa, ele está fora. Foi assim que me tiraram da posição de CEO há 20 anos”.

Virando a mesa

Semler ficou conhecido por “virar a mesa”, escrever best-sellers sobre gestão e recontar sua história para milhares de plateias pelo mundo. A rotina incessante a que se submeteu durante o auge de sua fama acabou afetando sua saúde. O empresário engordou 30 kg e chegou a desmaiar em uma fábrica. Algo estava errado. Mas, mesmo com todas as mudanças que havia feito em sua companhia para abrir mão do controle e aprender a delegar tarefas, Semler não conseguia se desvencilhar das reuniões e se desconectar de sua empresa.

A mudança completa viria em 2005, quando o empresário sofreu um acidente de carro e se mudou com sua família para Campos do Jordão (SP). De lá, ele reduziria drasticamente sua carga horária, dedicaria seu tempo a outros trabalhos e hobbies e até faria uma fogueira onde queimaria todos os livros escritos por ele. Atualmente presidente do Conselho da Semco Partners, Semler também dedica seu tempo a descobrir projetos para investir, embora prefira não divulgá-los.

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