Compromisso com a vida

kadin-olmak-2-1

Ricardo Gondim

Olho o passado com lascas de nostalgia e pontas de melancolia. Caminhos que jamais ousei trilhar hoje me parecem fáceis. O amor que soneguei por exigir coragem volta a me desafiar. Aventuras que nasceram de narcisismo e falsa onipotência reclamam explicações – como justifico para mim mesmo os delírios que me moveram? Um espinho de tristeza me espeta o coração: noto que já joguei tempo fora com projetos triunfalistas.

Não, não pretendo reconstruir o que jaz em alguma caverna do passado. Desisto de qualquer tentativa de ressuscitar o que se aquietou debaixo do lajeado da decepção. Sei, todavia, que a vida se impõe; se perder a gesta heróica me condeno a existir, apenas.

Para refazer meu compromisso com a vida, preciso abandonar o humanismo idólatra. Já não idealizo bravatas que veem de ideologias ufanistas. As instituições carregam dentro de si a semente da inutilidade. Descreio da capacidade humana de erguer-se puxando os próprios cadarços. As revoluções são utópicas e os revolucionários, ambíguos. Também, não me prostro diante do altar niilista. Meu existencialismo assume que fragilidade nunca é defeito. Não tolero pessimistas que validam o discurso de que não adianta querer transformar a realidade – eles colaboram com os poderosos a manter a injustiça e a opressão, do jeito que sempre foi. Reafirmo, porém, que a certeza que viabiliza o idealismo nasce traspassada pela suspeita; qualquer partido político, ideologia ou religião, tem que conviver com a ambiguidade humana. Todos são bons e ruins simultaneamente.

Para refazer meu compromisso com a vida, preciso me desfazer das grandes narrativas. Meu desejo de converter o mundo, agora sei, nasceu de uma cultura eurocêntrica, colonialista. Os “descobridores” foram invasores carregados de soberba. Se desconfio de projetos globais é porque não creio em uma cultura que referencia todas as outras. Não há como não ver incoerência no discurso e prática das cruzadas, dos jihads e das militâncias partidárias.

Deixo de lado os que tentam reduzir a complexidade humana ao racionalismo iluminista. Os sentimentos, tão cheios de altos e baixos, são tão importantes como a própria razão. Cismo com militantes ateus, bem como com os soldados da cruz. Rio ao ouvir ufanismo institucional. Esse meu desapego é jeito de sobreviver ao messianismo. Se um dia abriguei algum Titã, não o aceito mais –  ele me deixava com a sensação de ser semideus.

Para refazer meu compromisso com a vida, preciso desistir de tentar levar a ferro e fogo o que posso considerar imprescindível. Devo fazer as pazes com os erros. Difícil admitir, mas alguns tropeções me fizeram bem. Transgressões me deixaram cioso da força da maldade. Me construí como uma equação, lotado de sinais negativos e positivos. Pequei movido também por boas intenções. Minha vida aconteceu na mistura de sombras e luzes. Se amigos me entristeceram, desconhecidos me acolheram. Paradoxalmente, estranhei gente querida e fui leniente com o estrangeiro. Pequei sempre que rechacei o diferente sem sequer conhecê-lo. Houve momentos em que planejei grandes empreitadas e empaquei. Surpreendido pela vida, triunfei sem planejar. Paguei caro pela indolência. E, incrível, algumas vezes, foi bom para mim postergar o inadiável para o dia seguinte.

Para refazer meu compromisso com a vida, preciso me manter leve como a pluma que escapou da asa do cisne, denso como o ruço da madrugada, escuro como a noite sem lua e transparente como o mar caribenho. Pretendo rearrumar a oratória. Ainda hei de aprender a não despejar clichês em auditórios sequiosos por sentido. Ao discursar, almejo enfatizar mais a ternura do que a força do argumento. Anseio saber entrecortar frases com longas pausas, como fazem os poetas da nostalgia. Anelo me manter brando diante do odioso. Quero aprender, com os monges, a preservar o lugar da solitude como espaço sagrado.

Para refazer meu compromisso com a vida, preciso envelhecer sem zanga. Devo ritualizar os raros instantes do meu futuro, que se abrevia. Quero celebrar cada manhã como uma ressurreição. Prometo aguardar o pôr-do-sol como a grávida anseia o primeiro choro do filho recém nascido.

Refaço o meu compromisso com a vida. Desejo me manter plácido como um lago entre duas montanhas. No derradeiro dia, espero fechar os olhos sem qualquer nesga de frustração e encarar o sábado final com um sorriso maroto; sorriso de quem partiu dizendo: valeu viver.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Compromisso com a vida

Deixe o seu comentário