Como diário em tópicos, bullet journal ajuda na organização cotidiana

foto: Reprodução Instagram

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Juliana Gragnani, na Folha de S.Paulo

Com apenas uma caneta e um caderno, seus problemas de organização podem acabar. Um método organizacional criado por um designer americano, o “bullet journal” (espécie de diário em tópicos) promete ajudar você a se lembrar de regar sempre as plantas, comprar os produtos de limpeza para a casa e pagar as contas, tudo isso sem a necessidade de alarmes ou mensagens na tela do celular.

O sistema, analógico e disseminado nas redes sociais, é um misto de diário com lista de tarefas e registros de objetivos a longo prazo e precisa ser criado do início ao fim pelo usuário.

A primeira página deve ser reservada para um índice que põe em ordem as páginas seguintes. As outras serão divididas entre “planos futuros”, “planos para o mês” e “planos diários”. Pode parecer complexo, mas adeptos dizem que, com o tempo, torna-se simples.

Há símbolos para organizar esses planos e tarefas. O principal deles é o de “migração”: se um dever, como “passar no banco”, não foi cumprido no dia em que deveria, uma seta deve ser registrada indicando que o item passará ao dia seguinte.

A questão não é a seta em si, mas o momento dedicado para refletir sobre o que foi cumprido no dia e o que deixou de ser feito. Itens migrados muitas vezes devem ser repensados: são tão importantes assim?

O tempo que precisa ser reservado para pensar no dia, semana ou meses seguintes talvez seja o principal diferencial do sistema.

“Escrever no papel nos força a desligar desse mundo em que estamos o tempo todo conectados na internet. Esse tempo para si –e nem deve ser muito, cinco minutos bastam– até parece um luxo”, diz Ryder Carroll, 36, criador do sistema, chamado por ele de “inventário mental”.

Quando criança, o designer foi diagnosticado com transtorno de déficit de atenção. O sistema que ele criou e disseminou por meio de um vídeo visto mais de 2 milhões de vezes foi resultado de uma “procura de uma vida toda” por organização e foi monetizado por meio da venda de cadernos personalizados por US$ 24,95 (R$ 85).

“Penso muito em como me organizar, não vem naturalmente”, diz Carroll. Parece dar resultado: marcar uma entrevista com ele tem um arranjo particular, em que o entrevistador escolhe espaços de tempo disponíveis em seu calendário virtual.

À revista do “The New York Times”, o neurocientista americano Daniel Levitin, autor do livro “A Mente Organizada”, observou que o diário em tópicos tem apelo porque ajuda a “externalizar a memória”, já que, só com a mente, nos lembramos de poucas coisas ao mesmo tempo.

EXPOSIÇÃO

Fãs do sistema adaptaram a ideia inicial do criador.

Depois das páginas reservadas para o futuro, o mês e os dias, usuários propuseram o “controle diário de hábitos”, em que “beber dois litros de água”, “correr”, “meditar” etc. são registrados diariamente em uma tabela.

Ali, o bem-estar também pode ser computado –assim, é possível analisar, no fim do mês, se os dias estressantes coincidem com aqueles que não tiveram nenhum exercício físico, por exemplo.

A professora Danielle Tavares, 34, mantém uma página de controle dos chás que tomou no mês, por exemplo. Para ela, adepta do método desde julho, o que mais agrada é personalizar a agenda, pulando dias. Como é o usuário quem vai criando a agenda, pular um dia sem obrigações não é prejuízo. “O espaço em branco me incomodava.”

Renata Moni, 36, designer, diz que gosta do “registro que fica da sua história”. Ela dedica uma hora por dia ao método, aproveitando para treinar caligrafia, atividade da qual gosta. “O método só transferiu os post-its e os bloquinhos para um lugar só.”

Outras ideias tidas pelos usuários foram uma página para “gratidão”; lista de livros, séries ou filmes vistos no mês; alimentação diária.

No Instagram, uma busca por “#bulletjournal” ou “#bujo”, sua abreviação, mostra ao menos 600 mil fotos de cadernos pintados com canetas coloridas e ilustrações.

Ryder Carroll, o criador, se disse “preocupado” com isso. “Pensei que as pessoas estivessem mais preocupadas em impressionar as outras on-line do que com o próprio sistema”, que, segundo ele, funciona da forma mais minimalista –a dele é preta e branca. “Mas se passar mais tempo dedicado ao caderno tranquiliza as pessoas, quem sou eu para dizer que é errado?”

“Se coloco no papel, consigo relaxar”, diz a designer Raquel Abe, 27, que diz que o sistema ajudou com sua organização financeira. Ela adaptou, também, a parte do controle de hábitos: começou a desenhar uma árvore, de forma que, cada vez que se exercitasse, a árvore “cresceria”.

“Acabei não fazendo exercício nenhum, então a árvore nem saiu da terra”, diz. Mas o problema não foi o caderno, defende. “Foi falta de tempo.”

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