Jesus salva e parcela no cartão: quando a cura é um bom negócio

Igrejas neopentecostais incentivam fiéis a abandonar tratamento médico e quem paga a conta é o Estado

foto: TOMÁS ARTHUZZI)

foto: TOMÁS ARTHUZZI)

Juliana Deodoro, na Galileu

No altar, uma senhora em uma cadeira de rodas, com a pele amarelada causada por um câncer no fígado, era exorcizada. Com a mão na cabeça da enferma, o bispo gritava ao demônio responsável pela doença que saísse daquele corpo imóvel e aparentemente sem forças.

Outra mulher participava daquela sessão de cura: ajoelhada e com os braços torcidos para trás, como se estivesse possuída, ela deveria receber os espíritos ruins da senhora da cadeira de rodas. Feita a transferência, foi a vez de exorcizar a segunda participante, que se contorcia como em um filme de terror. Por fim, ela cedeu. “Você estava sentindo alguma coisa?”, perguntou o bispo. “Dores, muitas dores”, respondeu a mulher. “Pode ir ao médico que garanto: o seu sofrimento acabou. A senhora está curada em nome de Jesus.”

Centenas de fiéis, que até então assistiam à cena de mãos dadas e em silêncio, comemoraram em uníssono: “Amém!”.

Localizada na região central da cidade de São Paulo, a Catedral do Brás realiza dois cultos de cura todas as terças-feiras, um pela manhã e outro à tarde. À noite, a celebração é no Templo de Salomão, que fica a menos de cem metros dali e pertence à mesma congregação religiosa, a Igreja Universal do Reino de Deus. Exorcismos acontecem em quase todos os cultos, assim como depoimentos de pessoas que foram curadas e participaram de rituais para tirar a doença do corpo.

O bispo distribui bênçãos e conselhos sobre como levar a vida, que incluem sempre a premissa de obediência a Deus. Ao final da celebração, os fiéis recebem um pacote com um lenço umedecido com a água do Rio Jordão e são instruídos a passá-lo na cabeça, nas costas, no peito, nas mãos e nos pés todos os dias — isso deve ser feito em casa, após a leitura de um salmo.

Mas se a fé faz parte do processo de cura, também não se pode esquecer das contribuições para a igreja feitas por meio do dízimo ou de doações avulsas que assistentes recolhem em sacos de veludo ainda durante os cultos. De acordo com o discurso das principais lideranças religiosas, Deus retribuirá a oferta com recompensas sem fim, uma vida de prosperidade e realizações financeiras e pessoais.

Nos cultos, um dos momentos mais valorizados é o dos testemunhos. É ali que são contadas as histórias de sucesso que inspiram e incentivam os fiéis, como a de Dona Lurdes Matos, de 60 anos, que participa da Igreja Universal como obreira, ajudando os pastores durante os cultos.

Ela foi diagnosticada com câncer no reto e submetida a uma cirurgia para retirar o tumor em janeiro. Depois de 46 dias internada, recebeu alta do médico para “morrer em casa”. Em uma terça-feira, faltou ao tratamento para ir ao culto. O bispo, então, pediu a ela que comesse um pedaço de pão. “Há quanto tempo a senhora não comia pão?”, perguntou, enquanto ela colocava pequenos pedaços do alimento na boca.

Duas semanas depois, a fiel estava de volta: animada, subiu sozinha até o altar e contou ter ganhado cinco quilos desde o último depoimento. “O médico disse que, se melhorar um pouco mais, posso deixar de fazer o tratamento. Há duas semanas, se tivesse ido ao hospital em vez de vir aqui, não teria saído mais”, afirmou. Satisfeito, o bispo perguntou: “Paguei alguma coisa para a senhora falar isso aqui?”. Dona Lurdes e os fiéis riram. “Nada”, ela respondeu.

VAI E VOLTA

A 750 metros do Templo de Salomão, a Unidade Básica de Saúde (UBS) do Brás atende mais de 12 mil pacientes pelo Programa de Saúde da Família — o bairro, conhecido pelas confecções de roupas e pela presença de comércio popular, conta com uma população de cerca de 30 mil pessoas.

Os cadastrados, moradores daquela região, são acompanhados por uma equipe que inclui médico, enfermeiro e nutricionista, entre outros especialistas. Em uma área com mais de 14 igrejas pentecostais e neopentecostais em seu entorno, o discurso de cura e salvação dos cultos torna-se um problema de saúde pública: são frequentes os casos de pacientes que pararam de tomar remédios, deixaram de comparecer a consultas ou não receberam os agentes de saúde em casa motivados pela religião.

Há quatro anos trabalhando na UBS, o médico Victor Hugo Vallois se lembra de pacientes que recusaram o tratamento: os sintomas da doença retornaram com mais intensidade, e eles tiveram de voltar ao serviço de saúde de emergência. “Impressionam esses casos porque são pacientes que iniciam o tratamento, têm uma boa resposta e, de repente, por alguma razão, acabam assumindo esse discurso da crença de forma impregnada”, afirma o médico.

A região do Brás, por sinal, foi o berço das primeiras igrejas pentecostais brasileiras: com uma proposta muito menos liberal que o protestantismo clássico, o missionário ítalo-americano Luigi Francescon chegou ao bairro paulistano em 1910 para fundar a Congregação Cristã no Brasil.

A partir de então, o compromisso de evangelização cristã em defesa da cura divina ganhou popularidade e se espalhou pelo país com diferentes grupos e lideranças religiosas — dados do Censo de 2010 indicam que mais de 25 milhões de brasileiros se declaram como evangélicos pentecostais.

Presentes em cidades de todos os tamanhos e nos bairros mais distantes, essas igrejas conquistam fiéis não somente pela popularidade dos cultos de cura, mas por uma proximidade que muitas vezes o Estado não é capaz de alcançar: se as filas nos postos de saúde e hospitais são enormes e marcar uma consulta demanda uma espera de meses, nas igrejas, os pastores estão sempre à disposição para conversar, abençoar e “tirar” a doença.

A Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo não tem estatísticas que apresentem a quantidade de pacientes que abandonaram o tratamento ou os motivos para essas desistências. Porém, em visita a 12 unidades de saúde em diferentes regiões da capital, a reportagem ouviu em pelo menos sete delas relatos de médicos, enfermeiros e agentes de saúde que já lidaram com situações semelhantes. “Muitas vezes, não é o líder religioso que orienta a abandonar o tratamento — é o próprio paciente que, em um processo de negação de sua doença, negligencia os cuidados médicos”, afirma Alexander Moreira-Almeida, professor de Psiquiatria da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Para Elder Cerqueira-Santos, professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS), é o discurso religioso que leva as pessoas a abandonar a medicina. “Se a causa é espiritual, a cura também é. Para alguém que está em sofrimento, o discurso dogmático da igreja é mais consolador.”

A questão não é exclusiva ao Brasil: um estudo divulgado em 2011 pela Universidade do Texas indicou que a taxa de mortalidade infantil era maior em comunidades com fiéis que frequentavam igrejas pentecostais e outras congregações cristãs mais conservadoras.

Em 2012, o adolescente Austin Sprout, de 16 anos, morreu por causa de uma infecção causada por apendicite depois que a família se recusou a ir ao hospital. Eles frequentavam uma igreja neopentecostal do estado do Oregon. Os pais, Russel e Brandi Bellew, foram condenados a cinco anos de liberdade condicional.

E esse não foi o primeiro caso envolvendo a mesma igreja. Também em 2012, uma mulher foi sentenciada a dois anos de prisão depois de escolher tratar o diabetes do filho de nove anos com orações. E, em 2011, o casal Dale e Shannon Hickman foi condenado a pouco mais de seis anos de prisão depois de não buscar auxílio médico para o filho prematuro, que faleceu em casa em poucas horas.

CONCORRÊNCIA DESLEAL

Infectologista especializado no tratamento de Aids, o médico Artur Timerman já presenciou o abandono de vários pacientes, inclusive de pessoas próximas do seu convívio familiar. “Muitas vezes, parte do interesse dessas igrejas é econômico. Eles encaram o médico como concorrente pelo dinheiro daquela pessoa. O que ela vai gastar com tratamento é um dinheiro que não vai entrar na igreja.”

Na opinião de Timerman, quando o discurso de embate religioso é maior que o de conciliação, o único prejudicado é o paciente. “Estamos todos no mesmo barco. Temos que remar para a frente, não para trás.”

Diagnosticada com epilepsia, Joana (nome fictício), de 56 anos, está há três meses em um centro especial de acolhimento para mulheres na região do Belenzinho, também em São Paulo. Quando chegou, ela recusava todos os remédios anticonvulsivos, além daqueles que controlavam sua pressão arterial. “Ela sabe que tem epilepsia e que se não tomar remédios pode convulsionar.

Mas, ao mesmo tempo, diz que o problema é espiritual, e não médico, e que a única forma de tratá-lo é na igreja”, conta a psicóloga do centro, Monique de Almeida. Após duas crises recentes, em que foi necessário chamar o Samu para resgatá-la, Joana aceitou tomar um dos remédios obrigatórios.

“Chamamos a equipe de saúde aqui, porque se depender dela, ela não vai até a UBS”, diz. “Não podemos obrigar ninguém a tomar remédio, mas tentamos conversar, dizemos que Deus deu a inteligência ao homem para que ele possa ajudar pessoas como ela.” Há duas semanas medicada, Joana não teve nenhuma outra crise, mas continua frequentando a igreja e, diariamente, verifica quais são os remédios administrados, para não tomar nenhum a mais do que o acordado.

Apesar de ser uma área negligenciada por parte dos pesquisadores, há explicações e estudos científicos que comprovam a melhora da condição de pacientes que possuem alguma espiritualidade, especialmente em casos de depressão, tentativas de suicídio, abuso de substâncias químicas, estresse e ansiedade.

Recentemente, a Associação Mundial de Psiquiatria declarou a importância de incluir o assunto no ensino, pesquisa e prática clínica. De acordo com Alexander Moreira-Almeida, há duas explicações para como a religião pode colaborar ou promover a cura de um paciente: pela promoção de comportamentos saudáveis e pelo fato de que o envolvimento religioso pode ocasionar a diminuição de hormônios de estresse e o melhor funcionamento imunológico. “A dúvida é se essas duas vias explicam tudo ou se há realmente algum outro mecanismo que ocorra por vias ainda não bem compreendidas pela ciência atualmente”, afirma Almeida.

Em algumas igrejas, entretanto, o discurso dos celebrantes é menos conciliador. Valdemiro Santiago, ex-integrante da Universal e fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus, tem fama de milagreiro entre os fiéis, que querem abraçá-lo, tirar fotos ou pegar uma peça de roupa do autoproclamado apóstolo.

“Me conhecer não muda nada na sua vida. A vida de uma pessoa muda quando ela conhece Deus. Se Deus quiser derrotar a ciência, ele derrota”, diz. E continua pregando: “Eu só ouço o que Deus fala: nunca li na Bíblia que tenho de viver pela lógica ou pela ciência, vivo pela fé. Até posso acreditar, mas não como regra. Regra é o que Deus diz”.

Em um culto celebrado em uma terça-feira na Catedral do Brás, da Igreja Universal, o discurso de um bispo era ainda mais incisivo. “Quem é maior: Deus ou o cardiologista? Quem é maior: Deus ou o oncologista? Em quem você deve confiar: em Deus ou nos médicos?”

O maior problema é que, para as lideranças das maiores igrejas neopentecostais brasileiras, a lógica do “quanto pior, melhor” apresentada nos cultos é fundamental para manter uma estratégia que alia o crescimento econômico gerado pelas doações, o prestígio político por meio do aumento das bancadas de congressistas ligados a grupos evangélicos e a influência nos meios de comunicação.

Em nome de Deus, projetos de leis são criados e embasam os votos de deputados federais em momentos de definição do futuro do país. “Em primeiro lugar, quero agradecer a Deus a oportunidade de ser eleito por um estado tão maravilhoso como Minas Gerais. Nesse estado nasceu uma pessoa que admiro muito, que é o apóstolo Valdemiro Santiago, e aquela Igreja maravilhosa me ajudou neste trabalho”, disse o deputado Franklin Lima (PP-MG) durante a sessão da Câmara dos Deputados que dava prosseguimento ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Lima foi um dos 367 deputados que votou a favor do impedimento da presidente.

A CURA E O ESTADO

Nascido nos Estados Unidos nos primeiros anos do século 20, o movimento pentecostal cresceu como uma tentativa de resgatar o cristianismo primitivo, com as experiências vividas pelos primeiros apóstolos de Jesus. “O pentecostalismo tenta resgatar esse cristianismo milagreiro e que envolve a eterna luta entre Deus e seus anjos e o diabo e seus demônios pela posse da humanidade”, explica Ricardo Mariano, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo.

Desde a chegada dos primeiros missionários ao Brasil, esses movimentos cresceram de maneira autônoma e ganharam força a partir da década de 1950, com o surgimento das igrejas Deus É Amor e Brasil para Cristo, com concentrações de fiéis em tendas e campos de futebol e por se pautarem na cura divina. A partir da década de 1970, o pentecostalismo assumiu nova forma com a criação de igrejas que pregavam a Teologia da Prosperidade e ficaram conhecidas como neopentecostais. De acordo com esse movimento, o cristão tem direito a uma vida abundante, com saúde e sucesso material.

Maior expoente da Teologia da Prosperidade no Brasil, a Igreja Universal do Reino de Deus foi fundada em 1977 por Edir Macedo e seu cunhado, Romildo Ribeiro Soares (ou RR Soares, para os mais chegados) — que atualmente conta com a própria congregação, a Igreja Internacional da Graça de Deus.

Ao contrário das primeiras igrejas, as neopentecostais são mais liberais em termos de costumes e têm uma estrutura hierárquica rígida. “Já podemos falar de um transpentecostalismo, porque temos igrejas que imitam todas as ondas, elas copiam o que interessa”, afirma Gerson Leite de Moraes, doutor em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Para ele, o que conecta todas essas igrejas não é protestantismo clássico, mas o catolicismo popular. “Eles têm a água benta e os objetos manuseados que promovem cura, entre outras práticas. Os protestantes e evangélicos fazem parte dos que romperam com o monopólio católico, mas o protestantismo segue uma tendência e o pentecostalismo, outra”, diz o professor.

Para ganhar corações e mentes, o projeto de expansão dessas igrejas depende de três pilares: a aquisição de espaços na televisão e no rádio para propagação de seus princípios; a construção de catedrais em cidades de médio e grande portes para ter reconhecimento público de legitimidade; e a eleição de representantes políticos para garantir a influência conquistada. Gerson Leite de Moraes explica que o campo religioso depende da mídia para falar com um maior número de pessoas. E, para conseguir esse espaço, é necessária a influência política. “São três esferas que se alimentam e se relacionam: o campo religioso precisa do campo midiático, que só pode ser conseguido pelo campo político”, diz.

Isentas de impostos, as igrejas movimentam uma quantidade enorme de dinheiro, que até deve ser declarado, mas não é tributado. Em 2015, Edir Macedo foi incluído pela segunda vez na lista dos bilionários da Forbes. De acordo com a publicação, o patrimônio dele era estimado em US$ 1,1 bilhão. Mas se atualmente Macedo conta com um conglomerado de comunicação, o prestígio dos quase 2 milhões de fiéis brasileiros da Igreja Universal e o respeito nos diferentes círculos políticos do Estado — em abril, a presidente Dilma Rousseff ligou para ele em busca de apoio político —, nem sempre as coisas foram tão abençoadas assim: em 1992, o bispo foi preso (e ficou na cadeia durante pouco mais de uma semana) após denúncia do Ministério Público por “delitos de charlatanismo, estelionato e lesão à crendice popular”.

Livre dessas acusações, também teve sua imagem questionada depois de uma reportagem exibida em 1995 pelo Jornal Nacional em que aparecia ensinando os colegas a aumentar as arrecadações dos fiéis. “Você tem que chegar e se impor: ‘Você vai ajudar na obra de Deus. Se quiser, bem, se não quiser, que se dane. Ou dá ou desce’. Você tem que ser o super-herói do povo!”, diz, após uma partida de futebol com seus colegas.

Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 2013 conseguiu, por meio da Lei de Acesso à Informação, dados da Receita Federal sobre o faturamento das igrejas no Brasil — o que inclui católicas, evangélicas e protestantes.

As informações se referem a 2011, quando as denominações arrecadaram R$ 20,6 bilhões, dos quais R$ 14,2 bilhões foram doados pelos fiéis. Como comparação, o orçamento aprovado em 2016 para o Fundo de Saúde da Prefeitura de São Paulo foi de R$ 7,6 bilhões.

Fabio Lanza, Coordenador do Laboratório sobre Estudos das Religiões da Universidade de Londrina (UEL), afirma que, para o fiel, tanto a contribuição financeira quanto o voto em um candidato evangélico são resultado da atividade religiosa. “Para os fiéis, essa lógica de exploração não existe, porque, em sua visão, isso é uma consequência da prática religiosa”, destaca.

Nos cultos da Universal há a coleta do dízimo e doações avulsas, que podem ser feitas em nome de uma pessoa que está doente. A cura, afirma o bispo Francisco Decothé em um culto, também está condicionada à honestidade do fiel. “Vocês estão vendo as notícias de corrupção? Vocês querem ser corruptos com Deus? Pois Deus sabe quando você doa menos do que pode”, diz. Na Igreja Mundial há carnês para cada tipo de necessidade. Para “tirar uma pedra” do caminho, a contribuição é de R$ 153. Para conseguir um carro, são R$ 366. O sonho da casa própria fica mais salgado: são necessários R$ 1.000 para “abrir as portas dos caminhos”.

HIT DO TRIPADVISOR

O Templo de Salomão, os cultos passam uma sensação de serem mais “sagrados”. Muito disso se deve à imponência do lugar. Para entrar ali, o visitante deve passar antes pelo estacionamento. Lá, é obrigado a deixar todos os objetos eletrônicos em um guarda-volumes e enfrenta uma revista com detectores de metal.

Só então é autorizado a subir as escadas que dão acesso ao local do culto, onde mulheres e homens vestidos com túnicas brancas passam gotas de azeite na testa, nas costas, no peito, nas mãos e nos pés de todos que chegam. Sérios, eles indicam o caminho a seguir, pedem silêncio e repreendem quem segue conversando. Uma vez acomodado na cadeira, resta esperar, em oração, a entrada do bispo.

Inaugurado em 2014 com a presença da presidente Dilma Rousseff, do vice Michel Temer, do governador de São Paulo Geraldo Alckmin, do prefeito da capital Fernando Haddad e do ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello, o Templo de Salomão é a joia da coroa da Igreja Universal do Reino de Deus.

São 74 mil metros quadrados construídos, que incluem a nave principal, salas de estudo, apartamentos e quitinetes, estúdios de rádio e televisão, estacionamento para quase 2 mil carros e um museu. Por dentro, ele é ainda mais impressionante. Seis menorás — candelabros de sete braços, conhecidos como um dos principais símbolos do judaísmo — enfeitam as paredes de cada lado.

Uma réplica da Arca da Aliança do Antigo Testamento e a frase “Santidade ao Senhor” ocupam o altar de ponta a ponta. “O Templo de Salomão veio coroar essa ideia de ocupar o espaço público em busca de reconhecimento e legitimidade”, diz Ricardo Mariano, da USP. Para Fabio Lanza, esse projeto fez com que a Universal conseguisse sintetizar características da religiosidade nacional em um grande produto, construindo um monumento religioso capaz de se equiparar às maiores referências da Igreja Católica brasileira, o Cristo Redentor e a Basílica de Nossa Senhora Aparecida.

“Há também a prática das ‘romarias’, com pessoas saindo do Brasil inteiro para conhecer o templo”, conta. No serviço online TripAdvisor, a construção é a 18ª atração mais indicada para turistas que querem conhecer São Paulo.

Há um mês frequentando cultos de cura no Templo de Salomão, o marceneiro Ricardo Costa Alves, de 45 anos, já conseguia enumerar as melhoras que teve desde que sofreu um AVC. “Agora eu consigo andar sem bengala, já tomo banho e me visto sozinho.”

Ele não atribui a evolução do seu estado aos oito remédios que toma todos os dias, nem à acupuntura que começou a fazer e já pretende abandonar. “Com certeza é resultado das orações. As correntes que fiz foram muito importantes. Da igreja eu não saio mais. Só o remédio não adianta nada para mim”, diz.

Contatada, a assessoria de imprensa da Igreja Universal afirmou que não recomenda que os fiéis negligenciem os tratamentos convencionais: “Ao defender preceitos religiosos e atos de fé no auxílio aos enfermos, a Universal sempre destaca a importância da rigorosa observância dos tratamentos médicos prescritos. Jamais devem ser desprezadas as recomendações dos profissionais da saúde”.

Mas nem todos os pastores parecem concordar com o posicionamento oficial. Em um dos cultos presenciados pela reportagem, o bispo Francisco Decothé fez questão de dar a sua opinião sobre a medicina ao conversar com uma fiel que havia recebido diagnóstico fatal de câncer de pulmão. “Existem muitos médicos que têm o demônio. Não são todos, mas são muitos”, disse o religioso.

Em setembro do ano passado, a Igreja Universal foi condenada a indenizar o fiel J.N.M., portador do vírus HIV, em R$ 300 mil por danos morais. Ele procurou a igreja após o conselho de amigos. “Ele viu na igreja a saída para um problema que a medicina não conseguia solucionar”, conta o advogado Guilherme Pavanello Ortiz.

Após ir a cultos, orar e ofertar bens a igreja – ele doou uma televisão e um computador – J.N.M. procurou um pastor e foi aconselhado a abandonar os remédios e a deixar de usar camisinha nas relações sexuais. Dois meses depois, foi internado com pneumonia e passou 40 dias em coma induzido.

A esposa também foi infectada pelo vírus. Na ação impetrada no Rio Grande do Sul, a defesa alegou que a Universal se aproveitou do estado de fragilidade do fiel. A igreja, no entanto, negou que o tivesse orientado a abandonar o tratamento e entrou com um recurso, que foi negado. “É um caso exemplar, uma decisão importante que vai abrir os olhos da Universal para o fato de que não é qualquer pratica que sairá impune”, diz Ortiz.

Acostumado a lidar com pacientes que unem a cura religiosa ao tratamento, Rodrigo Lima, da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, afirma que o médico precisa respeitar a posição do paciente. “Se o médico assume uma posição de confronto com a crença da pessoa, ela vai abandonar o tratamento. A crença é muito mais forte do que a relação do paciente com o médico. O grande ponto é ter um discurso conciliador.”

Mas se a fé é ferramenta importante, mais essencial é a presença do Estado em lugares negligenciados. “Muitas pessoas são levadas pelo desespero e buscam qualquer coisa para diminuir o sofrimento”, diz o médico Abrão José Cury, presidente do Departamento de Clínica Médica da Associação Paulista de Medicina. “Médico não é delegado nem juiz, tem que ser claro e tem que ter compaixão. Não devemos abandonar o paciente.”

Quando deixam o tratamento e apresentam piora no quadro, é quase sempre ao sistema público de saúde que os pacientes recorrem. Quem financia esse serviço básico é o mesmo Estado que isenta as igrejas de impostos e é condescendente com construções de templos em situações irregulares.

“Quando se tem um sistema público frágil, com uma enorme quantidade de pessoas sem acesso à saúde, faz sentido vender a ideia de prosperidade”, afirma Elder Cerqueira, da Universidade Federal do Sergipe. E tudo isso tem pouco a ver com o discurso de liberdade associado à fé. “A cura é um mercado e a saúde é uma grande mercadoria.”

UMA FORÇA POLÍTICA 

A bancada evangélica, uma das maiores do Congresso com seus 92 parlamentares, entre deputados e senadores, é responsável por projetos conservadores, como a definição de que “família” é apenas a união entre mulher e homem, além de uma lei que cria empecilhos para mulheres vítimas de abuso sexual realizarem aborto.

Se fosse um partido, seria o maior em número de representantes, ultrapassando o PT e o PMDB. Deputados evangélicos ocupam 19 cadeiras da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática. É nessa comissão que são analisadas concessões de rádio e televisão. O presidente da Comissão de Constituição e Justiça, a mais importante da Câmara, também é da frente parlamentar.

Isso para não mencionar o próprio ex-presidente da Casa, o deputado Eduardo Cunha. Em 2015, além dos projetos polêmicos que ainda não foram ao plenário, os parlamentares aprovaram uma emenda constitucional que amplia as isenções fiscais para as comissões recebidas por pastores e um projeto de lei que isenta do IPTU os imóveis alugados por igrejas.

 

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